Agenda :

De momento não existem eventos registados

19 de Setembro, 2019

João Neves

Data da entrevista: 01 de Junho de 2004

Natural de Fermentelos, João Constantino Duarte Neves iniciou a sua preparação musical aos 10 anos de idade na Banda Nova de Fermentelos de que hoje é maestro e onde goza de notável prestigio.

  • Qual o seu compositor favorito? Jorge Benido - Banda Musical de S.Martinho Campo - Valongo

    De Bach a Bernstein há muitos compositores de que sou grande admirador. Não esquecendo os grandes compositores portugueses bem conhecidos no meio musical, obviamente.

  • Qual é para si, a importância da música no quotidiano? Jonathan Costa - Maestro da Banda Recreativa União Pinheirense e Maestro Titular da Orquestra de Jovens do Concelho de Águeda

    A música é a arte que nos aproxima mais do divino. Por isso é o alimento do espírito mais sublime. Faz-nos esquecer os problemas do dia-a-dia e ter esperança num futuro melhor! Para uns é uma forma de estar na vida à qual se entregam totalmente. Para outros uma forma de prazer, lazer, diversão e comunicação.

  • Qual a sua opinião em relação ao actual panorama musical português? Idem

    No actual panorama das bandas filarmónicas verifica-se um acentuado aumento de qualidade. Muitas escolas profissionais, academias, conservatórios, escolas de música, escolas das bandas, maestros qualificados, concursos, escolas superiores, cursos de férias promovidos pelo INATEL e também por bandas, grandes professores e grandes instrumentistas que temos, intercâmbios, CDs, etc.. O que mais gostava dentro do possível era ver cada banda a tocar com os seus próprios músicos. Assim penso que era mais fácil e mais estimulante para todas. A nível geral, não tenho assistido a grandes melhorias no aspecto de quantidade. As orquestras são praticamente as mesmas, as bandas profissionais também. Aumentaram os quadros de umas mas acabaram com outras. Aliás, em relação à Europa estamos bastante atrasados. Basta comparar com a Espanha. Os músicos formados e excelentes talentos que temos acabam por seguir outras carreiras devido a não conseguirem colocação profissional.

  • O que deve ser feito para que os jovens tenham uma visão mais positiva das bandas de música? Idem

    Apresentar um repertório de acordo com os seus gostos, indo ao encontro das suas ideias.

  • A nível musical qual vai ser a partitura em que a Banda Nova de Fermentelos vai fazer a sua aposta para a época 2003? Jorge Benido - Banda Musical de S.Martinho Campo - Valongo

    Como sabe, para os serviços com outra banda é preciso apostar em muitas obras. Uma delas é «As Onze Partidas do Mundo», do Capitão Amílcar Morais, que com a sua mestria fez uma obra espectacular. Essa obra já está gravada no nosso sexto e último CD «Vozes de Águeda».

  • Qual foi até hoje a partitura mais completa, mais bem elaborada e que mais prazer lhe deu dirigir? Idem

    Há muitas partituras que satisfazem plenamente qualquer maestro e o público a que se destinam. Contudo, dou preferência aos grandes clássicos, bons compositores portugueses, bandas sonoras e obras escritas para bandas. Posso realçar a obra clássica “Inferno” da Divina Comédia de Dante, que para além de difícil de preparar e executar tanto tecnicamente como interpretativamente é, depois de dominada e quando bem interpretada, uma obra de grande impacto. No ligeiro há uma obra idêntica que é a “Galáxia” do Cap. Amilcar Morais. É uma obra que os músicos gostam de executar, também tem muita força e dá prazer dirigir.

  • Como músico ou maestro qual a situação mais divertida que lhe ocorreu até hoje numa actuação? Idem

    Há poucos anos atrás, a Banda Nova de Fermentelos foi convidada a participar nas festas de Verão de Freixo-de-Espada-à-Cinta. Fizemos entrada, procissão e concerto. Éramos a única banda. Desse modo e visto que a Banda Nova tem um repertório muito vasto, achei por bem não utilizar obras pesadas para o público. Não estava ao corrente de quem nos tinha convidado. A meio do concerto aproxima-se do palanque o Juiz da festa que, muito convicto, afirmou que se não tocássemos a abertura solene «1812» não éramos uma boa banda. Obviamente, satisfizemos a vontade do Juiz imediatamente. Claro que ao longo de tantos anos muitas outras situações divertidas me aconteceram.

