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19 de Setembro, 2019

Hugues Kesteman

Data da entrevista: 16 de Janeiro de 2005

Se há alguém em Portugal que devesse ser homenageado pelo excelente trabalho desenvolvido em torno de uma área, na música, com grandes lacunas até então, esse teria de ser, dignamente, o Prof. Hugues Kesteman. Chegou a Portugal em 1992 para trabalhar numa orquestra, Regie Sinfonia, no Porto. O máximo que lhe era exigido era que cumprisse o seu papel como músico e nada mais. Não tinha qualquer concorrência. Não havia quem! O fagote era um instrumento “quase” desconhecido em portugal! O que é certo é que 14 anos após, mais de 200 fagotistas lhe podem agradecer o privilégio de saber tocar fagote ou de viver, profissionalmente, dele. Este professor imprimiu uma dinâmica tal, que, pessoas com mais de 60 anos e crianças com menos de 7 anos quiseram aprender este "maravilhoso" instrumento. Nesta entrevista o Prof. Kesteman fala ainda de assuntos muito pertinentes e muito actuais, para além do contexto do fagote, que, provavelmente, a alunos, pais e professores, farão pensar, e de que maneira, relativamente à qualidade da sua formação nos dias de hoje. Aos músicos, mesmo a (alguns) muito bons, falta-lhes (..) saber apresentar ideias...

  • Como veio parar a Portugal?

    Eu sou uma pessoa que não gosta do funcionalismo. Tocava na orquestra filarmónica de Liege ( 120 músicos ), segundo fagote e de lá passei como primeiro fagote e chefe de naipe para a orquestra da Rádio Belga. Enquanto lá tocava, em 1989, soube do concurso internacional para a Orquestra Regie Sinfonia. Concorri e fui seleccionado. Obtive um contrato por 14 meses em regime de exclusividade e por cá fiquei.

  • E como surgiu a oportunidade de ensinar fagote?

    ARTAVE

    Em 1992 o violoncelista José Pereira de Sousa perguntou-me se não queria abrir o curso de fagote na escola ``Artave´´. Achei interessante a ideia e encontrei-me com o director Dr. Alexandre Reis com o objectivo de apresentar as minhas ideias relativamente ao curso de fagote que estava interessado em fundar na escola que ele dirigia. Chegamos á conclusão de que era útil abrir o curso e iniciamos as formalidades para receber alunos. Tivemos, para começar, alunos bons e menos bons, mas não tivemos hipótese de escolha. Teríamos de começar de alguma maneira...

    E assim começou o curso de fagote no norte do país.

    No Conservatório do Porto

    Mais tarde soube que o conservatório do Porto, com 75 anos de existência também não tinha fagote. Por minha própria iniciativa fui falar com a directora Fernanda Wandschneider que se mostrou muito entusiasmada. Depois de cumpridas as formalidades relativas à minha entrada para o conservatório, em 1992, como professor, iniciou-se o curso de fagote no conservatório do Porto, também pela primeira vez..

    Na Escola Profissional de Viana do Castelo

    Mais tarde abri o curso de fagote na escola profissional de Viana do Castelo. Alguns meses depois fui convidado a dar aulas de fagote e a dirigir o grupo de sopros da Orquestra de jovens da Galicia em Santiago de compostela - Espanha.

    Na ESMAE - Curso Superior

    Graças a este esforço consegui uma entrevista com a então Directora da Escola Superior de Música do Porto (ESMAE), Srª Drª Teresa Macedo, que foi muito receptiva à ideia. Perguntou-me se havia fagotistas com nível suficiente para entrar. Eu disse-lhe, confiante, que pelo menos quatro tinha garantidos. E assim se iniciou também o curso superior em Outubro de 1994.

  • Não teve dificuldade em conseguir alunos para um instrumento que era praticamente desconhecido?

    Não. Na Artave, como se trata de uma Escola Profissional, não houve qualquer dificuldade. No Conservatório do Porto tive logo dois músicos Militares - o Arnaldo Costa e o Daniel Lima - do Exército, mais um músico da GNR e outro civil. Foi suficiente para começar.

