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15 de Outubro, 2019

Jorge Lima

Data da entrevista: 18 de Agosto de 2004


  • É um prestígio ser presidente de uma Banda de Música?

    Antes de mais, sou Presidente da Direcção da ACMA - Associação Cultural e Musical de Avintes - e a Banda Musical é uma das valências da Associação. Para mim, é tão prestigiante ser Presidente como ocupar qualquer cargo directivo, ser um simples associado ou colaborador da Associação. Entendo, acima de tudo, que sendo desempenhado com honestidade e transparência, ser um cargo como qualquer outro, acrescido, obviamente, de maior responsabilidade.

  • Que afinidade teve ou tem à Banda Musical de Avintes?

    A minha afinidade não é à Banda, mas à Associação em si. Não deixa de ser caricato o facto de eu não gostar de Bandas de Música, embora goste muito de música e entenda que as Bandas fazem parte integrante da nossa cultura. Estou na ACMA para dar continuidade a um projecto, do qual sou co-autor, e para o tentar concluir. No entanto, é de referir que a minha família desde sempre esteve ligada à Banda de Música. Já na década de 50, quando a Banda parou, o meu pai foi o principal responsável pela sua reorganização. Mas, pessoalmente, nunca tive qualquer ligação com a Banda propriamente dita. Actualmente, a afinidade que tenho é inerente ao cargo que ocupo na Associação.

  • Como chegou ao topo da hierarquia da Banda?

    Por mero acaso. Em 1990, os dirigentes da Associação, então denominada Banda Musical de Avintes, nos quais se incluía o meu irmão, pediram-me se colaborava na elaboração do projecto para construção da nova Sede. Aceitei e, a partir desse momento, sempre colaborei de forma desinteressada e graciosa com a Associação, durante cinco anos. Até que, em 1995, fui convidado pela Direcção da altura a assumir a sua presidência, talvez como reconhecimento dos dirigentes pelo apoio que lhes prestei, tendo aceite o cargo.

  • Que tipo de Banda é a de Avintes e onde quer chegar em termos artísticos?

    Como já referi a Banda Musical é só uma das valências da Associação. É uma Banda como outra qualquer e faz o que é normal uma Banda de Música, ou seja, música e formação de músicos. Consideramo-nos como uma “Banda de Escola”. Temos uma Academia que prepara e forma músicos através de um ensino cuidado e rigoroso, sendo a tendência melhorar cada vez mais essa vertente. Em termos artísticos, a Banda ainda não está no seu ponto máximo. Temos consciência disso e queremos lá chegar. Entendemos que é sempre possível fazer mais e melhor, e vamos tentar fazê-lo, reconhecendo no entanto que a perfeição será inatingível !!! Temos uma forma muito particular de gerir a Banda e os resultados estão à vista. Posso considerar-me satisfeito com o seu desempenho, pois dizem que a Banda está com bom nível, embora, como acima referi, queiramos ir o mais longe possível. A estabilidade é essencial. Enquanto a conseguirmos, a Banda crescerá de forma progressiva e equilibrada. É isso que pretendemos e caminhamos nesse sentido. O Maestro sente-se satisfeito com as condições criadas e que lhe são oferecidas para desenvolver o seu trabalho. Temos projectos inovadores para o futuro e, provavelmente em breve, apresentaremos os mesmos. Passam por projectos arrojados, embora perfeitamente exequíveis.

  • Quantos músicos tem a Banda Musical e que percentagem vem da Academia da ACMA?

    A Banda Musical é composta actualmente por 68 elementos. Neste momento, cerca de 50% é fruto do trabalho desenvolvido na nossa Academia. Oxalá consigamos manter estes números no futuro.

  • Qual é a média etária da Banda?

    Os mais novos têm 11 anos. O mais idoso tem 76anos. Não fosse o facto de termos três pessoas já com uma certa idade, teríamos uma média de idades de aproximadamente 19 anos. Assim, esta encontra-se nos 23 anos. Só por si, estes valores são significativos.

  • Que tipo de Banda encontrou quando assumiu a Direcção?

