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19 de Setembro, 2019

Erik Janssen

Data da entrevista: 24 de Julho de 2010

Disponibilizou-se de imediato quando lhe solicitamos que nos concedesse uma entrevista ao site: "Claro, com todo o gosto. Na Holanda consulto o site bandasfilarmonicas.com pelo menos uma vez por semana. Será um prazer falar convosco". No dia 22 de Julho, pela manhã, cedo, nas instalações da C&C, em Sta. Maria da Feira, acompanhado pela gerente da Afinaudio, Irene Constantino, representante Moolenar em Portugal, o maestro Erik Janssen, director artístico da mais famosa editora holandesa, sentou-se à mesa para uma conversa de 90 minutos sobre vários assuntos relacionados com a música, com as Bandas portuguesas, civis e militares, com os maestros, com as gravações, com a Moolenar, e deu-nos conta das suas ideias, sugestões e comentários, sem qualquer complexo ou hesitação, sobre as temáticas em questão. Que tipo de banda será necessário para tocar hinos e marchas: Uma grande ou pequena Banda? Que aspectos são mais importantes nas obras para uma editora: O comercial ou o artístico? Ou ambos? Que importância social tem uma Banda de Música? O que é um bom maestro? Como analisa artisticamente uma Banda? Sobre a nossa filarmonia refere Erik: “em Portugal encontramos autênticas jóias, como a Banda Sinfónica Portuguesa (BSP) como a ARMAB (Banda da Branca), a Banda de Amares, etc.” Mas quem o fascinou de verdade em Portugal? “Fascinou-me a ARMAB porque têm um grande sentido de responsabilidade” Sobre o trabalho que vão editar – a breve prazo - desta filarmónica do norte de Portugal, “La mer” declara sem hesitação: “Foi um grande risco, mas tudo o que estava à espera foi realizado”. La Mer, de Debussy, compositor francês, é considerada uma obra-prima da orquestração. A Banda da Branca foi uma surpresa. Mas há mais coisas interessantes nesta entrevista com Erik Jassen, músico, maestro de uma Banda Militar na Holanda, director artístico da Moolenar, pai de 4 filhos, um homem da música com uma grande visão de futuro. Um vanguardista.

  • Como surgiu a sua relação com Portugal? Em que ano aconteceu, com quem e de que forma?

    A relação entre a Molenaar e Portugal começou com o envio de um CD com a obra Cassiopeia de Carlos Marques. Ele perguntou-me se estaríamos interessados em publicá-la. Indaguei na empresa se tínhamos algum departamento em Portugal ou algum contacto, ou se poderíamos vender bem. Uma das raparigas disse: "Bem, não há quase nada." Eles pensaram "É um pais tão pequeno." e depois tinha esta música "Cassiopeia" e gostei dela logo à primeira vez que a ouvi. Por isso, ele foi o primeiro compositor português que conheci. Telefonei-lhe, mostrei a música a colegas e disse que devíamos convidar este homem, trazê-lo à Molenaar. Por isso pedimos-lhe para comprar um bilhete e vir cá, no mesmo dia, acho que era uma Sexta-feira. E na Segunda-feira seguinte, lá estava ele. Foi muito rápido e estava muito entusiasmado.

  • Portanto, começou com o Carlos Marques, em que ano?

    2004 ou 2005.

  • Nessa altura com que opinião ficou sobre a qualidade da música que se fazia em Portugal?

    Foi o meu primeiro contacto com Portugal. Ele falou-me das festas, das bandas militares, sobre bandas filarmónicas e que estavam à beira de uma revolução musical. Disse-me que tinham surgido muitos novos maestros, muita gente nova como ele, como o Paulo Martins, Francisco Ferreira, etc. Havia “algo” para surgir, a acontecer em Portugal. Que haviam muitas pessoas fortes e queriam uma mudança. É uma das lembranças que me surge. O Carlos dizia "As coisas devem mudar e vão mudar, porque queremos mostrar-nos e ter alguma seriedade no movimento das bandas”. Não estava muito interessado no resto do mundo, só queria que as bandas subissem de nível com ele. Ele falou-me também do Norte de Portugal, que tinha muito boas bandas amadoras. Que as grandes bandas militares estão apenas em Lisboa, que no Sul e no Alentejo há algumas bandas pequenas, etc... É uma situação que se pode comparar com a da França. No Sul, bandas mais pequenas (filarmónicas) e no Norte as maiores. Não sei porquê, mas ainda me lembro desse pormenor. Na Noruega é ao contrário. As maiores estão no Sul.