  • O que pensou de Portugal, quando verificou que não se ensinava fagote nos nossos conservatórios e que, para “alimentar“ as nossas orquestras, nesse instrumento, tínhamos de recorrer ao estrangeiro?

    Pensei que havia muito trabalho a fazer e que eu poderia ajudar nesse processo. Apenas e só isso.

  • Não pensou, porventura face ao quadro com que se deparou, que éramos um país de “pobrezinhos”?

    Não ! De forma nenhuma. Pensei, como disse, que algo teria de ser feito e que eu poderia começar o processo. Quando não existe nada, só há uma coisa a fazer: Começar! Dar o primeiro passo. Por qualquer lado! O importante é começar. No meu próprio país eu tive de lutar sozinho muitas vezes. Mas como sou determinado, sempre consegui atingir os meus objectivos.Fundei no meu país 5 academias. Quando decidi ficar por Portugal, fi-lo com a convicção de que muito haveria a fazer e que seria estimulante o trabalho por cá, no âmbito do fagote. Está à vista: 12 anos depois temos mais de 200 Fagotistas no centro e norte de Portugal. Não era verdade a forma como eu pensava há 12 anos atrás?!!

  • É difícil aprender fagote?

    O fagote tem duas facetas distintas. É um instrumento muito interessante e ao mesmo tempo muito complexo. A concepção da escala não tem lógica sendo por isso de difícil coordenação motora. Sorte para nós que o fagote é um instrumento com grande facilidade de integração. Logo que o aluno saiba fazer notas simples e graves já pode integrar um grupo.

  • Mas é ou não um instrumento difícil de aprender?

    O fagote aprende-se naturalmente, com maior ou menor dificuldade, conforme a preparação do professor. Muito depende do professor e dos objectivos da aprendizagem do fagote.

  • Digamos que a proliferação e o desenvolvimento do fagote depende dos professores e não dos alunos?

    Sim, tem a ver com os professores. O professor atento e entusiasta sabe estudar o aluno e tirar partido das circunstâncias, a favor do fagote, onde a primeira regra será ganhar a confiança dos alunos (e dos Pais) tal como a segunda, manter esta confiança.

  • O facto de ser um instrumento que obriga a alguma técnica para fazer as palhetas, não é por isso desistimulante aprender fagote?

    Há fagotistas que gostam e outros não de fazer palhetas. Volto a dizer que tudo depende dos objectivos pelos quais se aprende fagote. Mas as contrapartidas de saber tocar fagote são muito mais compensadoras do que as de não saber. O fagote é altamente sociabilizante. Dois instrumentos melódicos e agudos sem um baixo não estão completos. A presença de um fagote vem complementar e ampliar a importância de todos. O fagote serve de ligação entre todos os instrumentos e sente-se desejado e integrado.

  • Quando começou a implementar o fagote qual foi a receptividade dos alunos?

    A implementação do fagote nos alunos não foi difícil. Convencer os pais da importância do fagote na formação dos filhos, isso sim, foi difícil. Os pais quando não tem possibilidades, mas estão convencidos da importância do fagote - no âmbito da formação dos seus educandos - fazem autênticos milagres para resolver a questão, e o que é certo é que conseguem. Quando não se consegue convencer os pais, não há nada a fazer.

  • O fagote foi dos últimos a integrar-se nas Bandas Filarmónicas e a garantir a sua “afirmação”. Por que terá sido?

    Isso quer dizer que ainda temos um grande trabalho pela frente - o que é uma sorte para nós. O fagote é um instrumento de som discreto. Não soa como um trombone, ou como um trompete que são instrumentos mais chamativos. O fagote não é bem isso. Mas ao mesmo tempo essa diferença é também de grande valor. Se o fagote toca nesse contexto “arranja” as coisas...

  • Qual é a função do fagote nas Bandas?

    O fagote tem um tímbre próprio e insubstituível. Precisa de ser promovido nas Bandas e enquadrado. É enriquecedor e contextualiza-se perfeitamente na Banda ou na orquestra.

  • Mas não acha que o preço do fagote, que dá para comprar quase uma bancada de clarinetes, é motivo para o dispensar de imediato?

