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24 de Agosto, 2019

Antonieta Moreira

Data da entrevista: 19 de Junho de 2004

Desde muito nova, revelou grande interesse para a arte musical e, aos 10 anos de idade, ingressou na escola de música da Banda do Centro Social e Paroquial de Alfena.

  • Em Portugal existem muitas Bandas seculares, algumas delas com estatutos conservadores, como é o caso da Banda dos B. V. de Amares, na qual fui aprendiz, e cujos estatutos referem que a banda só pode ser constituída por pessoas do sexo masculino, o que, felizmente, foi provavelmente esquecido pois há imensas raparigas a tocar. Nunca vos aconteceu terem problemas com pessoas mais conservadoras que ainda existem em abundância nas Bandas deste país, pelo facto de serem do sexo feminino? Tiago Domingues - Banda Filarmónica de Sta. Maria do Bouro

    Eu não tive qualquer problema nesse sentido, pelo contrário, os músicos mais antigos, sentiam a responsabilidade de terem com eles uma menina, (13 anos), e penso até que se sentiam orgulhosos, pois, não havia muitas bandas com figuras femininas.

  • Como Lidam com os comentários “menos favoráveis” que possam existir? Vânia Ferraz – B. N. S. Vict. de Sta. Bárbara - Açores

    Em todas as actividades, podem existir comentários. O segredo, é saber dar-lhes a importância que merecem.

  • Não sendo habitual existir maestrinas, qual a reacção do público ou das bandas com quem se encontram perante este facto? José Alves - Banda Musical de Parafita (Montalegre)

    A reacção do público é formidável. É um misto de surpresa e admiração, que é culminada com os parabéns dados pessoalmente. Referente às Bandas com as quais me defronto, a maioria já estão habituadas.

  • O que as levou a aceitar este papel, tendo em conta que é executado maioritariamente por pessoas do sexo masculino? Andreia Lemos – Banda Filarmónica de Mões

    Fui convidada pela direcção.
    Era responsável pela Escola de Música. Já havia vários alunos meus a tocarem na Banda. Acreditaram e confiaram em mim. Eu aceitei.

  • Na sua opinião, a que se deve o facto de ainda existirem tão poucas mulheres neste ofício? Joel Castro

    Falta de oportunidade e estímulo. Talvez os membros directivos das Bandas de Música, ainda não estejam suficientemente sensibilizados, de que existem mulheres capazes, e, que podem com todo o mérito, assumir a direcção artística das Bandas.

  • Quais as maiores dificuldades que encontraram, ou encontram, como maestrinas? José Cavaco - S. F. U. M. “Os Amarelos”

    Ser maestrina ou maestro, as dificuldades são as mesmas. O maior problema das Bandas de Música é o financeiro. Não há subsídios suficientes da parte das entidades oficiais para minimizar as despesas com o instrumental, fardamento, deslocações da Banda, etc… Esse, no meu ponto de vista, é a maior dificuldade. Como diz o povo, e com razão (Sem ovos não se faz omeletes).

  • Quais as vantagens em ser maestrina? E desvantagens? José Cavaco – S. F. U. M. “Os Amarelos”

    Não tenho vantagens, mas também não tenho desvantagens.

  • Um maestro é, antes de mais, um condutor de pessoas, uma figura de autoridade. Sendo tal papel assumido por uma mulher, podem-se colocar dificuldades de assumpção dessa responsabilidade? Têm tido ou já tiveram, dificuldades em impor a vossa autoridade? Rui Teixeira - Braga

    Quando assumi a direcção artística da Banda de Música, tinha 24 anos. Nesse momento deixei bem presente, que, pelo facto de ser mulher, não ia permitir comportamentos machistas, ou qualquer outro tipo de reacções menos dignas que prejudicassem o bom relacionamento existente a favor da arte musical. Também lhes disse, se houvesse alguém, que se sentisse pouco à vontade por ter que acatar qualquer ordem ou sugestão, que se manifestasse naquele momento. Penso que foi o suficiente. Há já 21 anos que pela primeira vez dirigi a Banda de Alfena, e tenho a certeza que todos os músicos e músicas da minha Banda estão solidários comigo.

  • O facto de ser mulher pode ajudar no relacionamento com os músicos? José Cavaco - S. F. U. M. “Os Amarelos”

    Geralmente resolvo qualquer problema que possa existir, chamando-os em privado, e conversando com eles. Com bom senso e sabedoria tudo se resolve.

  • É difícil conjugar a vossa vida privada com esta actividade? O facto de ter optado pela música impede-as de ter uma vida “normal”, nomeadamente casar ou ter filhos? Andreia Lemos - Banda Filarmónica de Mões

    Sou solteira, mas não se deve ao facto de ser maestrina. Tenho senhoras casadas e com filhos a tocar na Banda. Não. Ser música não impede de ter uma vida (normal).

