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19 de Setembro, 2019

Amílcar Morais

Data da entrevista: 12 de Junho de 2004

Natural de Águeda, Amílcar Morais é hoje um compositor com um invejável curriculum, não havendo, quase com toda a certeza, um único músico filarmónico que não tenha interpretado alguma obra da sua autoria.

  • Com a sua contribuição e de outras pessoas como você, as filarmónicas portuguesas estão muito diferentes do que eram á 30 anos atrás. Na sua opinião qual será o futuro das filarmónicas portuguesas. Que sentido estas tomarão? José Carlos Banda Escuteiros Barroselas

    A evolução humana nas artes, na ciência e nas inovações tecnológicas, tem sido deslumbrante e imparável.
    Em Portugal, o aparecimento das novas tecnologias a desmantelar as barreiras das comunicações, a proliferação de escolas de música mais bem estruturadas no seio das filarmónicas e também a criação (um pouco por todo o lado) de Conservatórios Regionais com o ensino pedagógico paralelo, escolas de ensino profissional integrado, e ainda, o aparecimento florescente de grande número de jovens talentosos e melhor preparados que se movimentam em intercâmbios e troca de experiências entre si, são, a meu ver, os principais factores que me levam a acreditar e apostar no futuro de melhor qualidade das Bandas Filarmónicas.
    Além do mais, não nos devemos esquecer que elas são e continuam a ser referenciadas, como relíquias e baluartes de respeito, a preservar no quadro da música portuguesa.

  • Hoje em dia apenas uma pequena percentagem de maestros das filarmónicas são compositores, o que não acontecia antigamente. A que se deve este facto? João Ramalheira

    Antes de dar resposta à questão que coloca, temos de entender, que a música não é apenas uma arte, é também uma ciência, que está directamente relacionada com as "ARTES SUPERIORES" as chamadas BELAS ARTES.
    De harmonia com a minha interpretação, não nos devemos esquecer que o padrão de vida, de outrora, era muito diferente. As imensas dificuldades em obter reportório, especialmente para bandas amadoras que noutros tempos eram pequenas em número de executantes e de resposta técnica muito limitada, necessitaram de um envolvimento maior na área da escrita musical. Actualmente não há tanta gente a escrever dada a qualidade de vida permitir não só um acesso fácil às partituras musicais, mas também, porque os auditórios se tornaram cada vez mais exigentes.
    Os talentos musicais deverão ser referenciados num quadro de valores, projectados em três grupos distintos. De acordo com as suas potencialidades vocacionais, há: COMPOSITORES - MAESTROS e INSTRUMENTISTAS.
    Não é obrigatório um maestro ser compositor. Este, para conseguir o seu estatuto, à partida tem de possuir algum talento criativo, ser dotado de sensibilidade e intuição nata (qualidades que não se aprendem nos tratados dos Conservatórios), ter conhecimentos profundos de INSTRUMENTAÇÃO, especialmente no que diz respeito à nomenclatura das famílias dos instrumentos musicais como das suas relações e combinações sonoras e ainda, possuir uma boa técnica de escrita em subordinação às regras harmónicas e contrapontísticas, consagradas pelos grandes mestres.

  • Como compositor, qual a evolução em termos de partituras para Bandas nos últimos 20 anos? Observa essa evolução naquilo que escreve? JEB Cavaco Banda “Os Amarelos”

    Há um velho ditado que diz: "Batendo o ferro é que se fica ferreiro".
    O artista é como o crescimento de uma árvore, para dar bons frutos, requer a mão do tempo.
    Hoje, com outro fôlego, há mais amadurecimento na abordagem às novas sonoridades só que, a composição, é como um poço sem fundo.

  • Qual pensa ser, se é que ele existe, o segredo do sucesso para as bandas filarmónicas? Principalmente aquelas que viveram anos e anos em "anonimato"e agora querem "expandir", dentro das possibilidades... Filarmónica Pedroguense

    Infelizmente, ainda temos muitas bandas filarmónicas, pelo menos no interior do país, que devido à humilde qualidade de vida ou desertificação da sua comunidade, fazem um grande esforço para não se extinguirem.
    As que têm vivido no anonimato e queiram abrir as asas para novos desafios, terão que mobilizar de alma e coração todos os recursos humanos.
    O funcionamento de escolas no seio das filarmónicas com o ensino supervisionado, não esquecendo os maestros que se querem competentes, com qualidades dinâmicas e vocacionadas para um repertório mais jovem, é um caminho a considerar.