  • Conhecia ou tinha ouvido falar de algum compositor português antes?

    Não. E foi assim que descobri, que Portugal estava isolado do resto do mundo. A Espanha tem quase a função de porta para Portugal. O Carlos explicou-me que os portugueses não eram muito bons a promover Portugal fora de Portugal, nem a falar Inglês. Que se sentiam bem por serem conhecidos graças ao fado e à comida e que não havia problema se não fosse por mais nada. Se calhar é a natureza dos portugueses. Quando se tem todas essas coisas boas...

  • E que opinião tem agora? Temos boas bandas? Bons compositores?

    Quero conhecer bem todos os compositores portugueses. Jorge Salgueiro, Luís Cardoso, Nuno Osório, Samuel Pascoal, Afonso Alves, são alguns de que conheço algum repertório. Nestes últimos dias ouvi falar de Joaquim Luís Gomes e de Duarte Pestana que compôs o Arco-íris. Foram-me fornecidas algumas gravações mas não conheço muito bem. Acho que há muito bons compositores. Mas também é preciso analisar pelos dois lados. Temos o lado comercial e o lado artístico. A Cassiopeia, por exemplo, é uma obra muito boa para editoras de música porque muitas pessoas gostam de a tocar. Gosto do Maré Nostrum, mas há poucas bandas que conseguem tocar essa obra. Neste momento, espero encontrar novas estrelas, porque notei que há muitas boas composições de jovens compositores. Muitos jovens estão interessados em compor e muitos mandam partituras difíceis. Espero muito nos próximos anos. Vejo que os compositores como o Luís Cardoso e o Carlos Marques estão a ficar interessados em escrever coisas mais complexas. Cresceram. Estão a escrever para a próxima geração. Mas ainda estou à espera de um Alex Poelman português. Isto é como uma caça ao tesouro. Encontramos autênticas jóias, como a Banda Sinfónica Portuguesa (BSP) como a ARMAB (Banda da Branca), a Banda de Amares, etc... As pessoas têm muito orgulho em falar nas bandas onde tocam e no repertório que querem tocar. Estes novos maestros vão inspirar os novos compositores a fazer obras cada vez mais interessantes.

  • Em termos de Bandas de Música, conhece a sua distribuição geográfica pelo nosso país? Norte, Centro, Sul, Ilhas?

    Posso fazer uma comparação com o futebol. Para haver equipas de topo, é preciso que haja muitos jovens a jogar, com entusiasmo, de onde surjam jogadores promissores e com garra para subir de nível. Desde que hajam bandas com alto nível e conservatórios a motivar os jovens a melhorarem, não haverá falta de nível nas bandas. Na Holanda algumas bandas pedem que vá lá falar com os músicos porque as coisas não estão a correr muito bem. E eu pergunto-lhes "Qual é a vossa meta para 5 anos? 10 anos?" e muitos não sabem o que dizer. É fundamental que existam objectivos. No norte da Holanda passamos por maus tempos, há 20 anos atrás. As bandas perderam os jovens e ninguém entrava de novo. As pessoas envelheciam assim como a banda. Às vezes tinham de se juntar a outra banda. Houve uma altura em que existiam umas 50 bandas, mas depois passaram para 20, porque não havia gente nova a entrar. Não tinham entusiasmo nem objectivos. Parece-me estar a acontecer o mesmo no Sul de Portugal.

  • A Molenaar está a interagir com as Bandas Portuguesas através da Afinaudio. Que benefícios institucionais crê que usufruem as Bandas e a Afinaudio com esta relação?

    Graças ao Paulo e Irene Constantino, é bastante mais fácil o contacto rápido com as bandas, porque eles conhecem grande parte das bandas em Portugal, e assim também nós temos acesso aos mesmos contactos. Foi também através do meu trabalho no Verão Amizade, que tive o primeiro contacto com o Paulo e começámos a relação com a Afinaudio.
    Acho que é importante lançarmos CDS de bandas portuguesas e estas fazerem parte dos nossos catálogos. Mandamos cerca de 50 000 catálogos para todo o mundo com os CDS de demonstrações. Mandamos muitas partituras, para análise a diversas pessoas importantes no mundo. Temos uma longa e extensa rede de contactos em vários países do mundo. Muitas vezes as pessoas que recebem os catálogos reparam que há uma maior quantidade de CDS e obras portuguesas e colocam todo o tipo de questões, especialmente agora com os últimos CDS que estamos a fazer, como o da ARMAB onde se encontra a obra “La Mer”. Ficam positivamente admirados com o projecto. Acho que é importante para as bandas mostrarem ao mundo o excelente trabalho que produzem. É bom para eles e para nós.

