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24 de Agosto, 2019

Dolores Spínola

Data da entrevista: 19 de Junho de 2004

Nasceu em 1981 na Madeira. Iniciou os seus estudos musicais aos 11 anos no Conservatório de Música de Santana, onde estudou guitarra com os Professores João Ascenção e Humberto Fournier. Em 1996, ingressou na Banda Municipal de Santana onde aprendeu a tocar Saxofone.

  • Em Portugal existem muitas Bandas seculares, algumas delas com estatutos conservadores, como é o caso da Banda dos B. V. de Amares, na qual fui aprendiz, e cujos estatutos referem que a banda só pode ser constituída por pessoas do sexo masculino, o que, felizmente, foi provavelmente esquecido pois há imensas raparigas a tocar. Nunca vos aconteceu terem problemas com pessoas mais conservadoras que ainda existem em abundância nas Bandas deste país, pelo facto de serem do sexo feminino? Tiago Domingues - Banda Filarmónica de Sta. Maria do Bouro

    Não. Porque na altura em que eu fui aprendiz a Banda Municipal de Santana já era maioritariamente constituída por mulheres.

  • Como Lidam com os comentários “menos favoráveis” que possam existir? Vânia Ferraz – B. N. S. Vict. de Sta. Bárbara - Açores

    Ninguém gosta de conviver com a crítica . Mas quando ela aparece tento ser superior às adversidades: desprezo as ninharias e tenho em atenção as críticas que realmente merecem crédito. Pelo diálogo, defendo com firmeza, os meus pontos de vista, mas mantenho uma abertura para aprender com os outros. Aproveito essas críticas para me conhecer melhor e corrigir os meus erros.

  • Não sendo habitual existir maestrinas, qual a reacção do público ou das bandas com quem se encontram perante este facto? José Alves - Banda Musical de Parafita (Montalegre)

    Em relação ao público a primeira reacção é sempre um olhar surpreso, a segunda já é um sorriso caloroso e algumas pessoas vêm me elogiar o facto de ser mulher e estar perante um desafio normalmente associado ao sexo masculino. Por parte do público tenho recebido muita força e afecto.
    No que respeita às bandas é comum a tendência para pôr “rótulos” em função do sexo e da idade.

  • O que as levou a aceitar este papel, tendo em conta que é executado maioritariamente por pessoas do sexo masculino? Andreia Lemos – Banda Filarmónica de Mões

    Sinceramente foi algo que nunca ambicionei , mas por força das circunstâncias aceitei o cargo. Já que a minha banda estava com dificuldades em encontrar um novo regente, assumi a função por ser um dos elementos com mais habilitações musicais. Embora senti-se da parte da direcção da banda e mesmo de alguns músicos um certo receio, pelo facto de ser mulher. Lembro-me que sentia uma certa insegurança mas com o tempo foi adquirindo mais confiança, domínio, coragem, firmeza e espirito de iniciativa. Devo dizer que na minha banda o ser mulher já não é uma barreira.

  • Na sua opinião, a que se deve o facto de ainda existirem tão poucas mulheres neste ofício? Joel Castro

    No que se refere à Madeira, rarissimas são as que têm esse tipo de ambição. Certamente no continente será outra realidade. O que trava muitas mulheres é o risco de rejeição social ou até mesmo por influência ou pressão da banda em que se insere. Vivemos numa sociedade que infelizmente julgam as mulheres de modo superficial como se o sexo fornecesse indicações seguras sobre as capacidades de liderar uma banda filarmónica. E muitas vezes se esquecem de uma verdade elementar: “as aparências iludem “.

  • Quais as maiores dificuldades que encontraram, ou encontram, como maestrinas? José Cavaco - S. F. U. M. “Os Amarelos”

    Não chamaria dificuldades , mas antes desafios a enfrentar. Confronto-me sempre com a necessidade de ter uma aprendizagem constante sobre a arte de direcção. Na Madeira somos limitados porque não realizam cursos de regentes. Tive a oportunidade de frequentar um curso em Ermejeira / Torres Vedras, mas é sempre pouco, tenho sede de sabedoria.
    Tive também um desafio inicial que foi sem dúvida o mais difícil . O de lidar com o comportamento de alguns músicos , já que estes haviam sido meus colegas. Inclusive cheguei a ouvir de um musico as seguintes palavras : “ Não estou habituado a ser mandado por uma mulher”. Houve também uma situação muito embaraçosa em pleno serviço, em que alguns músicos queriam tomar decisões por mim. Mas eu não puderia ser indiferente a faltas de respeito e incumprimento de horas. Foi necessário muita persistência para que me aceitassem e me respeitassem.