    Encontrei-a numa fase de transição, já com algumas reformas feitas e outras a caminho de serem concretizadas. Mas a Banda Musical de Avintes era de facto modesta. No entanto, não seria correcto da minha parte senão reconhecer a dedicação e o esforço que os Directores da altura desenvolveram, embora também reconheça que seria possível fazer muito mais... Até porque havia condições e objectivos criados para tal. Mas tinha objectivos e a prova é que, na sequência desse objectivos, estamos a evoluir constantemente.

  • A Banda Musical gera prejuízo ou lucro?

    A Banda Musical, por si só, gera prejuízo. Não obstante, no conjunto das restantes valências da ACMA (Academia de Música e Artes, Centro de Apoio Educativo, Ensino Especial, Grupos Musicais diversos, etc, etc), pode-se considerar que os resultados são equilibrados. Nem é função da Associação gerar lucros, já que se trata de uma Instituição sem fins lucrativos e com Estatuto de Pessoa Colectiva de Utilidade Pública. O facto da Banda Musical apresentar saldos negativos também é resultado da formação dada de forma gratuita aos jovens elementos que a integram, na Academia de Música e Artes, sem que haja qualquer apoio específico das Entidades que têm responsabilidades nesta área.

  • Que modelo de gestão é o seu que consegue sempre o saneamento financeiro sem recurso a mecenas?

    Como disse, quando assumi a Direcção encontrei a Associação numa fase de transição. Fruto do trabalho que tinha vindo a desenvolver em colaboração com a Direcção de então, que me deu total liberdade, e com algumas adaptações feitas, o modelo de gestão que actualmente está implementado baseia-se num modelo semi-profissionalizado. Ou seja, semelhante a um tipo de gestão empresarial. Assenta numa estrutura arquitectada com base em colaboradores profissionais, especializados em gestão e externos à Instituição, a quem são facultadas condições de trabalho para que o desenvolvam com o máximo de rentabilidade.

  • A criação de outras valências, dentro da Instituição, para benificiar a Banda tornando-a sustentável em termos de futuro, é fruto do seu modelo de gestão? Essas valências foram criadas por si?

    As valências acabaram por aparecer de forma natural e sem qualquer objectivo exclusivo de beneficiar a Banda. Algumas foram criadas como forma de colmatar custos; outras surgiram por minha iniciativa, com a intenção de proporcionar momentos de lazer a toda a comunidade, nomeadamente a associados; outras para suprir carências de vária ordem; outras como forma de aperfeiçoamento dos jovens músicos oriundos da Academia. Ou seja, não foram propriamente criadas valências para sustentar a Banda Musical.

  • Não tem apoios ou subsídios da Câmara Municipal de V.N.Gaia, Junta de Freguesia de Avintes, fundos comunitários,...?

    Candidatamo-nos várias vezes a subsídios e apoios diversos, sem que tenhamos tido grandes resultados práticos. Inclusivé, essa situação levou-nos a alterar o nome da Associação, ou seja, deixou de se denominar Banda Musical de Avintes e passou a denominar-se ACMA - Associação Cultural e Musical de Avintes. Relativamente à Câmara Municipal de V.N. Gaia, os apoios que nos são dados, comparativamente a outras Associações, considero-os perfeitamente ridículos e insignificantes. Nota-se que há uma dualidade de critérios relativamente a Associações culturais ou desportivas. Já a Junta de Freguesia de Avintes tem apoiado a ACMA de uma forma mais coerente, dentro das suas possibilidades, reconhecendo-lhe mérito nas actividades e eventos que realiza, e proporcionando outros tipos de apoio (transportes, apoio logístico, etc.). É louvável e estamos-lhe muito gratos.

  • Recebem apoios do INATEL e da Secretaria de Estado da Cultura?

    Os apoios atribuídos por estas Entidades são praticamente nulos. Apenas somos apoiados quando é apresentado algum projecto de maior relevância, e muito raramente isso acontece. Por sua vez, a INATEL, periodicamente, atribui-nos instrumentos musicais que, por norma, são encaminhados para a Academia.

  • Como é constituida a Direcção da Banda ?

    A Direcção da ACMA, e não da Banda, é constituída por cinco elementos, um Presidente e quatro Vice-Presidentes, tendo cada um deles áreas específicas, como sejam: formação, recursos humanos, financeira, logística, patrimonial, social, cultural, administrativa, musical e ambiental. Paralelamente, há um consultor/auditor (externo), que além da assessoria à Direcção, está directamente ligado ao Gabinete de Contabilidade. Trabalhando directamente com o Presidente, existe um Conselho Consultivo e um Conselho Pedagógico. Entendo que este tipo de organigrama assenta perfeitamente na estrutura arquitectada. Como curiosidade, posso afirmar que mais de 90% das decisões são tomadas por consenso geral, o que é por demais significativo.