  • A Molenaar escolhe as bandas com quem gravar. Não é descriminação considerando o universo geral das Bandas?

    Não. As pessoas quando ouvem as demos querem ouvir música de qualidade. Se tiver boa qualidade estarão mais interessadas em comprar. Se estiver com uma má gravação, má afinação, etc. já não quererão nem o CD nem a música. Vivemos num mundo de pessoas cépticas, que gostam do que tiver mais qualidade. Temos muitas partituras para bandas jovens e de crianças e achamos que, pelo mundo inteiro, muitas bandas têm problemas em gravar demos de músicas fáceis com estilo. Com músicas tipo Mare Nostrum, toda a gente está motivada para tocar no seu melhor. Mas quando se pega em música muito simples, é mais difícil de gravar. Se não fizermos uma selecção de bandas para os demos, ninguém nos vai ouvir. Recebemos todos os meses cerca de 40 catálogos de outras editoras. Está tudo muito organizado. Agora com a Afinaudio temos 4 CDS de bandas portuguesas, de 7 CDS que lançamos este ano. Neste momento, estamos a gravar mais CDS do que precisamos. 4 ou 5 por ano, chega. Interessa-me primeiro gravar os CDS comerciais e vender muito e só depois partir para os CDS musicais, para os amantes da música.

  • Por outro lado, porque decidiu a Molenaar incidir sobre a Bandas Portuguesas ao invés de por exemplo as Espanholas ou as Holandesas ou de outros países do centro da Europa, mais perto da sede da empresa? Prefere as bandas portuguesas porque são mais fáceis de contactar?

    O melhor nas bandas em Portugal é que são jovens, querem mostrar um bom nível e têm muito entusiasmo. O ano passado foram planeadas mais gravações mas as bandas não tiveram oportunidade de as cumprir.

  • Como caracteriza a Moolenaar enquanto editora de música para Banda? É uma empresa que se preocupa com as Bandas e procura ter sempre repertório inovador? É uma empresa que visa essencialmente a actividade comercial e o repertório para Banda surge como um dos seus produtos? Os compositores são um meio para atingir o fim?...

    A Molenaar é uma das editoras com mais tradição (75 anos). Uma das coisas que mais gostava no meu ex-chefe Jan Molenaar era que mantinha relações de longo-prazo com os compositores. Geralmente ficavam amigos para a vida. Tentamos sempre fazer gravações das obras dos nossos compositores. Até lançámos uma edição com dois CDS de um compositor quando já estava prestes a morrer em honra dele. Fomos a primeira editora a escolher obras de banda sinfónica para banda de sopros simples e a primeira a lançar repertório para bandas juvenis. Fomos também a primeira editora com peças originais desde a II Guerra Mundial, para orquestra de sopros. Quando passo pelos arquivos, vejo por lá muitos tesouros. Temos o nosso próprio estilo. Temos muitas obras sérias mas também ligeiras. Tentamos lançar o que gostamos. Temos muitas obras que se vendem sempre.

  • De todas as Bandas Filarmónicas com quem tomou contacto, quer editando CDS quer através de eventos, qual foi a que mais o surpreendeu? E porquê?

    Neste momento, ARMAB (Banda da Branca). Tudo o que estava à espera foi realizado com esta gravação. Foi também uma grande aventura para a ARMAB porque é repertório difícil de gravar. Foi um grande risco. Gosto de pessoas que adoram o perigo, a aventura. Fascinou-me a ARMAB porque têm um grande sentido de responsabilidade e quando finalmente vão gravar tem de estar tudo perfeito.

  • Houve alguma que o decepcionou?

    Algumas bandas tiveram problemas, mas nenhuma me desapontou. Nós tentamos e há sempre um risco. Existem sempre várias pessoas com diferentes objectivos. Mas foi bom termos tentado gravar com Amares. As demos saíram muito boas, mesmo que não tenha saído nenhum CD integral. Para mim não houve problema nenhum, faz tudo parte do nosso negócio, apesar de se investir muita energia neste género de projectos.

  • Sobre a organização das Bandas Filarmónicas portuguesas, crê que estão bem estruturadas e que os seus projectos são claros e definidos?

