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16 de Junho, 2019

António Victorino de Almeida

Data da entrevista: 12 de Maio de 2002

Quando se fala do Maestro António Victorino D’Almeida vêm logo à memória os seus programas televisivos. A sua figura, sobejamente conhecida, é indissociável da televisão. O Maestro é reconhecidamente um comunicador nato: possuidor de uma imagem muito forte, onde não faltam alguns condimentos, como a bengala ou o corte de cabelo, que lhe conferem uma rigorosa exclusividade, o Maestro é alguém que conta com entusiasmo histórias da música, gesticulando fortemente com as mãos, e não se furtando aos pequenos detalhes que aproximam os grandes génios da música do comum dos mortais.

  • O maestro é, como se disse, um homem extremamente conhecido, sobretudo pelos seus programas televisivos, e embora associado à música erudita apraz-nos registar o facto de uma figura com o seu prestígio se interessar pelas Bandas Filarmónicas que muitas vezes são consideradas como uma espécie de parente pobre da música erudita. Concorda com esta visão?

    Para já, ser pobre não é vergonha (risos) e é evidente que se formos a analisar a expressão "pobre", no sentido de terem pouco dinheiro, falta de recursos, falta de sítios para ensaiar, etc. talvez sejam de facto um parente pobre. Agora também é indiscutível que as Bandas são uma das principais escolas em que se têm desenvolvido alguns dos melhores músicos portugueses, particularmente músicos de sopro, e nesse sentido já têm tido um trabalho extremamente meritório e importante. Aliás, é notória a carência de músicos de cordas em Portugal, o que significa que as escolas de cordas não são tão boas…! Instrumentistas de sopro há muitos e até há muito bons, enquanto que, por outro lado, há carência de instrumentistas de cordas. Em suma, as Bandas têm desenvolvido uma função importante e nesse aspecto poderão ser um parente pobre mas apenas porque a família não lhes dá o dinheiro que devia (risos).

  • Mas também não será pela falta de um repertório próprio?

    Isso faz parte também da falta de atenção que lhes é dada. Não há dúvida nenhuma que o repertório das Bandas não se tem renovado ao ponto de se notar a diferença. Por exemplo, há aquelas marchas que, se calhar, até são compostas todos os anos mas são sempre iguais às do ano anterior, de modo que se tem a sensação de que estão sempre a tocar o mesmo. Para além disso há um aspecto que acho que é muito importante e pode ser até quase cómico, nalguns casos, como o de algumas Bandas que tocam aí pelos coretos nas romarias, que é o facto de interpretarem "os Wagner’s… os Verdi’s"… Eu gosto muito que eles toquem essas coisas e o povo gosta muito disso! Eu ando muito pelas romarias no Verão e sei que, se a Banda não tocar essas obras…

    Agora há uma coisa que também é muito importante: quando se toca a "Tanhaüser" gera-se um grande silêncio… e eu acho isso emocionante! A maior parte das pessoas no público não faz ideia de quem foi o Wagner (e algumas das interpretações e adaptações que por aí se tocam são muito más), mas nem sempre esse tipo de qualidade é a coisa mais importante. A verdade é que se a "coisa" se impôs" por alguma razão foi…

  • Tocar a "Tanhaüser", ainda que mal tocada, contribui para dar estatuto à Banda?

    Claro que contribui, e se não a tocar, perde prestígio entre o povo! Depois está-se a dar um fenómeno… ainda há dias vi uma Banda fazer isso… esta ideia de "lamber as botas" seja a quem for... para mim, não interessa a quem se lambe as botas, o acto de lamber botas é mau, portanto "lamber botas" à juventude é mau (risos). Lamber as botas à juventude é dar-lhes tudo o que querem, é dar-lhes a música que a juventude gosta, o teatro de que gosta, o cinema… e na realidade, se perguntarmos à juventude, e eu convivo muito com a juventude, se o que lhes damos foi o que nos pediram, acabam por dizer que não.

  • Não terão as Bandas necessidade de adaptar o seu repertório?

    Ora bem, eu acho que estar a tocar muitas coisas dos "Beatles" e outros do género – e, ainda por cima, a juventude também já não quer saber nada dos Beatles - não é o caminho. A música ligeira é efémera, tem um sucesso de borboleta (risos) vive meses… às vezes vive semanas e desaparece. Está agora a acontecer o seguinte: estou a ver baterias nas Bandas! Acho que é um disparate! A bateria não tem nada que ver com a Banda, a bateria e os instrumentos electroacústicos não pertencem à Banda. A Banda tem a sua estética própria.

    Não me importo nada de ser fundamentalista. Acho que a arte e a ciência não são democráticas, isto é, não interessa o que a maioria pensa. A maioria pensava que a Igreja tinha razão e que o Galileu estava errado…se tivessem feito um referendo para ver quem tinha razão, tinha ganho a Igreja e a ideia de que era o Sol que andava à volta da Terra. Portanto, eu acho que não se deve fazer música em função do público uma vez que o público é sempre reaccionário, quer sempre o retrógrado, quer sempre o que já existe e pede apenas aquilo que já conhece.