  • Como é feito o recrutamento dos músicos?

    É feito com base em dois parâmetros fundamentais: idade e qualidade. É com base nestes princípios que são estabelecidos os contactos com os elementos que venham a integrar a Banda. Passamos depois a uma fase de apreciação e reunimos para ultimar pormenores, após exposição das regras e do funcionamento da nossa Instituição, sempre baseados nos princípios fundamentais da frontalidade e honestidade. A principal forma de recrutamento é através da própria Academia de Música e Artes da ACMA, onde os alunos têm uma formação em tudo idêntica ao Ensino Oficial de Música. Por outro lado, temos um Protocolo com a Câmara Municipal de V.N.Gaia por forma a que os músicos possam usufruir de formação gratuita no “Conservatório de Gaia”, enquanto pertencerem aos quadros da Banda. No entanto, os alunos abrangidos pelo Protocolo têm a obrigatoriedade de continuarem, durante um período de tempo determinado, a integrar a Banda a que pertencem, findo o qual cessam todas as responsabilidades face a esse acordo.

  • Se os acordos que faz com os músicos não forem cumpridos por estes, executa judicialmente esses acordos, com pedidos de indemnização?

    Sem qualquer dúvida. Além da assessoria técnica, temos também apoio jurídico. Obviamente que nestes casos cumpriremos o que a lei determina e não temos qualquer problema em executar os acordos pela via judicial. Nenhum problema mesmo...

  • Alguma vez expulsou alguém?

    Nem eu, nem o próprio Maestro expulsamos quem quer que seja da Banda Musical. Mas já convidamos a sair quando as regras são infringidas. É diferente de expulsar...

  • O que é para si uma Banda Filarmónica?

    Muito friamente, para mim, é um grupo musical civil. Se aprofundar a questão, então posso considerar que é um pólo dinamizador de cultura, como o teatro, a pintura ou outras áreas. Um grupo de músicos não é igual a um grupo de futebolistas, por exemplo. Assim, considero um músico como um indivíduo que tem a obrigação de demonstrar um nível intelectual mais elevado que o normal, dado ter uma formação específica, muita ligada à Cultura e à Arte. Ou não seja a Música considerada a Arte divina... Assim, uma Filarmónica é, ou deveria ser, um grupo de pessoas que, para além de fazerem música, têm obrigação de ter um comportamento, como referi, cultural e intelectual mais refinado que qualquer outro grupo.

  • Costuma definir objectivos no final de cada época relativamente à próxima?

    Claro. Dada a organização da Associação, planificamos tudo no início de cada ano. Os objectivos são analisados e definidos em tempo útil. No que respeita à Banda Musical, o Maestro apresenta-nos as suas ideias, as carências, o repertório, os músicos que entende necessários, etc. Por sua vez, a Direcção reúne, avalia e depois decide em função das possibilidades que tem. Acertamos e definimos tudo com o Maestro e este tem autonomia para, a partir daí, agir dentro dos limites pré-estabelecidos, sem que a Direcção interfira com o seu trabalho. Posso afirmar, por exemplo, que nesta altura já temos a Banda Musical formada para a próxima época. Não quero com isto dizer que, eventualmente, não haja qualquer ajustamento, caso seja necessário e possível.

  • Que objectivos estratégicos tem definidos para a Banda Musical?

    Os objectivos relacionados com a Banda Musical resultam do enquadramento com os objectivos da ACMA, no seu todo e no seu plano estratégico. Mas, neste caso concreto, há sempre vertentes que estão em causa: maior aperfeiçoamento, melhoria substancial da qualidade e consolidação constante e permanente. A estabilidade na Banda Musical é também uma prioridade para nós, ainda que em detrimento da qualidade. A Banda Musical resulta da estabilidade da ACMA e, pelo facto de ser o “ex-libris” da Associação, será a última valência a extinguir, em caso de extrema necessidade. Mas se, para salvar a Instituição, tivesse que suspender a actividade da Banda, certamente que o faria! Temos objectivos muito definidos quanto à consolidação e desenvolvimento da Banda, mas em primeiro lugar está a ACMA como Instituição. No entanto, procuramos coordenar as coisas por forma a que todas as valências usufruam dos nossos esforços e tenham as mesmas condições de trabalho. Se por qualquer razão houver necessidade de tomar uma posição, mesmo que prejudique a qualidade artística da Banda, para defender a ACMA, não hesitarei em fazê-lo. Não tenhamos ilusões: uma Instituição é muito mais importante que uma só valência, seja ela qual for.

