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19 de Setembro, 2019

Jorge Almeida

Data da entrevista: 21 de Novembro de 2004


  • Considera-se o melhor trompetista português?

    Provavelmente terei o meu lugar, mas deixo esse “rótulo” ao critério, ou à avaliação dos meus admiradores. Tento fazer o meu trabalho da forma mais profissional possível. Se me consideram o melhor Trompetista português, ou não, fica à consideração dos que me ouvem.

  • Fazer vida de solista é possível em Portugal?

    Em Portugal é muito difícil. São necessários muitos factores extra-música a acompanhar o músico que se tornam muito difíceis de conseguir, em Portugal.

  • Quando começou a dedicar-se à música?

    Aos 4 anos comecei a prestar mais atenção à música. O meu pai era já músico de uma Banda Filarmónica, tocava Fliscorne. Tocava todos os dias. Certo dia o meu pai arranjou-me um trompete para eu me entreter. A dada altura o meu pai emigrou, mas disse-me que ia para uma festa com uma Filarmónica. Só que não vinha, não aparecia e eu comecei a perguntar à minha mãe quando vinha o meu pai. A minha mãe disse-me que ele vinha, mas vinha mais tarde. Eu comecei então a ficar muito nervoso e adoeci. Tornei-me, com o tempo, hiper-activo. Um dia peguei na trompete e toquei uma música que se ouvia muitas vezes na rádio. A minha mãe ficou surpreendida e gravou essa primeira intervenção. Isto, com quatro anos de idade.

  • Então desde cedo verificou que o seu ídolo musical não era propriamente o seu pai?

    Sim. Admirava muito o meu pai a tocar Fliscorne, tinha um som muito bonito, mas cedo verifiquei que queria ir muito mais além. No entanto, um dia o meu pai começou a incentivar-me para estudar solfejo e a tocar à sua maneira. No final de cada dia tinha de tocar, para ele ouvir, o que tinha estudado. Como se tornava obrigação para mim, próprio da idade, estive para deixar a música a determinada altura. Contudo a minha mãe prometeu-me uma mesada, com o objectivo de eu não deixar a música. Desta forma convenceu-me.

  • Quais foram os seus factores de sucesso?

    Existiram muitas condicionantes ao longo da minha vida. Gostaria de recordar a Banda de Lobão: A farda que me deram era maior que eu. As pessoas diziam que eu era o “trompetista pequenino”. Um dia, o meu pai disse-me que era eu que tinha de tocar determinado solo. Eu dizia que não, ele dizia que sim. Só no último momento quando eu vi que o meu pai não tocava mesmo, toquei o solo e correu bem. Foi o primeiro momento da carreira que considero factor de sucesso. Mas sucederam-se muitos mais.

  • Quem foi a pessoa ou pessoas que mais o incentivaram na carreira?

    No início foi o meu pai. Inscreveu-me na academia de S. J. Madeira e tive como professor Ant. Baptista - que ensinava Trombone . Passados dois anos falou com os meus pais e sugeriu que eu fosse estudar com um professor de Trompete. Indicou-lhes o Prof. Macedo, do Conservatório do Porto. Passei então a ter algumas aulas com o prof. Macedo (que também me incentivou muito) no Conservatório do Porto, mas continuei na Academia de S. J. Madeira. Tive várias pessoas que me incentivaram. Uma delas por exemplo, foi o Mário Cardoso, que me aconselhou sempre no sentido da minha especialização, da dedicação e de seguir em frente apesar dos momentos adversos.

  • Ganhou um 1º prémio num concurso de jovens?

    Em 1987 participei no Concurso da Juventude Musical Portuguesa. Ganhei então o 1º Prémio a nível Regional e o 1º Prémio a nível Nacional. O prof. Macedo tentou ainda que eu concorresse ao nível acima, mas não me foi possível dado a minha idade ser inferior à idade exigida.

  • Chegou a concorrer à Banda da GNR de Lisboa?