  • Quais as vantagens em ser maestrina? E desvantagens? José Cavaco – S. F. U. M. “Os Amarelos”

    O facto de ser maestrina fez-me ver que esta função não é tão fácil como imaginava. Como qualquer tipo de cargo existem vantagens e desvantagens. No que respeita às vantagens tenho uma aprendizagem constante, adquiro experiência musical, tenho a oportunidade de interpretar peças, escolher o repertório e dar auge à minha criatividade. Já nas desvantagens há o peso da responsabilidade, o ter que fazer uma ou outra repreensão, ter que tomar decisões apressadas em situações decisivas e a falta de apoios por parte do governo que limita-nos imenso na realização de alguns projectos.

  • Um maestro é, antes de mais, um condutor de pessoas, uma figura de autoridade. Sendo tal papel assumido por uma mulher, podem-se colocar dificuldades de assumpção dessa responsabilidade? Têm tido ou já tiveram, dificuldades em impor a vossa autoridade? Rui Teixeira - Braga

    É evidente que essas dificuldades existem. Inicialmente o facto de ser mulher me dificultou essa tarefa. Mas tal como todos os maestros nós temos que influenciar os músicos e levá-los a atingir as metas desejadas . Isso implica conhecer cada músico, sobretudo o seu nível de competência para estudarmos a melhor forma de interagir com eles. Tanto o estilo autoritário como o democrático são eficazes, desde que usados com os músicos certos nas ocasiões adequadas.

  • O facto de ser mulher pode ajudar no relacionamento com os músicos? José Cavaco - S. F. U. M. “Os Amarelos”

    Para existir uma relação saudável com os músicos o facto de ser homem ou mulher é indiferente. Depende muito das características da personalidade do maestro/maestrina e na forma como estes tentem perceber o universo alheio. Temos que aceitar os músicos como são, não querer modificá-los à nossa imagem nem estar constantemente a repreende-los, só porque não comungam das nossas preferências . Temos o dever de propor ,através do diálogo , as nossas ideias e atitudes, mas não é legitimo impor pela força.

  • É difícil conjugar a vossa vida privada com esta actividade? O facto de ter optado pela música impede-as de ter uma vida “normal”, nomeadamente casar ou ter filhos? Andreia Lemos - Banda Filarmónica de Mões

    Não. Certamente porque ambos estamos ligados à área musical.

  • É comum ouvir-se dizer, nas Bandas, que “ensinar uma rapariga é tempo perdido”, aludindo ao facto de esta, na sua juventude ou início da idade adulta iniciar um relacionamento, casar e dedicar-se à família, abandonando muito frequentemente as Bandas. Justifica-se esta forma de pensar? Rui Teixeira - Braga

    Sim e não. Sim, porque realmente houve no passado muitos casos em que as mulheres acabavam por desistir das bandas por esse motivo e ainda hoje acontece mas em minoria.
    Não, porque hoje em dia tanto a mulher como o homem abandona as bandas mais pela razão de quererem tirar um curso superior e quando arranjam um emprego não conseguem conciliar ambas as coisas.

  • Ao contrário do que sucede com os maestros, que, com alguma frequência, mudam de banda de tempos a tempos, as maestrinas têm tendência para permanecer sempre na mesma banda e por muitos anos. A que se deve este fenómeno? Pedro Teles - Viseu

    Julgo que se deve ao facto de não esquecermos as nossas origens e criarmos raízes na banda que nos viu nascer. Mas mesmo que quiséssemos alguns homens sentem que nós invadimos o seu espaço e algumas bandas ainda não nos aceitam com muito bons olhos. Daí não termos também a oportunidade de mudarmos de banda assim com tanta frequência.

  • Como maestrinas, sentem que o facto de ser uma mulher a dirigir a banda motiva a aprendizagem da música por parte de outras mulheres? Acham que a vossa Banda teria menos mulheres a tocar na banda se fosse um homem a dirigi-la? Jorge M. Gomes - Sendim

    Não sei se realmente foi esse o motivo porque já na altura em que eu fui aprendiz as mulheres já eram um grande numero presente nesta banda e no entanto era um homem a dirigir. Desde que assumi a regência tentei foi aumentar o numero de aprendizes por coincidência ou não, a maioria são mulheres.