  • Tem algum conselho artístico para avaliar o desempenho da Banda?

    Não. Mas temos um Conselho Consultivo composto por onze pessoas, e um Conselho Pedagógico, este pertencente à Academia. O Conselho Consultivo é formado por músicos, por quem sabe música, por pessoas que gostam e não gostam de Bandas, que gostam de actividades recreativas, por pessoas neutras, novas, idosas, etc, da nossa confiança, que me fazem chegar as suas avaliações pessoais e francas sobre o desempenho da Banda. É com base nestes pressupostos que tiro as minhas conclusões.

  • O que analisam no Conselho Consultivo?

    Quando tenho alguma dúvida sobre o desempenho da Banda, e principalmente com a actividade diária da ACMA, falo com as pessoas individualmente e depois apresento o resultado dessas opiniões numa reunião de Direcção, para análise conjunta. Assim também como quando quero falar sobre assuntos artísticos, relacionados com a Banda Musical, reúno com o maestro Prof. Lino Pinto e o adjunto (contra-mestre) Rufino Moura, pessoas da minha inteira confiança, ponderadas, muito meticulosas, e abordamos as questões. Regra geral, também aí as decisões são consensuais.

  • Que barómetro usa para obter a qualificação da Banda?

    Nos concertos recolho as opiniões de várias pessoas, de diferentes idades e diferentes estratos sociais, de músicos, do Maestro, que considero franco, aberto, objectivo, conciso e em quem confio plenamente. Para mim está acima de qualquer suspeita. A comparação com outras Bandas é feita através da opinião de músicos credenciados, que servem também de barómetro para obter a avaliação, que felizmente tem sido francamente favorável.

  • Para um individuo que não gosta de Bandas - mas é dirigente de uma Instituição com um modelo de gestão muito particular e bem sucedido - como considera que são os músicos: pessoas simpáticas, embora por vezes complicadas, ou são presunçosos, demasiado complicados e egocêntricos?

    Como em todas as profissões há elementos bons e outros menos bons. Mas que é difícil trabalhar com músicos, não tenham disso qualquer dúvida. Diria que, na generalidade, são indivíduos de facto muito complicados. É preciso um tacto muito especial para lidar com eles. Há os que se consideram vedetas e não o são; há os que não se consideram e são de facto verdadeiros artistas; há os que são afáveis e simpáticos, disponíveis para tudo; há os não concordam com nada; há os presunçosos.... não é nada fácil, às vezes. E por aqui me fico...

  • Fazem-lhe muitas críticas no seio da própria Instituição? Nunca o consideraram ditador, prepotente face a alguma das suas posições?

    Fazem-me muitas críticas, como fazem a todos os que estão em cargos semelhantes noutras Instituições. “Deus que é Deus, não agrada a todos...” Mas quanto às críticas a considerar-me ditador ou algo do género, eu pergunto: será ser ditador acolher a opinião dos outros e discuti-las? Zelar pelo bem estar e interesses de todos quantos integram a ACMA, incluindo a Banda Musical? Será que ajudar os músicos a comprar os próprios instrumentos, financiando-os quando não têm possibilidades, em alguns casos pessoalmente? Será isso ser ditador e prepotente? Será ser ditador pelo facto de estar disponível, com a porta sempre aberta a todos os que querem apresentar ideias e analisá-las? Tentar congregar as quatro Bandas de Gaia, por forma a defender os seus interesses? Disponibilizar-me abertamente para que outros possam seguir o nosso exemplo? Com certeza que quem faze estas afirmações ou insinuações são aqueles ou aquelas que infringem as regras da ACMA... Agora, se me consideram arrogante por dizer frontalmente o que penso, isso não me incomoda. Assim como também não me incomoda o facto de ser considerado polémico. Comigo só trabalha quem quer e quem estiver disposto a seguir os objectivos traçados, em defesa da ACMA. Sou um defensor acérrimo do planeamento, mesmo que às vezes mesclado com algum improviso, e do cumprimento integral dos acordos estabelecidos.