    Não, se considerarmos que um clarinete ou outro instrumento da Banda tem um período de vida útil de 10 anos, ou menos, e o fagote dura toda a vida !... Pelo contrário, o fagote deve ser bem representado numa banda. Há situações em que o staccato ou outros aspectos rítmicos, são relativamente fáceis para o fagote mas para os outros instrumentos é muito complicado.

  • Na sua opinião, quem impulsionou a entrada do fagote nas Bandas foram os músicos ou os professores?

    Os professores, o interesse específico que as bandas possam suscitar pelo fagote e a própria direcção são os causadores da utilização do fagote nas Bandas. As Bandas reconhecem que o fagote é fundamental para o enriquecimento tímbrico da Banda. O som é subtil e requintado.

  • Em quanto tempo pode um músico fazer-se Fagotista de bom nível?

    É muito variável. Mas um músico deve ter uns dez anos de aprendizagem contínua e com trabalho orientado. Tal como os outros instrumentos...

  • Que possibilidades de carreira ou saída profissional acha que tem um músico com o curso superior de fagote, em Portugal?

    Em Portugal é difícil dizer, embora ache que há saídas. Contudo, um curso superior não garante a saída profissional a ninguém. Um curso superior é apenas uma mera ferramenta que se pode utilizar, não uma garantia de trabalho ou de saída profissional. Faltam em Portugal infra-estruturas, que permitam saídas Profissionais de quase todos os cursos superiores, que todos os anos abrem as portas a novos alunos. No caso dos músicos falta-lhes ainda na sua formação desenvolver uma área complementar, que lhes permita desenvolver e saber apresentar ideias que se poderão converter em projectos, às entidades públicas e privadas que se interessam pela música ou, aquelas que têm obrigação de a desenvolver, como factor de desenvolvimento social e cultural, ou sejam, as entidades públicas sob a tutela do governo, concretamente da área do ministério da cultura.

  • Considera que existem muitas lacunas na formação dos músicos, ao nível da cultura geral, mesmo aqueles que chegam ao nível superior, em Portugal?

    Sim, há muitas lacunas nesse aspecto. Os professores, centram-se na música e depois os alunos tornam-se pessoas incompletas no âmbito da cultura geral. É um pouco estranho mas é verdade. Temos bons músicos, mas muitos com muito pouca capacidade para expor ou transmitir ideias, projectos, ou até para se pronunciarem sobre a sua própria arte a quem não tendo cultura musical, tem cultura, muitas vezes vasta, em diversos domínios da arte e ciência.. A massa anónima do público, não é tão inculta musicalmente como muitos músicos pensam! Há muita gente ilustre que não conhecemos, que tem cultura musical suficiente para nos avaliar. O músico devia esforçar-se por ter uma formação cultural equivalente ou de preferência superior, ao seu nível musical. Os músicos seriam muito mais admirados pela sociedade em geral.

  • Na sua opinião, as possibilidades de saída profissional de um músico no estrangeiro são amplas, ou são controversas como em Portugal?

    Eu acho que são controversas como em Portugal, ou em qualquer outro país do mundo. Não obstante, aquele que melhor se prepara para a vida profissional, é aquele que terá melhores probabilidades de carreira ou saída para o mercado de trabalho.

  • A escola de fagote em Portugal está suficientemente solidificada e preparada para o futuro?

    Creio que a escola de fagote em Portugal está a cimentar-se de ano para ano. Aqui no norte há muito entusiasmo em torno do fagote irradiado por alunos meus e professores que foram alunos meus e alunos dos meus alunos. Há muita gente a estudar fagote que veio de outros instrumentos. Inclusivamente, há pessoas que começaram a aprender fagote com mais de 60 anos e outros com menos de sete anos, estes jovens que serão certamente a grande aposta do futuro para nós .Espero que, como até agora, continuemos muito unidos e em breve teremos uma das melhores escola de fagote da Europa. O fagote é um instrumento maravilhoso.

  • Neste momento, em que país acha que temos a mais desenvolvida escola de fagote?

    Na Europa, acho que é na Alemanha. Contudo, com as visitas que fiz a vários países europeus, impressionou-me de certa forma o nível que encontrei em Paris.