    Nunca haveria evolução nenhuma se fossemos perguntar ao público o que quer ouvir…é o mesmo que acontece com o fenómeno das audiências televisivas; Porque é que temos cada vez pior televisão? Porque se está a perguntar ao público o que quer… e ele quer a "chungaria" porque nem sabe que existem outras coisas… e essas "outras coisas" somos nós que temos que lhe dar.

    Para concluir, acho que, em princípio, a bateria ou o instrumento electroacústico não faz parte das Bandas, o que não quer dizer que, um dia possa ouvir uma bateria numa Banda e ache que funcionou optimamente.

  • Ainda a propósito da questão do estatuto das Bandas, o facto de tocar nas ruas, como as fanfarras, por exemplo, também não ajuda a mudar essa imagem de "parente pobre"...?

    Aí é um problema português! Eu acho que, pelo contrário, ajuda. A Banda é música de rua. Eu gosto muito de Bandas e ouço muitas Bandas mas, muito sinceramente, não me vejo a sair de casa e comprar bilhete para ir sentar-me no S. Luís a ouvir uma Banda! Eu gosto de ouvir uma Banda no seu "habitat natural", mas em Portugal considera-se que tocar na rua é vergonha…

    Ainda há dias estive com vários músicos portugueses em Viena e encontramos a tocar na rua guitarristas excelentes…e outra coisa que é muito engraçada: em Viena, Hamburgo, Paris e muitos outros sítios os músicos de rua tocam e vendem discos! Em Portugal quem toca na rua é pedinte…uma pessoa que fosse apanhada a tocar na rua ficava com um anátema para o resto da vida!

  • O maestro é uma pessoa que se interessou pelas Bandas ao ponto de fazer um programa televisivo (N. R. "À Volta do Coreto", 1995) …

    É verdade, e tive muita pena de esse programa não ter tido, por parte da RTP, a devida atenção. A RTP portou-se mal…

  • Portou-se mal?

    Pois…. Acabou logo. Fiz 12 programas e quando eu queria recomeçar disseram-me logo "nem sonhar!" Inclusivamente recebi, de uma Associação de Bandas Filarmónicas, cópia de um documento de protesto que enviaram à RTP por terem acabado com o programa.

    O que aconteceu no início foi que as Bandas reagiram com muito medo à iniciativa e por isso inscreveram-se muito poucas… as 12 que participaram foram as que se inscreveram, nenhuma ficou de fora.

    Nem a Banda da Trofa nem outras de semelhante nível se inscreveram, isto é, não houve uma selecção… Quando acabou a primeira série de 12 programas tínhamos 40 Bandas inscritas, incluindo algumas muito boas.

  • Isso significa que voltaria a fazer sentido a existência de um programa desse género hoje em dia?

    No meu entender esse programa deveria recomeçar, e até poderia ser exactamente nos mesmos moldes, porque era um programa "giro", animado!

  • Considerando a actual "guerra de audiências", acha que as estações de televisão apostariam num programa como esse?

    Ah não, é claro que não, eles não vão apostar num programa desses porque para eles o que tem audiência é "chapadas" e "vai para aquilo…" etc… isso é que eles consideram ter audiências! Note só o seguinte, se ali no café da esquina aparecer o Prof. José Hermano Saraiva, não há quem não o conheça, do mesmo modo que se ele passar aí na rua, não há quem não o conheça; ora este é um fenómeno que deveria ser comparado a Fátima, porque, segundo as audiências, ninguém o vê! (risos) Também é o meu caso… o meu programa com a Bárbara Guimarães… mas esse acredito que não tivesse audiência porque passava às 4 da manhã…

    Nunca houve tão boa televisão em Portugal como quando havia um só canal. Quando havia só um canal, não tínhamos o lixo tóxico da SIC e da TVI.

    Ninguém é imune a ser intoxicado, e eu não sou diferente das outras pessoas. Devo-lhe dizer que nunca vi um "Big Brother" inteiro, mas cheguei a ver o "Big Brother"… e este novo programa do Herman José na SIC (N. R.: "Masterplan") então, consegue ser abaixo de tudo! Moralmente já estamos ao nível do Circo Romano.

  • Na pesquisa que temos vindo a efectuar, verificamos que o fenómeno do aparecimento das Bandas civis surge no Sec. XIX, de forma completamente explosiva, tendo praticamente cessado há cerca de 50 anos atrás. Actualmente, existem em Portugal mais de 500 Bandas civis contando também com os Açores e a Madeira. O caso Açoriano é verdadeiramente exemplar porque num território tão escasso existem dezenas de Bandas de Música! Como é que explica o aparecimento de tantas Bandas de Música em Portugal?

    Eu penso que o aparecimento das Bandas se deveu sobretudo ao facto de as Bandas tocarem na rua! O meio musical mais erudito encontra-se mais afastado das pessoas e, tocando nas ruas, as Bandas conseguem chegar a toda essa gente. Por outro lado, teve muito a ver também com a própria história das Romarias… Romaria sem Banda não tinha interesse.