  • Alguma vez sentiu que lhe trairam a confiança ou que deixaram de acreditar em si?

    Já tive quem me “roesse a corda”. Mas com reflexos e consequências graves nas áreas de responsabilidade, não creio que alguma vez isso tenha acontecido. Vê-se pelas Assembleias Gerais da Associação, em que nunca esteve em causa a confiança que os Associados depositam em mim. Pelo menos que eu me apercebesse...

  • Considera que as Bandas, no panorama nacional, estão a ser bem administradas?

    É difícil responder, até porque não tenho conhecimento do que se passa em outras Instituições, que me permita tirar conclusões. Mas interrogo-me: como é possível que Bandas com menos recursos que nós, e provavelmente maiores custos, cobrem pelo mesmo serviço verbas inferiores? Nós trabalhamos para a estabilidade, fazendo acordos com músicos para dois, três e quatro anos, tentando não depender de ninguém. Mas, pelo que me é dado saber, isso não acontece noutras Bandas. Vejo custos enormes e mecenas a colmatá-los, o que não durará para sempre, como é evidente. Vejo muitas Bandas dependentes desses mecenas, reflectindo aí uma deficiente administração, o que não pode acontecer! Não haverá grande futuro para quem procede desta forma. A História, com certeza, o dirá no futuro.

  • É verdade que a Instituição assenta na sua pessoa. O Sr. Jorge é o rosto da Instituição?

    Quanto ao primeiro ponto, não é verdade. No que diz respeito ao segundo, obviamente que outra coisa não poderia deixar de ser, já que sou o Presidente da Direcção e, por conseguinte, o rosto da Associação. Se sou o Presidente da Associação, há algum mal nisso ? Somos uma Direcção que trabalha numa base de confiança mútua e como um todo, onde cada um tem as suas reponsabilidades. Se “as coisas” correm bem, o mérito é de todos. Se “as coisas” correm menos bem, ou mal, assumo por inteiro toda a responsabilidade. Digo isto aberta e fracamente a todos os elementos que integram a ACMA, sejam dirigentes, associados músicos ou colaboradores.

  • A Banda faz cópias pirata das partituras?

    Nós temos um espólio de grande valor em partituras, as quais estão a ser catalogadas e informatizadas. Recebemos outras que são oferecidas por Instituições e particulares, e também compramos obras originais, claro. Mediante o orçamento que temos, estipulamos uma verba para a compra de partituras. Acho que os autores e seus representantes têm direito a serem compensados pelo trabalho que desenvolvem em prol da cultura. Estou perfeitamente de acordo que a SPA deveria fiscalizar todas as Bandas, e outros “grupos” musicais ou de outro género, sobre as obras têm e os direitos que pagam sobre elas, em qualquer evento que participe ou organize. Mas todas, não só algumas!!!

  • Como está o relacionamento com a Câmara Municipal de V.N.Gaia?

    Considero-o perfeitamente normal. Nem bom, nem mau... Agora o que não pactuo é com situações injustas e tenho o à vontade, frontalidade e honestidade suficientes, talvez por ter a consciência absolutamente tranquila, para chegar junto das Entidades e fazer prevalecer os direitos da ACMA. Eu defendo a minha “dama” e eles defendem a “deles”.

  • Nunca aconteceu a Banda pedir apoio financeiro para promover uma determinada actividade musical e a Câmara dizer que não tem dinheiro, mas entretanto a própria Câmara Municipal patrocinou uma outra actividade que, à primeira vista, tem muito menos importância que a proposta pela Banda? Isso normalmente provoca uma certa tensão entre as Câmaras e as Bandas.