  • Como vê a evolução das Bandas Filarmónicas em termos de repertório? JEB Cavaco Banda “Os Amarelos”

    Os maestros da nova geração, bafejados pela facilidade de acesso às Editoras de literatura musical via INTERNET, já conseguem adquirir obras contemporâneas, expressamente escritas para Banda, do melhor que se tem escrito no mundo.
    O processo cultural desencadeado é evolutivo, global e imparável no mundo filarmónico.
    Em Portugal, ainda existem Bandas virtualmente enfeudadas no reportório tradicional. Remar contra os ventos da história contemporânea é, para elas, uma causa perdida.

  • É adepto de um reportório para banda mais tradicional ou prefere obras mais modernas e arrojadas? Galega Fermentelos

    Uma Banda Filarmónica, em pleno século XXI, deve estar sempre atenta aos trabalhos lançados por compositores da actualidade, que nos fascinam e nos deixam maravilhados com a arquitectura dos sons das suas obras.
    Entendo que deve haver alguma sensatez na escolha do reportório. Um concerto será sempre mais harmonioso e agradável quando o seu programa contempla obras de géneros e estilos diferentes.

  • Quais são para si, os aspectos que mais aprecia nas Bandas Filarmónicas? JEB Cavaco Banda “Os Amarelos”

    A execução de uma marcha bem cadenciada num desfile, além do seu porte disciplinado. Aprecio muito a afinação e o equilíbrio sonoro de uma Banda Filarmónica, obtido em obras de grau proporcional às suas reais capacidades.

  • Qual o melhor equílibrio em termos de naipes/número numa Banda Ideal de 44 elementos? JEB Cavaco Banda “Os Amarelos”

    Qualquer Banda constituída com a maior variedade de timbres obtém sempre, como é obvio, um colorido sonoro mais primoroso.
    A tradição, a experiência e ainda, segundo as tabelas elucidativas de musicólogos alemães, uma Banda de 44 elementos poderá encontrar um equilíbrio com a seguinte formação:

    2 - FLAUTAS (Flautim)
    10- C LARINETES
    1 - SAX. SOPRANO
    2 - SAX. ALTOS
    2 - SAX. TENORES
    1 - SAX. BARÍTONO
    6 - TROMPETES
    2 - FLISCORNES
    4 - TROMPAS
    4 - TROMBONES
    2 - BOMBARDINOS
    1 - C. BAIXO
    3 - TUBAS
    1 - LIRA
    1 - CAIXA
    1 - PRATOS (par)
    1 - BOMBO

    Devo dizer, que uma Banda com um maior número de executantes em relação a outra, muitas vezes, poderá não ser a melhor. O que conta é a qualidade e não a quantidade.

  • Qual é a sua opinião acerca das bandas de Águeda? Acha que têm um nível mais elevado que as bandas de outras zonas? A que se deve o nível destas bandas? Na sua opinião quais são as falhas que se podem apontar a estas bandas? Andreia do Flautim Filarmónica de Mões

    O patamar artístico das bandas de Águeda levou-as a conquistar um estatuto musical de certo modo invejável.
    Como as opiniões são sempre subjectivas, não seria ético da minha parte menosprezar o valor de outras Bandas, porque as há e até de nível artístico elevado, só que, as bandas de Águeda têm características especiais, A competição musical entre elas é viva e desejada, e isso é uma força anímica direccionada para projectos mais ambiciosos. São arrojadas, e apostam na inovação.
    O seu nível deve-se a vários factores fundamentais: Com estruturas de apoio muito sólidas, têm a seu favor o estarem inseridas numa zona industrial bastante densa onde capitalizam simpatizantes e amigos preciosos; têm escolas de música próprias bem ordenadas; uma boa parte dos jovens frequentam um ensino mais avançado, nos Conservatórios de Águeda, Aveiro e Coimbra; alem disso, encontram um grande incentivo ao verem um elevado número de profissionais, detentores de cursos académicos de grau superior, nascidos nas próprias filarmónicas. Têm maestros curriculares com visão para novos desafios e, em tempo oportuno, aperceberam-se que uma peça musical bem ritmada é sempre mais contagiante e prende um auditório.
    Pela experiência que adquiri ao longo dos anos, devo dizer, que o sucesso de uma Banda também é ganho na escolha do reportório. Terá de haver uma escolha inteligente, e ponderada das obras adequadas ao momento de circunstância.
    As Bandas de Águeda são importantes embaixadoras da cultura musical do Concelho, e merecem todo o meu respeito. O reparo que faço em relação às suas falhas é, apenas, dentro de uma postura neutra e de ordem construtiva.
    Em primeiro lugar, deverão pôr de parte a ideia (errada) de que as suas actuações nos arraiais justificam o emprego de grande força sonora. Metade, dessa força, seria o ideal em todas as circunstâncias porquanto só sublimariam o seu "STATUTU". O exemplo, como é lógico, vem dos Coros onde os naipes de vozes cantam, e não gritam. A dinâmica aplicada, desde um piano mais ténue até a um fortíssimo, muitas vezes, não é conseguido. Há obras executadas em que os primeiros planos (intervenções de naipes que vão aparecendo no discurso musical e que se devem sobressair) são ofuscados por outros de menor importância, pondo em causa todo um equilíbrio harmonioso baseado nos elementos constitutivos e fundamentais, que são: o Ritmo, a Melodia e a Harmonia.