    Ouvi falar acerca da organização na ARMAB, Banda Sinfónica Portuguesa e Amares. Das outras ainda não estou a par. Parece-me que ainda estão a crescer, mas sei que muitas outras bandas têm capacidade para tal. Vilela, Taveiro, por exemplo...

  • Como sabe a Banda Sinfónica Portuguesa – BSP - editou este ano o seu 2º CD. Trata-se de uma Banda civil do Norte de Portugal, do Porto, cujo titular é o Maestro Francisco Ferreira. É uma instituição nova (5 anos), não profissional, que praticamente não custa dinheiro ao estado português e que se tem apresentado como uma verdadeira surpresa artística, reconhecida por alguns dos mais famosos maestros europeus do mundo das Bandas. Que comentário lhe merece este trabalho (CD) e que comenta sobre esta Banda?

    Eu acho que se encontram projectos destes por toda a Europa. É bom haver projectos não relacionados com os militares que consigam afirmação artística de nível, como é o caso de BSP. Vejo que tem músicos de muitas regiões. Na Holanda também há cada vez mais bandas com projectos desse género, algo que há noutros países também. Chamamos-lhes bandas de projectos. Têm 5 ou 6 concertos por ano e ensaiam durante uma semana e são contínuas, mas só mesmo para projectos/estágios. O nível do CD da BSP é muito alto.

  • Não é o caso da BSP porque o seu projecto é contínuo e verdadeiramente inovador. Também é público que está a caminho um novo CD com a ARMAB - Banda da Branca. Uma Filarmónica dirigida pelo Maestro Paulo Martins. Que nos pode dizer sobre a qualidade artística desta Banda e sobre o trabalho que vai ser apresentado no novo CD?

    Tiveram de tocar música impressionista muito difícil, como “La Mer”. É extremamente complexo para uma banda tocar música impressionista. Têm uma banda muito boa e naipes muito bons, em conjunto. São muito inteligentes a tocar. Como filarmónica é impressionante.

  • Erik, para si, que importância social tem uma Banda de Música amadora?

    Não consigo imaginar algo melhor do que tocar numa banda. Três gerações a tocar juntas, aprenderem juntos, a beber uma cerveja, a conviver, etc. Penso que é uma boa forma de socializar porque numa banda há muitas regras. Quando uma criança toca numa banda vai assimilando bem a importância das regras musicais e sociais. O mundo está a tornar-se mais egocêntrico e estas comunidades são importantes para manter as pessoas sociáveis. Muitos pais não compreendem a importância das bandas neste sentido. É essencial para as pessoas saberem que são necessárias, que são úteis. A Banda amadora, no âmbito do seu trabalho artístico, é um importantíssimo meio de responsabilizar os jovens, de uma forma suave e altamente pedagógica, para a vida.

  • Já editou várias Bandas Militares portuguesas e sabemos que tem intenção de continuar. É óbvio o seu interesse em trabalhar com estas Bandas. Que opinião tem sobre a qualidade artística das nossas militares?..

    No passado já gravei com a GNR e a PSP. Na minha opinião, as pessoas parecem gostar que se faça gravações nas bandas militares. Têm orgulho de mostrar um CD gravado. E o que me parece é que as bandas estão muito interessadas em gravar repertório recente e uma coisa boa destas bandas é que têm bons maestros, excelentes músicos, e conseguem fazer um bom trabalho. Todas são diferentes, cada uma com a sua especialização. A GNR é muito grande, em número, e gosta de arranjos e transcrições. No Norte da Holanda, as Bandas Militares costumam ter só 60 músicos. É impressionante para mim ver uma banda tão grande. A PSP parece-me mais flexível. Por isso, tenho boa experiência com as bandas militares. São orgulhosas mas não elitistas. São bastante abertas a novos desafios. É o que gosto neste país, todas as pessoas parecem-me muito positivas.

  • As Bandas Militares e os respectivos maestros disponibilizam-se sem problemas para gravar as obras da Moolenar? É fácil a relação com as instituições Militares quando lhes apresenta propostas? Colocam alguma resistência?

    Sim, claro. Eu também tenho o meu horário muito preenchido e não é preciso gravar absolutamente num determinado dia. Podem arranjar uma altura quando lhes der mais jeito. Posso também discutir com os maestros, se precisarem de obras novas, diferentes. Quando preciso de gravações novas para o catálogo, basta pedir. Tenho bastante sorte em ter agora capacidade suficiente para gravações. Há uma banda na Alemanha que me é disponibilizada todos os anos em Fevereiro para gravar o que for preciso para o catálogo, por isso não tenho de pressionar com datas. Acho que as bandas militares gostam muito de gravar, porque é interessante para os músicos. As bandas militares pela Europa gostam muito da Molenaar.