  • É comum ouvir-se dizer, nas Bandas, que “ensinar uma rapariga é tempo perdido”, aludindo ao facto de esta, na sua juventude ou início da idade adulta iniciar um relacionamento, casar e dedicar-se à família, abandonando muito frequentemente as Bandas. Justifica-se esta forma de pensar? Rui Teixeira - Braga

    Já ensinei música a centenas de alunos (rapazes e raparigas). Estatisticamente, os rapazes acabam por ser em maior número, mas na prática, poucos ficam na sua Banda, abandonando-a muitos deles, aliciados por mais uns euros. As meninas são mais “fiéis”. Não concordo com a expressão: “Ensinar uma rapariga é tempo perdido”.

  • Ao contrário do que sucede com os maestros, que, com alguma frequência, mudam de banda de tempos a tempos, as maestrinas têm tendência para permanecer sempre na mesma banda e por muitos anos. A que se deve este fenómeno? Pedro Teles - Viseu

    Já fui aliciada com propostas para dirigir outras Bandas. Recusei. A que se deve este fenómeno? Amor e dedicação à Banda de Música de Alfena.

  • Como maestrinas, sentem que o facto de ser uma mulher a dirigir a banda motiva a aprendizagem da música por parte de outras mulheres? Acham que a vossa Banda teria menos mulheres a tocar na banda se fosse um homem a dirigi-la? Jorge M. Gomes - Sendim

    Não é pelo facto de ser uma mulher a dirigir uma Banda, que há mais mulheres nessa Banda. Somos apenas três maestrinas em Portugal e Ilhas! Quantos maestros? Quantas centenas ou milhares de mulheres existem nas Bandas?...

  • Gostaria de saber qual o investimento (não financeiro) que foi necessário fazerem para chegar à condição de maestrinas. Esse investimento na vossa formação ainda se mantém? De que forma estão disponíveis para partilhar os conhecimentos adquiridos? António Rosa - Banda Sinfónica da P.S.P.

    Sou autodidacta. Aprendi muito sobre música lendo. Aprendi muito a ouvir pessoas que sabiam mais do que eu. Aprendi a tocar, de um modo geral, instrumentos de que se compõe uma Banda. Frequentei alguns cursos de pedagogia musical e três cursos de regência. Continuo a aprender todos os dias.

  • Qual foi a primeira obre que dirigiu? Joel Castro

    Muito sinceramente, não me recordo.

  • Quais os seus compositores favoritos? Joel Castro

    Para ouvir: Beethoven, Mozart e Rossini.

  • Que mensagem deixariam às raparigas que, eventualmente, pensem exercer essa função? Andreia Lemos – Banda Filarmónica de Mões

    A afirmar-se na sua Banda. Fazer valer as suas capacidades. Serem persistentes e rigorosas consigo mesmas.

  • Num olhar mais directo, Como vêm futuramente a presença feminina nesta actividade? Vânia Ferraz - B. N. S. Vict. de Sta. Bárbara - Açores

    Tudo depende do futuro das Bandas. As Bandas Filarmónicas têm dificuldade em sobreviver a todos os níveis. Não fora o sacrifício e a dedicação de muitos apaixonados pela cultura do nosso povo, as Bandas estariam extintas. Quanto à presença feminina nestas… bem hajam por elas existirem!

  • A maestrina Antonieta é familiar do nosso conhecido compositor (falecido) “Ângelo André Moreira”, compositor, entre outras, das obras “Pérola” e “Incógnita”? Humberto Moreira

    Não. Conheço a família, mas o meu apelido é apenas uma coincidência com o apelido do saudoso Ângelo André Moreira.

  • Gostaria de saber se, há 20 anos atrás, quando iniciou o seu percurso como maestrina, sentiu algum tipo de descriminação ou mau estar por parte da comunidade musical masculina, já que os tempos e a sociedade eram bastante mais conservadores. Humberto Moreira

    Eu sou maestrina da Banda na qual fui aluna. Todos me conheciam e sabiam do meu (jeitinho para a batuta). Houve acordo e confiança mútua. Não senti discriminação. Quanto à comunidade musical em geral, também nunca me fizeram sentir mal.

  • Ao fim de 20 anos de regência, como consegue manter a sua motivação e a dos músicos? É normal haver um desgaste, já que são muitos anos. Tem algum segredo? Humberto Moreira

    Quando alguém me diz: “Antonieta, quando você sair da Banda, eu também saio; Antonieta, eu ainda toco na Banda porque és tu que estás a dirigir; Antonieta, se não fosse você, eu já tinha ido embora há muito tempo. Qual o segredo?!... Não sei!...