  • Qual é o sistema mais usado na Europa?

    Cerca de 95% usa o sistema alemão, mas o sistema francês apesar de não muito usado, não é mau.

  • Quem é para si o melhor fagotista no mundo?

    Aquele que quando actua nos toca no coração. Aquele que me chama a atenção, aquele que me cativa, que me enche a alma. Eu aprecio vários fagotistas de renome mundial. Mas daí a considerar algum deles o melhor do mundo... Gosto muito de ouvir os artistas ao vivo. Aí sim posso sentir a forma como eles interpretam, como eles vivem a musica e o momento. Quando os ouço nas gravações já não aprecio da mesma forma. É tudo muito irreal - comercial.

  • Mas as gravações não são a perfeição? Será que, em sua opinião, ao vivo a música ainda é mais perfeita?

    Um CD é como uma fotografia. Capta um momento e é apenas esse momento que prevalece. Não é sempre assim! Ao vivo temos o público, o estado do ar é diferente nesse momento, o espírito é outro. É muito mais interessante ao vivo. Uma pintura não é diferente de uma fotografia? É, porque o artista precisa do real! Actualmente há já uma grande mudança de opiniões em relação às gravações. Ao vivo os músicos transcendem-se. Nas gravações é tudo muito igual seja por uma ou outra orquestra. Com o público pela frente as coisas mudam de figura. Já há muita gente que considera as gravações, ás vezes, uma fraude artística. Nas gravações molda-se quase tudo. Ao vivo é o que sai. É o real.

  • É surpreendente a sua opinião sobre as gravações. Crê que deveriam acabar?

    Não. Há coisas boas nas gravações. Registam o momento. Mas não servem para apreciar sempre cegamente. A menos que seja ao vivo. As gravações ao vivo, pelas grandes Orquestra são as mais valorizadas do mundo. Gravações ao vivo, sem montagens, sem filtragens, sem a intervenção da electrónica para fazer arranjos ao que se gravou, essas sim são de valor. Eu desconfio muito das gravações. Tenho um espírito muito critico em relação ao que não é totalmente real na música.

  • Se em 12 anos, pela sua intervenção, se criou um universo de 200 fagotistas, o que prevê que venha acontecer daqui a mais 12 anos?

    Sou incapaz de prever o futuro.

  • O fagote também se usa no Jazz?

    Porque não? Também aí o fagote é produtivo. Há vários músicos a tocar Jazz com fagote. É muito versátil este instrumento.

  • Há gravações de Jazz em fagote?

    Existem poucas gravações com fagote assim como o oboé, por exemplo.

  • Conhece o site bandasfilarmonicas.com?

    Não, mas tenciono conhecer. Já ouvi falar e pelo que ouvi é de suma importância para a música, para os músicos amadores e profissionais, porque está acessível de imediato e o seu conteúdo, pelo que me dizem, é muito bom. Eu acho que a internet é um meio de comunicação rapidíssimo e facílimo de consultar.

    A equipa do site bandasfilarmonicas.com agradece muito a sua disponibilidade para esta entrevista.

  • O que alguns alunos, que contactamos, acham do professor:

    Zé Pedro (Prof. De Fagote Lic. ESMAE)
    Prof. Kesteman é muito boa pessoa, um camarada, um amigo; é como um segundo pai para mim. Eu não seria metade da pessoa que sou hoje se não fosse ele.

    Pedro Silva (Prof. De Fagote Lic. ESMAE)
    O professor Kesteman é uma pessoa muito estimada por mim. A minha dívida para com o professor é muito grande. Devo-lhe a minha carreira, a minha cultura , o meu sucesso, etc.

    Arnaldo Costa (Músico da Banda do Exército do Porto a concluir Lic. ESMAE)
    Orgulho-me de ter sido o seu primeiro aluno cá em Portugal e de ter percorrido com ele muitas aventuras e etapas para a divulgação deste maravilhoso instrumento. O Prof. Kesteman é para mim mais do que um amigo. Devo-lhe muito quer como músico quer como homem.

    Novembro de 2004 bandasfilarmonicas.com