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18 de Junho, 2019

Idália Caeiro

Data da entrevista: 15 de Junho de 2004

Nasceu na Freguesia de Alqueva, Alto Alentejo, em 15 de Fevereiro de 1960. Residente em Moura desde os 12 anos de idade. É na Banda da S.F.U.M. "Os Amarelos" que adquire os seus primeiros conhecimentos musicais (1976), sendo seu primeiro professor o Maestro Martinho Ganhão, ilustre músico de Moura.

  • Em Portugal existem muitas Bandas seculares, algumas delas com estatutos conservadores, como é o caso da Banda dos B. V. de Amares, na qual fui aprendiz, e cujos estatutos referem que a banda só pode ser constituída por pessoas do sexo masculino, o que, felizmente, foi provavelmente esquecido pois há imensas raparigas a tocar. Nunca vos aconteceu terem problemas com pessoas mais conservadoras que ainda existem em abundância nas Bandas deste país, pelo facto de serem do sexo feminino? Tiago Domingues - Banda Filarmónica de Sta. Maria do Bouro

    Os estatutos da Banda da Sociedade Filarmónica União Mourense “Os Amarelos”, que é a minha Banda, também são claros quando num dos seus artigos proíbem a mulher de ser membro daquela Sociedade. São Estatutos obviamente elaborados e aprovados segundo o pensamento fascista, em plena época fascista. Esta questão na minha Banda foi ultrapassada em 1974, quando nela ingressaram os primeiros elementos do sexo feminino, que foram aliás desde logo vistos e tratados com muito respeito, admiração e carinho. Nunca me apercebi de que assim não fosse. E se existem assim pessoas, a que você chama de conservadoras, dentro das Bandas, eu direi antes que não são conservadoras, mas sim machistas pouco inteligentes.

  • Como Lidam com os comentários “menos favoráveis” que possam existir? Vânia Ferraz – B. N. S. Vict. de Sta. Bárbara - Açores

    Se se refere a comentários “menos favoráveis”, digo-lhe sinceramente que não os conheço, relativamente aos resultados do trabalho apresentado na Banda que dirijo. Um comentário “menos favorável” pode ser uma exigência, por exemplo, de que a Banda tem de estar a tocar ininterruptamente. Seremos um rádio? Comentários assim “menos favoráveis” são para ignorar. De uma forma geral, comentários menos favoráveis podem, como em qualquer coisa na nossa vida e não apenas como regentes, ensinar-nos a reflectir.

  • Não sendo habitual existir maestrinas, qual a reacção do público ou das bandas com quem se encontram perante este facto? José Alves - Banda Musical de Parafita (Montalegre)

    Sinto que uma reacção demonstrativa de admiração, de particular atenção e carinho, de uma valorização das mulheres.

  • O que as levou a aceitar este papel, tendo em conta que é executado maioritariamente por pessoas do sexo masculino? Andreia Lemos - Banda Filarmónica de Mões

    A força das circunstâncias, isto é, uma questão de emergência, pois, estávamos a uma semana de um Encontro Nacional de Bandas, quando o regente deixou as suas funções. Que fazer? Foi uma grande pressão sobre mim, para que eu aceitasse. E aceitei-o muito tristemente. Quanto ao resto, um ser humano é um homem e é uma mulher. Feitos da mesma matéria.

  • Na sua opinião, a que se deve o facto de ainda existirem tão poucas mulheres neste ofício? Joel Castro

    Não sei, talvez a falta de oportunidades e também a falta de coragem. A Mulher não é ainda um ser tão liberto quanto se pensa.

  • Quais as maiores dificuldades que encontraram, ou encontram, como maestrinas? José Cavaco - S. F. U. M. “Os Amarelos”

    As dificuldades ou preocupações comuns às de qualquer maestro dirigente de Bandas Amadoras.

  • Quais as vantagens em ser maestrina? E desvantagens? José Cavaco – S. F. U. M. “Os Amarelos”

    Vantagens? Não sinto nenhumas. Desvantagens? O sofrimento pela capacidade de amar.

  • Um maestro é, antes de mais, um condutor de pessoas, uma figura de autoridade. Sendo tal papel assumido por uma mulher, podem-se colocar dificuldades de assumpção dessa responsabilidade? Têm tido ou já tiveram, dificuldades em impor a vossa autoridade? Rui Teixeira - Braga

    Cada pessoa é uma personalidade. Tanto homem, como uma mulher podem ter essa dificuldade. Depende apenas das qualidades ou inqualidades dos seus receptores, isto é, das pessoas que conduz. Não sou adepta do termo “autoridade”, mas é uma coisa que infelizmente é preciso impor. Quem é que não teve já a dificuldade em questão? Como digo, tudo depende da massa humana com que trabalhamos.