    Eu nunca pedi dinheiro à Câmara ou outra Entidade! O que eu faço é apresentar projectos credíveis e perfeitamente fundamentados. Projectos que, sob o ponto de vista de qualidade, são 100% viáveis, lógicos e enriquecedores para a Cultura, que têm sido pura e simplesmente rejeitados. Em contrapartida, vemos a Câmara, ou Entidades por ela criadas, promover torneios de futebol, por exemplo. É público e vem no jornal: “GAIANIMA promove torneio de futebol”! Nós, Associações, substituímo-nos ao próprio Estado, como sabem, e as actividades que desenvolvemos são, por norma, da mesma qualidade e indubitavelmente mais económicas que as realizadas pelo Poder institucionalizado. Sou contra a política dos subsídios. Devemo auto-sustentar-nos. Agora, defendo a ideia que, a dar, dever-se-á ter em conta o Plano de Actividades de cada Associação e compará-lo com o Relatório das Actividades efectivamente realizdas nesse mesmo ano. Porque planear é uma coisa e realizar é outra. Por outro lado, entendo que o Poder, seja Central ou Autárquico, deve dar todas as condições para que seja possível essa auto-sustentação. De resto, o meu relacionamento com a Câmara é no sentido de fazer prevalecer os nossos direitos, os acordos que foram firmados, sempre de forma honesta e frontal e sem qualquer espécie de subserviência. Não crio problemas por a Câmara dar mais subsídios a “este ou aquele”. Mas, repito, sou contra esses subsídios. Não podemos é ser “encravados” pela Câmara, ou por quem quer que seja, de modo a sermos prejudicados. Quando tal acontece, aí sim, sou uma “lapa autêntica” e vou até às últimas consequências! A prova disso é que a nossa paciência está a esgotar-se em alguns casos, nos quais nos sentimos francamente prejudicados, na ordem de centenas de milhar de euros. É óbvio que tudo faremos para que sejamos ressarcidos desses prejuízos.

  • Sabemos que a Banda tem o Estatuto de Utilidade Pública. Benificia algo com isso?

    O Estatuto de Utilidade Pública não esta atribuído à Banda, mas sim à ACMA. O Estatuto de Utilidade Pública não nos benificia praticamente nada, por incrível que pareça. Faz com que tenhamos maiores obrigações e os resultados práticos são quase nulos. No entanto, não deixa de ser prestigiante gozar desse Estatuto.

  • Está satisfeito com o trabalho que desenvolve?

    Não. Nunca estou totalmente satisfeito, pois entendo que se pode fazer sempre mais e melhor.

  • Tem uma boa equipa na Direcção?

    Estou plenamente convencido que sim. Temos uma excelente equipa, formada por pessoas capazes em todas as áreas, disponíveis e que procuram sempre soluções consensuais.

  • Está disponível para apresentar o seu modelo de gestão a outras Direcções de outras Bandas, uma vez que é inovador e eficaz, se tal lhe for solicitado?

    Estou totalmente disponível para falar sobre o assunto ou explicar a quem mo solicite, sem qualquer problema. Ajudarei no que puder e me for possível, com todo o gosto.

  • Nunca gravou a Banda, quando todas têm Cd’s na praça, e a sua Banda tem qualidade para gravar como as outras. Porquê?

    Porque optamos por canalizar as verbas para outras áreas muito mais importantes, sob o nosso ponto de vista. Mas não está fora de questão. E com certeza que o faremos logo que possível e ao vivo, “tal e qual como somos”. Não queremos montagens sobre montagens. As gravações estão a vulgarizar-se. Com os meios disponíveis, conseguem-se resultados que não não são reais e muito menos credíveis. Não tardará a que ninguém acredite nessas gravações. Não queremos vulgaridade. Queremos mostrar o que realmente somos e valemos.

  • O que pensa do site bandasfilarmonicas.com?

    Acho-o muito interessante, útil e uma boa iniciativa, enriquecedora do panorama musical. As matérias diversificadas são o que mais aprecio e entendo que devem ser mais desenvolvidas. O site poderá ser um ponto de encontro de todos os músicos e público em geral, podendo atingir um nível elevado. É uma honra para mim as minhas opiniões passarem a constar também no site. Obrigado pela oportunidade.

  • Nós é que agradecemos e sentimo-nos muito honrados por ter aceite o nosso convite e por ter alterado parte das suas férias para estar nesta entrevista, um sábado à tarde. Temos a certeza que esta entrevista vai ser uma mais valia para o meio filarmónico e associativo. Foi um prazer muito grande conversar consigo e tomar contacto com as suas inovadoras ideias.