  • Mas não é estranho que, num período de tantas carências, e considerando todo o investimento económico inerente à criação de uma Banda, estas tenham surgido praticamente todas ao mesmo tempo?

    Pois! É caro, muito caro. Ainda hoje observava a Banda de Lanhelas e todos os instrumentos que a compõem e lembrei-me do custo de tudo aquilo! Naquela altura terá sido ainda mais difícil, mas ainda bem que esse investimento foi feito.

    A cultura, a educação e a saúde são investimentos, e algo vai errado se derem dinheiro! Um país só avança com cultura, educação e saúde, e aqui obviamente que se tem que gastar dinheiro. São investimentos que acabam por dar lucro, mas de uma forma indirecta, por exemplo, considera-se que o Festival de Música de Viena movimenta durante um mês qualquer coisa como 3 a 4 milhões de pessoas; obviamente que não vão todas assistir aos concertos, mas não se pode contabilizar os lucros apenas pelo número de bilhetes vendidos, há que ter em conta o dinheiro gasto em transportes, comunicações, alojamentos, restaurantes, etc.

  • E esta proliferação de Bandas Filarmónicas é um exclusivo do nosso país?

    Não. Também há Bandas nos outros países e com características idênticas às nossas. A Romaria é que é um fenómeno mais português.

  • Que importância atribui às Bandas Filarmónicas no actual panorama musical português?

    Desde logo aquele que lhe referi à bocado, o papel de "escola" e que é fundamental, mas também o de transmitir um pouco de humanidade numa altura em que as pessoas estão cada vez mais isoladas.

  • Sabendo nós que, sobretudo fora das grandes cidades, há cada vez mais jovens a dedicarem-se a esta actividade musical, é curioso verificar que essa tendência não existe relativamente ao público, que continua a ser constituído sobretudo por pessoas de meia idade…

    É, de facto, muito engraçado! Nas Bandas a média etária é baixíssima ao passo que o público que assiste é sobretudo constituído por pessoas de uma faixa etária média-alta, o que significa que se estão a formar 2 grupos de pessoas… estou convencido de que as Bandas formam os futuros ouvintes, se calhar não de Bandas Filarmónicas mas, por exemplo, de orquestras.

  • Se esta tendência não se inverter, as Bandas perdem o público e, por conseguinte, a razão da sua existência…?

    Pois, mas, felizmente, a História não tem lógica, senão já o mundo tinha acabado há que tempos (risos). Pela lógica, as Bandas teriam tendência para acabar, mas o rumo da história é imprevisível. A melhor coisa a fazer é viver o dia-a-dia, vivê-lo bem, o melhor possível, e o futuro se verá!

  • O que é que as Bandas poderão fazer de modo a cativar o público mais jovem?

    Eu acho que é continuarem a ser o que são! Se eu quisesse ser comerciante e, para atrair clientela, me vestisse de bailarina e dançasse em cima do balcão, perguntar-me-iam se eu era comerciante ou bailarina (risos). A Banda oferece o que tem para dar, quem gosta, gosta, quem não gosta que procure outra coisa qualquer.

  • A criação das orquestras ligeiras tem a ver com essa necessidade de chegar a outro estrato do público?

    Pois é, mas o problema é quando a Banda praticamente só toca o repertório da orquestra ligeira. Além disso, eu até acho alguma piada às orquestras ligeiras mas elas não têm nada que ver com o mundo do negócio da música. É ingénuo pensar-se que é com as orquestras ligeiras que se vai conquistar a juventude, não é com certeza! Conquista-se tanto com a orquestra ligeira como com a Banda.

    A orquestra ligeira tem algum interesse mas se for utilizada como complemento da Banda, agora se, como ainda vi há dias, o concerto for todo com base na orquestra ligeira, isso então será desvirtuar completamente a Banda. E mais, as pessoas acabam por ficar chateadas e defraudadas porque vão "para ouvir uma Banda" e não para ouvir apenas repertório de música ligeira.

  • Já alguma vez compôs para Banda Filarmónica?

    Sim e não, isto é, escrevi, na altura do primeiro Festival de Vilar de Mouros, uma Sinfonia Concertante para Banda e Orquestra Sinfónica.

  • Tendo em conta o sucesso da altura, não se repetiram os concertos?

    Repetiram, mas infelizmente sempre mal porque, ora tinha um mau coro e uma boa orquestra, ou o contrário e nunca consegui ter as 2 coisas (risos).

  • Duzentos anos de Bandas Civis, centenas de Bandas e tantos executantes, enfim, consubstanciam uma história que ainda não está escrita; é uma história cheia de peripécias, de episódios curiosos, coisas interessantes, um pouco ao gosto do Maestro. Não daria um bom livro?

    Daria, sem dúvida. Histórias sobre Bandas há muitas nas memórias de Berlioz que foi maestro de Banda. Contava ele que certo dia estava a dirigir a Banda quando o fagotista, que estava perto de si e era extremamente míope, começou a tocar uma escala. Surpreendido, Berlioz olhou para o fagotista uma vez que a escala não fazia parte da obra que estavam a interpretar, e então percebeu o porquê da escala: estava um percevejo a subir pela pauta! (risos)