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19 de Setembro, 2019

Ilídio Costa

Data da entrevista: 07 de Junho de 2004

Ilídio Ferreira da Costa dispensa apresentações. O facto de ser oriundo da família COSTA quase que por si só o destaca da mediania no contexto musical, porém Ilídio Costa ainda mais longe do que os elevados padrões de qualidade característicos da sua família exigiriam, elevando-o à condição de seu mais ilustre representante. Com 65 anos de idade, apresenta um curriculum impressionante que muito poucos em Portugal almejariam conseguir.

  • Maestro de banda há já muitos anos, como vê o “caminhar” da música filarmónica? Sente o progressivo afastamento do público ou não? A situação actual inspira-lhe optimismo? Como vê o futuro das bandas filarmónicas?

    Eu penso que as Bandas Filarmónicas (BF), na maioria dos casos, estão de boa saúde e o seu futuro não inspira cuidados. Verificou-se uma subida de qualidade, especialmente nas mais modestas, o que originou um certo equilíbrio entre elas.

    Quanto ao afastamento do público, entendo não ser assim tão notado ou evidente, especialmente nos despiques entre duas boas filarmónicas. De qualquer modo, será um fenómeno temporário e não haverá razões para alarmes. Sendo certo que os ouvintes mais idosos vão acabando, também é de esperar que os jovens que agora se formam em música, quer pratiquem ou não, sejam os ouvintes de amanhã. Acho que será de referir a ausência de concertos nos jardins ou passeios públicos, especialmente dominicais, pelas Bandas Militares ou outras, que influenciavam positivamente os jovens que por aí passeavam com os pais ou avós.

    A situação das BF, para mim, que sou optimista, não inspira grandes cuidados. Actualmente possui instrumentistas muito mais bem formados e de bastante qualidade. Já lá vai o tempo em que o pai ensinava o filho, este o primo, aquele o irmão, etc. e se apresentavam na Banda sem as mínimas condições para executantes. As escolas profissionais, academias e escolas particulares deram um óptimo contributo para que as BF crescessem em qualidade e também em número de elementos. O mercado de trabalho para quem se forma na Escola Superior ou outras é muito reduzido, pois existem poucos postos de trabalho. Assim, os que não conseguem entrar nas Orquestras enveredam pelo ensino e complementam a sua actividade tocando nas BF. Estas ficam, como é óbvio, beneficiadas e passam a ter nos seus quadros quarenta a sessenta elementos e uma maior diversidade de timbres.

    O futuro das BF terá de passar pela manutenção das escolas de música na própria Banda, com um funcionamento regular, para que delas saiam instrumentistas que amanhã garantam um futuro mais seguro e assim poderem funcionar com a chamada “prata da casa”. De momento, as BF estão semi-profissionalizadas e com honorários demasiado altos para as possibilidades das próprias instituições e, por consequência, têm dificuldades em fazer contratos com as Comissões de Festas que também não nadam em dinheiro.

  • O repertório das bandas é frequentemente seleccionado em função das expectativas do público. Por outro lado, o recurso a determinado tipo de repertório é encarado como sinal do estatuto da banda... a) Pensa que as bandas com menores recursos devem, mesmo assim, procurar executar essas obras mais complexas?

    O reportório das BF é, de facto, seleccionado em função das expectativas do público e da tradição. Tocam-se algumas obras com um grau de dificuldade acima das possibilidades da maioria das bandas mas, por outro lado, mesmo não tão bem tocadas, conseguem produzir no público um efeito mais espectacular do que outras mais fáceis. Isto porque, a maioria dos ouvintes não são entendedores especializados, como é óbvio. Mas se lhes não derem TschaikoTsky ou Wagner ficam de certo modo desapontados.

  • b) Se pudesse ignorar esse condicionalismo, que repertório gostaria de ouvir/executar?

    O modelo de reportório que as BF estão a usar é o mais tradicional e deverá continuar. Especialmente, agora que as referidas BF possuem mais recursos técnicos e mais e melhor instrumental. Verificam-se alguns excessos na utilização de obras ligeiras e com bastante percussão que, para mim que sou mais conservador, não aprovo totalmente. Tudo se quer com equilíbrio.

  • Como vê os “despiques” de bandas?