  • Sobre a organização das Bandas Militares Portuguesas, segundo a sua experiência, crê que está tudo perfeito, nada há a referir, ou quer fazer alguma sugestão ou comentário?

    Não, eu também trabalho numa banda militar e sei os problemas que costumam ter. Vejo que temos muitos problemas similares. Temos que estar sempre disponíveis e promover constantemente a banda para os nossos superiores. Custam muito dinheiro ao Estado. É preciso trabalhar para eles. Depois se houver tempo, faz-se o trabalho artístico. Podemos aprender muito com as bandas militares portuguesas. Parece-me uma excelente ideia ter maestros convidados. Há sempre uma evolução com um ritmo constante.

  • Quer destacar alguma Banda Militar portuguesa ou algum maestro pelo trabalho que desenvolve?

    Não é simpático para as outras bandas (riso). Vi a banda da Força Aérea há pouco tempo, e reparei que têm 3 maestros. Na Holanda só temos um maestro principal. Por vezes um assistente. Podemos aprender com os portugueses. Posso dizer que ouvi a gravação da Sagração da Primavera executada pela Banda da GNR, sob Direcção de Jean-Sébastien Béreau, num concerto ao vivo e que achei particularmente boa. Sobre maestros, já trabalhei com o Maestro Jacinto Montezo no passado e gostei bastante.

  • Erik, como avalia a qualidade artística de uma Banda?

    Quando tenho uma gravação, ouço, primeiro tudo. Depois pela técnica, mas mais importante para mim, o ambiente da gravação. Quando uma gravação soa bem, afinada, é o mais importante. Quando há problemas de afinação, de ataques, não gosto. Tudo tem de estar num certo nível, um bom estilo, que o tempo seja lógico. Gosto de música pura. Por isso é que gosto da banda de Vilela. Tecnicamente, não são perfeitos, mas fazem boa música, têm muita paixão. Eles sabem que têm de ser mais precisos, mas acima de tudo, não perderem a paixão. Às vezes prefiro a maneira portuguesa de pensar acima da americana. Menos perfeição, mais paixão. Pode ser um pequeno defeito, mas é um desafio para Portugal. Não se pode perder a paixão, mas tem de se melhorar a técnica.

  • Erik o que é para si um excelente maestro?

    O que tocar a música certa para a banda que tem. Aquele que sabe estimular e motivar os músicos. Quando os músicos acreditam num maestro é sinal que o maestro é bom. Seja com uma banda juvenil ou com uma banda sinfónica, um maestro que escolhe o repertório certo para a banda, é para mim um maestro ideal. Há variadíssimos aspectos a considerar mas estes que acabo de referir são de particular importância na apreciação de um maestro, no contexto de uma Banda de Música.

  • Que conhecimentos se requer que o maestro deva possuir para ser considerado um bom maestro?

    Deve compreender a música, ajudar os músicos, ser muito eficiente e saber exactamente o que quer expressar. O melhor maestro não existe. Todos os maestros têm os seus defeitos. Há maestros que são muito bons num certo estilo e outros noutros estilos.

  • Agora que conhece melhor o mundo português das Bandas - civis e militares - que compositores portugueses destaca e que obras portuguesas são dignas de realce?

    Há algumas obras que são bastante exclusivas, mas há outras que são mais fáceis e muitas bandas preferem tocar as últimas. As obras que a maior parte das pessoas gostam, são geralmente as mais vendidas na Molenaar. Por exemplo “A Moment for Morricone” é há muito tempo, e perdura, a peça mais vendida da Molenaar. Por isso digo que é uma das nossas melhores obras.

  • Que maestro ou maestros são dignos do seu apreço, no nosso país?

    Paulo Martins, Francisco Ferreira, José Brito (PSP), André Granjo,... Ricardo Freitas, José Pedro. Parecem-me ter muita paixão e entusiasmo. Estão muito motivados. Mas, como já disse, não há maestros perfeitos. Muitas vezes o melhor maestro tem uma personalidade horrível. A excessiva concentração em não cometer erros no seu trabalho acaba por vezes por prejudicar severamente outras áreas relacionais, que a posteriori, inevitavelmente se reflectirão nos seu trabalhos.