  • Qual a banda ideal? Número de músicos / distribuição por instrumentos. José Eduardo Cavaco - Banda da S.F.U.M. "Os Amarelos" - Moura

    É aquela que tenha o número de elementos suficiente para apresentar a maior variedade de timbres equilibrados. Estou contente com a minha banda. Temos nos últimos anos mantido um número de elementos entre 70 e 80. Para executar Wagner, Tchaikowsky, etc., é preciso um certo potencial sonoro, não esquecendo que as bandas tocam a maior parte das vezes ao ar livre. O meu ideal seriam 100 a 120 músicos como nas bandas do Sudeste de Espanha. Mas também penso que a partir de 45 bons elementos já pode ser suficiente.

  • Qual a formação mais «correcta» de uma banda em palco e porquê? Idem

    Conforme o número de executantes, espaço disponível e gosto do maestro. Gosto da formação de orquestra sinfónica, palhetas à frente e metais atrás, clarinetes do lado esquerdo do maestro. Claro, tentando sempre o equilíbrio para que todos os sons sejam projectados para o centro e para o público.

    No ano passado mudei para a formação tradicional devido a tocar tanto em palanques como em coretos. Como usava duas formas achei, para melhor resultado artístico, manter a de coreto, o que torna mais difícil o equilíbrio. Contudo, nos coretos não vejo outra melhor.

  • Qual a formação mais «correcta» na rua? Idem

    Não há uma formação ideal porque depende de muitos aspectos, nomeadamente do que se pretende. Depende do gosto do maestro e da disciplina dos executantes. Penso que uma banda a partir de 50 elementos, se tiver 5 tubas, formando a 5, fica com mais impacto sonoro. Desde que dirijo optei por tubas grandes e eliminei os contrabaixos, embora ache que pelo menos um faz falta.

    Mas a tuba, além de instrumento bonito e com muita presença, dá uma bela frente às bandas. Claro que se o espaço da rua fosse suficiente formava sempre a 6. Uso tubas à frente, seguidas por sax. barítono, bombardinos, sax. tenores, clarinete baixo, fagote, trombones, trompas, “lira”, percussão, trompetes, sax. soprano, sax. altos, clarinetes, oboé, flautas e flautim e novamente clarinetes atrás também. Não desgosto dos trombones à frente sendo todos de varas. Dá um certo espectáculo. Eu também muitas vezes uso a banda ao contrário, o que para mim fica mais equilibrado. Como nos concertos, melodia à frente e harmonia atrás. Só que não dá o impacto às vezes desejado.

  • Qual o futuro da música filarmónica em Portugal? Idem

    Viver e cultivar a arte musical sem profanar ou desvirtuar o espírito filarmónico. Penso que cada vez será mais difícil cativar jovens para as bandas. Nos últimos anos houve grandes progressos a nível artístico nas bandas. Não tenho grandes esperanças num futuro muito risonho. Mas Deus o dirá. Pela minha parte continuarei a trabalhar como até hoje.

  • O que acha das novas tendências em termos de repertório nas bandas (ex: bandas sonoras, música ligeira, etc…)? Idem

    Logo que tenham qualidade, tudo o que seja inovação é bem vindo. Nas bandas que já dirigi e dirijo mantenho dentro do possível o espírito filarmónico. Muitas vezes são os músicos a dar boas ideias que dentro do possível as apoio e concretizo. Mas penso que não devemos tocar sempre o mesmo género.

  • Qual o melhor conselho que poderia dar a uma banda? Idem

    Uma boa escola de música com ensino de qualidade para manutenção dos respectivos naipes, que é assim que tenho feito. Nenhuma banda pode existir com espírito amador sem uma boa escola de música, com professores e monitores de espírito colectivo, de modo a imprimir nos jovens aprendizes o gosto pela música. Só estudando todos os dias e com disciplina é que se consegue ter uma boa banda.

  • Como vê as rivalidades entre a sua Banda e a Banda Velha? Andreia do Flautim - Filarmónica de Mões

    É salutar que exista essa rivalidade. Mas sem exagero! A rivalidade das bandas amadoras mantem a sua continuidade e qualidade.

  • O que é que ainda falta fazer para que haja uma maior aproximação entre as duas? Jonathan Costa - Maestro da Banda Recreativa União Pinheirense e Maestro Titular da Orquestra de Jovens do Concelho de Águeda

    Cada banda desenvolve o seu trabalho conforme considera mais conveniente. É importante que haja uma mentalidade cavalheiresca entre os músicos, seus directores, associados e adeptos.