    Uma das causas mais frequentes de desequilíbrio sonoro das Bandas é a Bateria com todas as suas componentes, a tocar livremente. Sendo a missão da Bateria puramente rítmica e de apoio às grandes sonoridades, não deve impor-se, de maneira alguma, a não ser em efeitos característicos ou a solo.

  • O que acha das rivalidades entre as bandas do concelho de Águeda? Galega Fermentelos

    A competição desencadeia naturalmente a rivalidade, e isso, é um fenómeno social que se gera em qualquer parte do mundo, em todas as modalidades.
    A competição, entre as bandas do Concelho de Águeda, a meu ver, é positivamente benéfica: existe maior entusiasmo, há mais empenhamento e estuda-se com objectividade, de um modo mais sério e afirmativo.
    A rivalidade mais negativa é aquela que transborda e se manifesta, quando há confrontações em despiques nos arraiais. Embora esta tradição desencadeie alguma animação partidária, na expectativa da resposta de cada banda, continuo a defender a execução de um concerto com um programa seguido, portanto sem qualquer alternância.
    Sem confrontações, de “ORA AGORA LEVAS TU, ORA AGORA LEVO EU”, há mais dignidade.

  • Gostaria de saber se o sr. Capitão Amílcar Morais sente saudades do tempo em que era aestro e se gostaria particularmente de voltar a ser maestro da agora intitulada Orquestra Filarmónica 12 de Abril, e digo orquestra 12 de Abril porque esta foi de todas as bandas que dirigiu aquela onde mais marcas deixou e onde permanecerá associado sempre que nos lembrarmos do senhor Capitão enquanto maestro de uma filarmónica. Humberto Moreira

    Devo dizer, que a mudança do nome de Banda para Orquestra Filarmónica foi sugerida por mim, na Cidade de Rio Grande, no decorrer da sua primeira deslocação ao
    Brasil.
    Porque a minha passagem por esta filarmónica foi de certa maneira muito breve, isto veio dar motivo para não sentir ou criar raízes emocionais. Na altura, tratava-se duma banda composta maioritariamente por gente jovem, de formação musical muito limitada. Esta situação exigiu de mim um enorme esforço profissional. A título muito especial e, excepcionalmente, é que dirijo uma ou outra banda na qualidade de maestro convidado.

  • Assim como o poeta Camões exaltou Portugal e o seu povo nos seus poemas, o compositor Amílcar Morais exalta Águeda e suas gentes nas suas composições musicais. Águeda é realmente para si uma admirável fonte inspiradora, não é assim? Jonathan Costa Fermentelos

    Acerca da pergunta em que faz referência ao monstro da Poesia, Luís Vaz de Camões, apenas lhe posso responder convictamente: Há figuras incomparáveis na História do Tempo e das Nações.
    Águeda, tem um património tradicional de grande valia e de muito interesse para os compositores que pretendam exprimir pela música o verdadeiro sentido da alma portuguesa, sendo realmente uma fonte inspiradora para qualquer pessoa não só pelo rio que ali passa, como também pela sua localização geográfica, bafejada pelas paisagens que a envolvem.