  • O facto de ser mulher pode ajudar no relacionamento com os músicos? José Cavaco - S. F. U. M. “Os Amarelos”

    Não sei, não vejo porquê, é uma questão sobre a qual nunca ponderei. Não vejo porque ser mulher ajude ou desajude.

  • É difícil conjugar a vossa vida privada com esta actividade? O facto de ter optado pela música impede-as de ter uma vida “normal”, nomeadamente casar ou ter filhos? Andreia Lemos - Banda Filarmónica de Mões

    Não tenho vida privada, diga-se. Sou uma pessoa esquecida de mim. Optei pela Música por querê-la mais que a tudo na vida, nunca vi esta opção como um impedimento de casar ou ter filhos. Também optei por uma vida livre e não há nada melhor do que isso. Sabe que inclusive deixei um namorado por causa da música? Não me arrependo disto. Uma vida “normal” só pode existir quando se é livre e quando os outros respeitam a nossa liberdade.

  • É comum ouvir-se dizer, nas Bandas, que “ensinar uma rapariga é tempo perdido”, aludindo ao facto de esta, na sua juventude ou início da idade adulta iniciar um relacionamento, casar e dedicar-se à família, abandonando muito frequentemente as Bandas. Justifica-se esta forma de pensar? Rui Teixeira - Braga

    Ensinar uma rapariga não é tempo perdido, bem como ensinar um rapaz também não o é. É, sim, tempo perdido se isto disser respeito a ambos, porque hoje, tanto o rapaz como a rapariga abandonam a Banda com a mesma frequência, pelo mais diversos motivos. Só não é tempo perdido o tempo durante o qual eles permanecem como executantes na Banda. Hoje cada vez mais (na minha Banda é assim) um músico feito é sempre um músico perdido.

  • Ao contrário do que sucede com os maestros, que, com alguma frequência, mudam de banda de tempos a tempos, as maestrinas têm tendência para permanecer sempre na mesma banda e por muitos anos. A que se deve este fenómeno? Pedro Teles - Viseu

    Ao amor, à dedicação e à fidelidade, isto, naquilo que se relaciona comigo. Penso também porque as Direcções da minha colectividade estarão satisfeitas com o meu trabalho. Não é, portanto, um fenómeno. Já recusei convites para dirigir outras, e penso não dirigir mais nenhuma além da minha. Também esta não é a minha profissão, não o faço portanto por benefícios financeiros. Estar na minha Banda é acima de tudo viver uma grande causa, porque é a Banda que eu crio há muitos, muitos anos. É a causa dos Amarelos, para além da forma como, claro, vejo a Música: uma coisa sagrada.

  • Como maestrinas, sentem que o facto de ser uma mulher a dirigir a banda motiva a aprendizagem da música por parte de outras mulheres? Acham que a vossa Banda teria menos mulheres a tocar na banda se fosse um homem a dirigi-la? Jorge M. Gomes - Sendim

    Não sei bem. Nalguns casos é possível que assim seja. Ser um homem a dirigir a minha Banda, como sempre foi antes de mim, motivou grandemente a afluência de elementos femininos à nossa Escola de Música, onde sou professora desde 1985, e onde já era ajudante dos meus maestros antes disso. Houve anos em que a nossa Banda chegou a ter mais elementos femininos do que masculinos.

  • Gostaria de saber qual o investimento (não financeiro) que foi necessário fazerem para chegar à condição de maestrinas. Esse investimento na vossa formação ainda se mantém? De que forma estão disponíveis para partilhar os conhecimentos adquiridos? António Rosa - Banda Sinfónica da P.S.P.