  • Acha que as bandas no nosso país devem seguir um determinado modelo de repertório para agradar ao público? Idem

    Cada maestro é livre de escolher o seu repertório, tendo em atenção o público a que se destina e usando, na medida do possível, obras recentes mas dando preferência às mais criativas e que resultem melhor na banda.

  • Como se consegue criar e manter uma banda quase exclusivamente com músicos da sua terra, que não recebem grandes compensações monetárias e que está considerada entre as melhores do país? Neto Silva - Porto

    Devido aos elementos jovens formados na escola de música, fomentando o bom entendimento e respeito entre todos os músicos, criando incentivos e procurando atraí-los pelo gosto da música e pela banda da sua terra. E não esquecendo as opiniões de todos mas mais ainda as do contramestre António Pepino e do meu irmão professor Armando Neves, os quais me têm ajudado nesta difícil tarefa. Não posso deixar de referir também o bom nível de alguns executantes e professores. Refira-se que a manutenção da nossa banda também passa pelos apoios da Junta de Freguesia, da Câmara Municipal, do Estado, do Inatel e dos amigos da banda. É justo salientar alguns amigos e a Câmara Municipal como contribuintes de relevo.

  • Qual é para si a estrutura de um concerto ideal? Há margem para a utilização de obras tradicionalmente mais eruditas e exigentes (ex: Tannhäuser, Inferno, etc)? Rui Teixeira - Famalicão

    Na minha opinião, um repertório deve ser variado, não esquecendo as obras que referiu, os grandes clássicos e os compositores portugueses.

    Gostava de pedir aos visitantes do bandasfilarmonicas.com e aos participantes atentos do FORUM que dessem uma espreitadela ao repertório da Banda Nova no nosso sítio:
    http://www.terravista.pt/nazare/3337/index.htm (rubricas Compositores Portugueses e Actuações em Portugal).

  • Como vê os despiques de bandas? Acha que nesses despiques as bandas têm necessariamente que responder umas às outras com obras do mesmo género? Idem

    Os despiques têm prós e contras. Obrigam as bandas a ter um repertório mais vasto, a trabalhar mais porque quando nos deslocamos para um despique não sabemos quais as obras que a outra banda vai executar. Deve responder-se à outra banda, dentro do possível, com obras do mesmo género.

  • Desde quando é que dirige bandas sem recorrer a partitura? bandasfilarmonicas.com

    A partir dos meus 17 anos, quando substituía o meu irmão maestro e professor António Duarte Neves que, devido à sua vida profissional, não podia estar sempre presente.

  • Que capacidades são necessárias para dirigir sem partitura? bandasfilarmonicas.com

    Muito trabalho, dedicação e concentração. Claro que é preciso conhecer bem os naipes que tenho, o nível dos músicos e as obras que dirijo para que não haja distracção.

  • Como consegue decorar tantas obras? bandasfilarmonicas.com

    Como já referi, baseia-se em muito trabalho, uma vez que a capacidade de memorizar tem que ser exercitada e alimentada. Comecei a praticar no primeiro dia que o grande músico e maestro da Banda Nova daquela altura, Sr. Artur Nunes Bártolo, me deu o clarinete, tinha eu 10 anos. Fui até casa a preparar uma melodia de cor e depois entrei em casa dos meus pais a tocar, o que proporcionou uma grande risota e admiração. Também no Conservatório de Lisboa a minha professora de violoncelo, Isaura Pavia de Magalhães, me mentalizou para tocar sem partitura nas audições e nos exames. Quando eu tinha 12 anos fazia bailaricos nas fogueiras do natal só com o clarinete. Mais tarde, fazia serenatas ou convívios com os amigos, ora com o clarinete ora com o violoncelo, em Fermentelos e arredores, até às tantas da manhã. É evidente que tudo isto me desenvolveu a capacidade de memorizar.

  • Não tem receio de ter uma “branca”? bandasfilarmonicas.com

    A memória é um processo biológico que está para além da nossa vontade. Desse modo, o receio é legítimo.

    Queria agradecer aos Autores do sítio bandasfilarmonicas.com a oportunidade que me deram e dar-lhes os parabéns pela brilhante ideia de o criarem.

    Penso que com o tempo vai ser muito positivo para o bom nível das bandas do nosso país, já que muito se aprende com as críticas construtivas.

    Gostava de cumprimentar todos os maestros, músicos, directores das bandas e compositores do país.
    Aos meus músicos da Banda Nova de Fermentelos e Matos Galamba de Alcácer do Sal, direcções, associados, adeptos e amigos um grande abraço e que continuem a dar o seu melhor pelas bandas. Assim também contribuem para a saúde da cultura portuguesa.