  • Qual das suas obras lhe deu mais prazer escrever? Qual delas considera a mais perfeita? Andreia do Flautim Filarmónica de Mões

    A primeira versão da "Laurentina", peça de exame para Bombardino e escrita em 1966 para um concurso em que fui candidato, foi a obra que me deu mais prazer escrever.
    A segunda versão, com o subtítulo de "Quadros Orientais", é para grande banda e vários solistas.
    Os temas são mais desenvolvidos, e tratados num grau de alguma dificuldade para estruturas filarmónicas. Já foi incluída várias vezes, em programas de concertos de gala pela Banda de Música da Força Aérea Portuguesa. Pela Forma, originalidade e unidade no seu discurso temático, considero-a como a mais bem conseguida.

  • Gostaria de conhecer as razões ou significados dos títulos que atribuiu às marchas “1989” e “Caçadores do 1”. Esses títulos têm algum significado especial? Francisco Pereira

    O título da Marcha "1989", brinda um período alto da Banda 12 de Abril, mas de uma forma muito interiorizada.

    A marcha militar "Caçadores do l", foi dedicada a três camaradas da então Banda do Regimento de Infantaria l (Amadora), por serem cinegéticos dos quatro costados e que, todos os anos, no período Venatório, viajavam para o Alentejo à caça dos coelhos, das lebres e das perdizes. Esta marcha ganhou um prémio extraordinário no Concurso de Composições Marciais, promovido pela Região Militar de Lisboa em 1972.

  • Sei que se trata de uma pergunta que não é simples, mas como definiria o seu estilo? Jonathan Costa Fermentelos

    Assumidamente, revejo-me como compositor de Marchas Militares.
    O meu estilo, no mundo filarmónico, assenta na corrente musical cultivada por Americanos e Holandeses, que romperam com a subordinação e o rigor no tratamento das formas musicais.
    As novas sonoridades e os novos ritmos, para os compositores do Século XXI, são a voz da Liberdade.

  • Inspira-se em algum tipo de música ou compositor especial para escrever? Andreia do Flautim Filarmónica de Mões

    Assim como os Santos são referências na fé, também os grandes mestres o são, em qualquer arte.

  • Com que regularidade escreve novas peças? Andreia do Flautim Filarmónica de Mões

    Depende do estado da mente e da alma… como o velejador navega a favor dos ventos e das marés.

  • Tem algum novo projecto a nível de composições, para um futuro próximo? Jonathan Costa Fermentelos

    Tenho em mãos as “ÁGUAS DO BOTARÉU" que pautam a alma aguedense e, só espero, que as vossas perguntas para este"SITE”, ao quedarem um pouco o ritmo e a ordem desse trabalho, não alterem a organização de ideias. Seguidamente, se houver fôlego, irei por em concerto a alma africana, nomeadamente, a de etnia Balanta e Manjaca, da Guiné Bissau.

  • Em todos os seus anos de carreira musical, qual o espectáculo que realizou ou assistiu que ficará marcado para sempre na sua memória? E por quê? Jonathan Costa Fermentelos

    Quando um percurso musical é longo e activo, memorizam-se sempre momentos de emoções fortes.
    Mas o acontecimento mais marcante da minha carreira profissional, único, raro e nunca antes sonhado pela sua espectacularidade, deu-se no Encontro Distrital de Bandas Filarmónicas, no dia 10 de Junho de 2003, na Praça da Canção, em Coimbra, ao reger cerca de 1800 executantes de 35 Bandas Filarmónicas, interpretando uma composição de carácter militar expressamente escrita para esse evento, e o Hino Nacional.
    O porquê, de ter sido eu, o escolhido como maestro convidado para esse festival, que à partida corria riscos e responsabilidades acrescidas, também eu, o quis saber!...
    A Federação de Filarmónicas do Distrito de Coimbra, entidade organizadora do acontecimento respondeu, ser unânime a concordância dos maestros de todas as bandas intervenientes, por um lado, devido à minha popularidade na Zona Centro do País e, por outro, para não se ferirem sensibilidades.

  • Qual a mensagem que o Senhor Capitão deixaria para os jovens músicos do nosso país? Jonathan Costa Fermentelos

    Em primeiro lugar quero saudar todos os jovens músicos de Portugal, e dizer-lhes que a música, segundo dizem as antigas lendas africanas, "é um prémio divino concedido ao
    homem". Em segundo lugar, quero dizer-lhes ainda, que é nas filarmónicas que encontram a melhor terapêutica ocupacional.
    Como o talento não é um valor que se aprenda nas academias, eu proponho, no sentido de desbloquearem dificuldades, que, na vontade dum querer inabalável, digam, com toda a força da vossa alma: EU QUERO, EU POSSO, EU CONSIGO. Acreditem, que um novo dia, irá amanhecer!...