    Dirijo a Banda por acaso, e foi por acaso que comecei a dirigi-la. A colectividade quis naquela altura investir em mim, quis provar que confiava e acreditava em mim para tal cargo. Eu tinha então frequentado três cursos de Direcção no INATEL, e estava a fazer os meus estudos de Música em Évora. Já leccionava na altura a disciplina de Educação Musical na Escola Preparatória de Moura, depois fiz a profissionalização na Escola Superior de Educação de Beja. Reunindo estes elementos, alguém achou que eu era a pessoa indicada, dentro da nossa casa, para dirigir os destinos da Banda. A partir daí, o meu dever foi e é compartilhar com todos os que tenho ensinado e preparado os conhecimentos considerados essenciais para a sua aprendizagem, e para um bom desempenho na Banda. Desde 1976 que eu fui sempre, e até assumir a regência da Banda, o braço direito de todos os maestros que me dirigiram na Banda, preparando acima de tudo todos os elementos que daí para cá ingressaram na Banda.

  • Qual foi a primeira obre que dirigiu? Joel Castro

    Não me recordo.

  • Quais os seus compositores favoritos? Joel Castro

    Mozart, Beethoven, Verdi, Berlioz. Digamos que sou uma séria apreciadora dos clássicos e dos românticos.

  • Que mensagem deixariam às raparigas que, eventualmente, pensem exercer essa função? Andreia Lemos – Banda Filarmónica de Mões

    Que tenham coragem, e que é preciso aprender-se a aprender. Que o saibam fazer com uma dignidade elevadíssima.

  • Num olhar mais directo, Como vêm futuramente a presença feminina nesta actividade? Vânia Ferraz - B. N. S. Vict. de Sta. Bárbara - Açores

    Com optimismo, com satisfação. Um sinal de libertação e de um olhar mais alargado.

  • Gostava de saber o que pensa do facto de apenas existirem “declaradas” 3 maestrinas de bandas filarmónicas no nosso país. A que se deve a existência de tão poucas? Haverá preconceitos masculinos no meio disto tudo ou apenas a imagem feminina de batuta na mão não é suficientemente vulgar para vingar e criar raízes? Humberto Moreira

    Se existem três, apenas, lamento-o. Talvez isso se deva aos nossos antecedentes culturais, às nossas tradições, em que o papel da mulher Portuguesa na sociedade tenha sido sempre tão irrelevante, nos mais variados lugares ou cargos sociais, pois, a mulher nunca se viu na vanguarda de nada. É também a mentalidade ainda retrógrada, fechada, de uma grande parte das mulheres portuguesas, o seu desprendimento de certos caminhos, como por ex: as artes; e o pensar-se ainda, que certas coisas são só para homens!! Para mim, o que é invulgar é que é interessante, ousado, rico, poderoso, desafiador. Ponham-se de parte os tabus e os preconceitos. Esclareço que não sou apologista do uso da batuta. Os maestros que me ensinaram nos cursos de Direcção que frequentei incentivaram-me a usar apenas as minhas mãos.

    É extremamente difícil dirigir uma Banda de Amadores nos tempos difíceis e modernos de hoje. É preciso dar tanto de nós! E é também preciso sentirmos que ninguém nos prende.

  • No 1º Curso de Regentes de Bandas que frequentou, qual a reacção dos seus colegas do sexo masculino ante a presença de uma mulher? António Sousa Marques - Aveiro

    Demonstrarem todos por mim uma grande admiração e carinho. Foi muito positivo, viram-me até como uma grande esperança (não sei no quê para quê). Não era preciso tanto, pois uma mulher não é uma deusa.

  • No Alentejo, atenta a baixa densidade populacional, quais as principais dificuldades que encontra para captar novos valores? Como se faz a renovação da Banda? As escolas em que lecciona são também viveiro de potenciais elementos para a Banda que dirige? Ernesto Gonçalves - Santarém

    Há dificuldades de captação de novos valores. O factor de uma baixa densidade populacional no Alentejo não é o maior problema ou o factor mais negativo. É, isso sim, a paupérrima importância que a juventude dá à sua cultura, à sua tradição, ás suas raízes. Tudo está americanizado, sobretudo o pensamento, a mentalidade das pessoas, e por isso o conformismo, o comodismo, a inércia, o não querer fazer nada em que tenha de se usar o cérebro, a impressionante falta de dinamismo ganham assustadoramente cada vez mais terreno na nossa região.

    A Banda renova-se permanentemente, é essa a função da nossa Escola de Música, ganham-se uns músicos, logo se perdem outros, pelas mais variadas razões. É da Escola E.B. 2+3, onde trabalho, que procuro mobilizar os alunos para a frequência da Escola de Música da nossa Banda, pois, é lá que acontece o seu primeiro contacto com esta Arte e é lá que se descobre gente vocacionada, que procuro sensibilizar e atrair para a nossa Banda.