    Os despiques entre as BF, muito em uso nas romarias do Norte, são um fenómeno que actua em favor da qualidade. Os elementos das Bandas, no seu desempenho, estão a pensar na apreciação do público mas, especialmente, na apreciação dos elementos da Banda antagonista. Também, em relação ao auditório, o seu número é significativamente maior, quando existe despique. A maioria das romarias, apesar da dificuldade em arranjar “Euros” para pagar às Bandas, continuam a preferir os despiques entre elas.

  • Alteraria alguma coisa na sua estrutura?

    Nos despiques, a única coisa que alteraria refere-se à programação. Entendo que deverá haver algum rigor nas respostas, quanto ao género de música e, uma vez que os concertos são em duas partes, em vez de se tocar uma Rapsódia no fim do concerto, que é o que se faz normalmente, tocar-se-ia uma no fim da primeira parte e outra no fim da segunda.

  • Acha que as bandas deveriam anunciar previamente o seu repertório, à semelhança do que fazem as orquestras?

    Quanto a anunciar previamente o programa, não acho absolutamente necessário. Se a Banda fizer um concerto sem despique, pode perfeitamente anunciar o programa com o habitual cartaz ou com os desdobráveis.

  • Como se sabe, os serviços das bandas filarmónicas não se restringem ao concerto nos coreto/palcos, antes incluindo variantes que passam pelas arruadas, procissões, etc. No contexto de trabalho das bandas, quais as funções que mais lhe desagradam?

    Todos os filarmónicos gostam mais de fazer música em concerto, quer em palcos, quer em coretos. Claro que Procissões de três ou mais horas e arruadas de manhãs inteiras, como ainda se faz em Trás-os-Montes e não só, é o que mais desagrada aos músicos porque, além de cansativo, prejudica as embocaduras dos instrumentistas de sopro.

  • Parece-nos que se assiste, hoje em dia, a um declínio da qualidade das bandas militares por oposição a um aumento de qualidade das bandas civis. a) A que se deve este fenómeno?

    Nas Bandas Militares (BM), as situações de declínio são pontuais. Algumas BM não podem admitir pessoal de qualidade, pois têm os seus quadros saturados com elementos menos bons; outras, com melhores possibilidades de admissão e de escolha, têm nos seus quadros óptimos elementos. Quanto à qualidade das referidas BM, o tipo de trabalho (Guardas de Honra, Tattoos, paradas, etc.) condiciona muito o seu aperfeiçoamento artístico. É evidente que os próprios chefes, uns melhores que outros, influenciam muito o rendimento das BM. Mas eu acho que não há uma perda de qualidade tão sensível. O que acontece é que as BM deveriam dar mais concertos e, desse modo, a própria rotina funcionaria a favor da qualidade.

  • a) Fará sentido manter as Bandas Militares?

    Acho que faz sentido manter as BM, pois já são tão poucas... Outrora, havia uma BM em cada capital de distrito, pelo menos. Faziam, com alguma regularidade, concertos dominicais e outros, e as pessoas gostavam de ouvi-las. Entendo que é o que deveriam fazer as poucas sobreviventes.

  • Como vê a adaptação de repertório da música ligeira às bandas? E o que pensa da inclusão de instrumentos electro-acústicos nas bandas?

    O reportório de música ligeira nas BF tem cabimento se em doses moderadas. Contudo, instrumentos electro-acústicos, baterias (por vezes duas), cantarolar durante a execução dessas obras, não têm a minha aprovação. Concordo que estarei, porventura, ultrapassado, mas a maioria dos ouvintes pensa como eu. Mas, claro, também há quem goste.

  • As pessoas ligadas ao meio filarmónico surpreendem-se com a proficuidade de Ilídio Costa enquanto compositor.

    Como compositor de música para Banda, não me acho assim tão importante, nem tão competente, como algumas pessoas, ligadas ao meio filarmónico, acham ou entendem que sou. Gosto muito de compor, mas reconheço as minhas limitações.

  • a) Tem ideia de quantas obras já escreveu?

    Já escrevi mais de uma centena de obras para Banda. Compus ainda hinos para Associações, Grupos Desportivos e Recreativos e algumas canções. Fiz transcrições de selecções de Ópera, adaptações e alguma música para orquestra ligeira (pouca).

  • b) A título de curiosidade, quanto tempo lhe leva a compor uma rapsódia? E uma marcha de rua?