  • Gostaria de saber qual o investimento (não financeiro) que foi necessário fazerem para chegar à condição de maestrinas. Esse investimento na vossa formação ainda se mantém? De que forma estão disponíveis para partilhar os conhecimentos adquiridos? António Rosa - Banda Sinfónica da P.S.P.

    O investimento na minha formação foi o frequentar o conservatório de musica e procurar participar em cursos de jovens músicos, de regência e de manutenção de instrumentos. É algo que se mantém e que assim que surjam oportunidades vou continuar a investir. Ainda tenho muito que aprender e muita experiência a adquirir antes de partilhar esses mesmos conhecimentos.

  • Qual foi a primeira obre que dirigiu? Joel Castro

    The Sousa March King.

  • Quais os seus compositores favoritos? Joel Castro

    Nomes como: Bernstein, Gershwin, Paul Hindemith, John Williams, Andrew Loyd Webber…entre muitos outros.

  • Que mensagem deixariam às raparigas que, eventualmente, pensem exercer essa função? Andreia Lemos – Banda Filarmónica de Mões

    Quando queremos exercer a função de maestrinas temos que sobretudo adquirir a técnica de direcção, transmitir autoconfiança e ter uma boa relação com os músicos. A mensagem que deixo é que sejam persistentes nesta constante aprendizagem e que não desistam à primeira dificuldade. Se é isto que realmente querem lutem até conseguirem, força!!!

  • Num olhar mais directo, Como vêm futuramente a presença feminina nesta actividade? Vânia Ferraz - B. N. S. Vict. de Sta. Bárbara - Açores

    Julgo que a presença feminina será uma realidade cada vez mais patente nesta actividade, embora caminhe em passos lentos. Gostaria imenso que muitas mulheres tivessem esta ambição para mudarmos a ideia de que só os homens conseguem ser uma figura de autoridade.

  • Das 3 entrevistadas, com 22 anos, a maestrina Dolores Spínola é a mais nova. Certamente conhece ou já ouviu falar da Joana Carneiro que, aos 28 anos, é talvez o expoente máximo das maestrinas portuguesas. Actualmente nos EUA, é maestrina da Orquestra de Câmara de Los Angeles e já ganhou vários prémios. Gostava de saber se tem em mente um objectivo semelhante, procurando ser maestrina de uma orquestra sinfónica ou de sopros mas fora do país uma vez que por cá pouca coisa existe. Humberto Moreira

    Joana Carneiro ,é sem duvida, uma referência de muito talento e um grande estimulo a muitos jovens. Mas os meus projectos futuros são bem diferentes. Ambiciono tirar o curso superior de guitarra em Espanha e mais tarde aprofundar os meus conhecimentos nos EUA, e em simultâneo tirar o curso de cinema e teatro.

  • Como é estudar guitarra e de repente se ver maestrina de uma Banda de sopros, uma realidade tão diferente, desde a afinação aos pormenores técnicos. Considerando que o maestro/maestrina deverá ser uma espécie de “expoente máximo” dominando um pouco de tudo, como tem sido para si lidar com isso? Já tinha tido algum contacto com as filarmónicas antes de ser maestrina? Humberto Moreira

    O meu percurso musical não foi limitado à área da guitarra. Em simultâneo estudei saxofone no conservatório e sempre pertenci à Banda Municipal de Santana, onde mais tarde tornei-me monitora de aprendizes. Em termos da afinação e pormenores técnicos aprendi o básico nas disciplinas de composição e acústica. E não fiquei por aqui, frequentei vários cursos do inatel. Mas mesmo tendo esta preparação surgem sempre dificuldades que só aprendemos com a experiência e uma aprendizagem contínua.

  • Gostava de saber o que pensa da realidade das Bandas do arquipélago madeirense, por comparação com as do continente. Humberto Moreira

    A Madeira por si só tem as suas limitações geográficas. O facto de vivermos numa ilha e existirem por volta de 19 bandas muito próximas umas das outras nos impede de obter um numero maior de músicos e de serviços – que por consequência reflecte-se no tamanho das bandas e no baixo dinheiro em caixa. Já para não falar quando enviamos um instrumento ao continente a concerto pagamos mais do transporte dele do que propriamente do seu arranjo. Vocês possuem vantagens que nós nas ilhas não temos acesso. No que respeita à falta de apoios por parte do governo é um mal geral. Que nos impede de possuir uma casa de ensaio com boas condições acústicas, transporte próprio, instrumentos novos e trava a realização de projectos que impliquem um investimento financeiro.

    Sem dúvida são realidades distintas, embora enfrentemos dificuldades em comum.