  • Para si maestro Erik Janssen, qual é o modelo perfeito de Banda para tocar ao ar livre e para auditório?

    Uma brass band. Acho que dá para perceber pelas bandas do Norte da Europa. Geralmente, há mais brass bands que bandas mistas, com madeiras e metais, por causa do tempo. Os metais conseguem aguentar melhor o frio do que as madeiras. Mas depende do público. Para mim o público é mais importante do que a formação.

  • Já agora, gostaríamos também de saber a sua opinião sobre a quantidade de músicos que seria indispensável para tocar os hinos nacionais e marchas militares nas paradas. Será que a Brass Band seria ideal para este efeito uma vez que os metais são também mais resistentes ao desgaste?

    Na Holanda, depende do número de serviços e da sua importância, algumas bandas têm um agrupamento mais pequeno, como a GNR do Porto. A Força Aérea na Holanda têm também uma Fanfare Band com cerca de 22 metais e fazem muitos serviços. Mandam-nos para os serviços menos importantes. Quando é um serviço importante, como para a Rainha, toda a gente vai. As duas bandas funcionam separadamente, excepto quando há feriados nacionais ou serviços para a Rainha, e se juntam. Todas as bandas na Holanda têm formações do género. A da Marinha tem uma banda de gaitas-de-foles e tambores. No Exército têm também uma pequena banda de metais. Mas para hinos e marchas militares uma Fanfare Banda funciona perfeitamente.

  • Erik, quanto tempo acha que um maestro deve estar na direcção artística de uma Banda? Gostaríamos de lhe propor as seguintes sugestões de resposta: 1. 4 ou 5 anos? 2. O tempo que quiser? 3. O tempo que conseguir? 4. A direcção da Banda é que deverá determinar? 5. A Banda na generalidade é que se deverá pronunciar sobre se é ou não útil a continuidade ano após ano do maestro? 6. Uma comissão artística, composta por várias personalidades da música avaliarão ano após ano a continuidade do maestro? 7. Pode e deve permanecer enquanto conseguir transmitir novos conhecimentos?

    Na minha opinião, 4 ou 5 anos. Nos contratos (na Holanda) costuma haver sempre um limite de 5 anos. É difícil, por vezes, quando se tem um projecto, só ter 5 anos para o cumprir. A ARMAB, por exemplo, é o resultado de muitos anos. Não começou só agora. Às vezes é bom seguir o exemplo de Espanha. Há muitos maestros que saem e a comunidade fica a pensar: “o que é que ele fez realmente?”. Há muitas coisas que os maestros fazem a pensar a longo prazo e muitas pessoas não vêem. Quando é uma direcção ou um maestro com muitos objectivos a longo prazo, acho que é boa ideia ficarem mais tempo, 10 ou 15 anos. É lógico este quadro quando se verifica que o maestro acrescenta constantemente nível à banda. Na minha banda, todos os anos os directores e músicos fazem uma avaliação a mim e ao meu trabalho e da banda no geral. Mas acima de tudo é importante toda a gente ter a mente aberta. Na Holanda acontece um pouco à semelhança daqui. Há poucos maestros bons. Há uma geração nova a surgir neste momento, mas só daqui a 10 anos iremos conhecer o seu trabalho.

  • Erik, gostou desta entrevista? Quer comentar algo sobre a forma como lhe colocamos as questões ou fazer-nos alguma sugestão?

    Achei que estava muito bem preparada. Muito boas perguntas. Gostei muito.

  • E da visita a Portugal?

    Gostei imenso, particularmente do ambiente daqui e dos jantares que tive. A comida em Portugal é muito importante! (risos).

    Tenho o forte sentimento que as bandas portuguesas estão a começar um movimento muito grande e a fazer coisas muito boas. Há alguns problemas, mas vejo muitas ambições. Acho que o mundo internacional daqui a uns anos vai conhecer muito bem Portugal.

  • Conhece o site bandasfilarmónicas.com?

    Claro. É um site muito bom porque está sempre a ser actualizado. É interessante para muitas pessoas, não só para músicos como para outros intervenientes e interessados nas bandas. O problema nos sites à volta do mundo é quando se pára de colocar notícias, de actualizar, morre. Este é o excelente site que visito pelo menos uma vez por semana na Holanda. Parabéns!

  • Agradecemos muito a sua disponibilidade para esta entrevista e desejamos-lhe o maior sucesso na prossecução dos seus objectivos.

    Obrigado