    O tempo que se gasta em fazer determinadas composições é, como compreenderão, muito subjectivo. Uma rapsódia poderá levar cerca de três meses: uma semana para escolha de temas e estruturação; duas semanas para harmonizar e instrumentar e, para cópias, seis a sete semanas. Uma Marcha de Rua ou de Procissão poderá compor-se em cerca de 15 dias: três a quatro dias para elaborar a melodia; quatro ou cinco dias para harmonizar e instrumentar e os restantes para cópias.

  • c) Para um compositor de mérito reconhecido, o que o motiva a escrever “obras menores” (Marchas de Rua, etc.)?

    O que me leva a escrever Marchas de Rua ou de Procissão, ou outras “obras menores”, são varias razões: escrevo-as porque mas encomendam para homenagearem pessoas, para aniversários de Bandas e outras efemérides; escrevo, ainda, porque os músicos da BF que dirijo gostam de renovar todos os anos uma ou duas marchas, quer de rua, quer de procissão; também porque as pessoas ligadas às BF gostam das minhas Marchas e incitam-me a não parar de escrever; finalmente, porque entendo que os dotes que possuo, ainda que modestos, devem ser postos ao serviço da música.

  • d) Apesar de ser, certamente uma escolha ingrata e difícil, qual das suas obras elege como a melhor?

    Das minhas obras, a que escolheria como sendo a melhor sairia de um grupo de quatro ou cinco, a saber: “Ecos de Espanha”, “Corifeus”, “Momentos Menores”, “Trevo de 3 folhas”, “Catorze Minutos no Parque”, etc.. Mas não tenho preferência por qualquer uma delas.

  • É vulgar o recurso à expressão “dar voltas no túmulo” quando se alude à possibilidade de um compositor já falecido poder ouvir uma obra sua sendo mal interpretada. O maestro Ilídio Costa, felizmente, ainda não faleceu e pode assim escutar obras suas interpretadas por diversas bandas. Costuma “dar voltas no túmulo” quando ouve as suas composições? Que sentimentos lhe inspira a audição de obras suas?

    Estou convencido de que as BF não tratam muito mal as minhas obras. O grau de dificuldade também não é muito elevado, com pequenas excepções, e também há bastante flexibilidade nas interpretações. Sendo assim, ao ouvir as minhas obras tocadas pelas BF, boas ou menos boas, não acontece nada de surpreendente. Acabo sempre por gostar, embora as interpretações sejam diferentes das minhas, o que é natural.

  • De todas as conquistas ao longo da sua carreira no meio musical, de que o seu currículo é prova inequívoca, qual ou quais as que lhe deram maior prazer/orgulho?

    De todas as conquistas ao longo da minha carreira, as que me deram maior prazer foram: a minha admissão, por convite, na Orquestra Sinfónica do Porto; a nomeação para chefiar, como Maestro, a BM da G.N.R. do Porto; finalmente, o reconhecimento, por parte dos filarmónicos, dos meus dotes como compositor.

  • Depois deste trajecto brilhante, o que falta fazer? Que projectos para o futuro?

    Depois do trajecto já efectuado durante a minha carreira só desejo manter a dignidade, como até aqui, patente em todos os trabalhos já efectuados e nos que ainda venha a fazer. Quanto ao futuro, não tenho projectos nem metas a atingir.

  • O meio filarmónico é fértil em episódios caricatos e até, por vezes, anedóticos que normalmente marcam sempre uma vertente humorística no historial dos músicos e das próprias bandas. Gostaríamos que partilhasse connosco um desses episódios...

    Um dia, a minha Banda, fazia a habitual arruada em direcção à Igreja da localidade onde iria actuar. Acontece que, a pedido da Comissão de Festas, a banda teve de fazer um pequeno desvio no itinerário. Porém, um dos tocadores de tuba ia tão absorvido no trabalho que estava a desempenhar que não se apercebeu desse pormenor. Então, seguiu em frente, sozinho durante cerca de 10 metros e sempre a tocar. Quando “acordou”, envergonhado como é óbvio, já não regressou à formatura da Banda. Seguiu em frente, calado e envergonhado.

    Contava-me o meu professor de Clarinete que, certo dia, durante um concerto no jardim público, uma Banda tocava uma selecção de Ópera. O tocador de Bombardino estava fazendo um solo, numa das árias da referida ópera, e trocou uma nota, por engano. O maestro, que era muito sensível, caiu abaixo do estrado, exclamando: Ah! Ladrão... que me mataste! Como seria de esperar, o caso não era para rir, mas a banda parou de tocar e todos desataram às gargalhadas, músicos e ouvintes.