    Verifiquei que aqui no Norte não tinha possibilidade de progredir musicalmente. Tinha as Filarmónicas mas não haviam grandes oportunidades. As possibilidades eram então as Bandas Militares. Apercebia-me também que sempre que vinha um músico da Banda da Guarda, da PSP, do Exército ou qualquer outro músico militar, tocar às Bandas Filarmónicas era admirado como sendo um grande artista. Tinha um estatuto elevado. Daí o meu interesse e gosto em ser um músico militar. Fiz as provas para a Banda da GNR, no entanto, apesar de terem corrido muito bem as provas, não fui seleccionado. Concorri também à Banda da Marinha e fiquei bem. Contudo não havia vaga para Trompete, propuseram-se então que ficasse a tocar Trompa e mais tarde mudar para trompete, mas como não era esse o meu objectivo, não aceitei a proposta. Entretanto como a ideia Bandas Militares ainda existia, inscrevi-me como voluntário na Banda do Exército do Porto. Fiz história na Banda do Exército. Na recruta pedia a chave da sala da Banda para estudar à noite. Os meus colegas apareciam lá, falavam para mim, mas eu concentrava-me no meu trabalho e estudava ao máximo.

  • Entretanto começou a ser contratado para ir tocar às Bandas Filarmónicas como Solista?

    Como na Banda do Exército haviam muitos Maestros de Bandas Filarmónicas, começaram a contratar-me para ir tocar. Comecei a ser conhecido como o Trompetista Jorge Almeida. Ganhava bem, era agradável o meu estatuto...

  • Entretanto concorreu a Sargento?

    Concorri e fui para Lisboa fazer o curso. Aí, esse trabalho, já me deu algum “gozo” fazer. A determinada altura do curso verifiquei que mesmo assim, era muito limitado para mim. Cheguei a um ponto que estava a deixar de ter motivação para estudar Trompete. Então pensei que teria de procurar algo diferente para evoluir. Surgiu a possibilidade de ir para a Banda da PSP de Lisboa, directamente como Subchefe. Foi muito polémica a minha saída do Exército. Não queriam que eu saísse. Cheguei uma vez a ser chamado ao General Comandante que me tentou convencer-me a ficar no Exército, mas como não era isto, ainda, que estava nos meus planos, lá fui para a Banda da PSP, na Calçada da Ajuda.

  • Que vantagens lhe oferecia a Banda da PSP?

    Muitas vantagens. Não tinha de fazer muitas Guardas de Honra, ensaiava à civil, tinha todas as tardes disponíveis para estudar como eu queria.

  • Que mudanças se operaram na sua vida a partir da sua entrada na Banda da PSP?

    Muitas mudanças. Coincidiu com o aparecimento da Orquestra Metropolitana, como Orquestra e como Edifício Cultural, que nesta altura abriu o Curso Superior de Trompete. Fiz exame para entrar no Curso Superior mas, com a minha entrada para o Exército deixei de estudar e na altura ainda não tinha terminado o 12º ano. Logo, não me era possível entrar num Curso Superior. Porém, a Metropolitana, ao abrigo de uma Lei que eu desconhecia, admitiu-me como sendo sobre-dotado. Entrei então para a Metropolitana e como as salas estavam disponíveis 24h por dia ia estudar até altas horas da noite. Um dia estava a estudar e, por volta das 2h da manhã ouvi um Trompetista numa outra sala. Era algo de extraordinário. Um grande Artista. Aproximei-me então da sala e vi o meu professor a estudar, depois de um concerto com a Orquestra: Douglas Stephenson. Pedi-lhe se podia assistir ele disse-me que sim e disse-me para trazer o Trompete. Assim, durante 2 anos, todos os dias eu e ele “trabalhámos” horas a fio. Isso significou anos e anos de estudo. Sem trabalho, nada feito, seja para o que for.

  • Quando começou a tocar na Orquestra?

    Um dia o meu professor sugeriu-me ao director da Orquestra para substituir o Robert Shambers que tinha saído. Assim comecei a ocupar o lugar de 2º Trompete ao lado do meu ídolo. A determinada altura o Douglas Stephenson incentivou-me a ocupar o lugar de 1º Trompete. Com muito receio de assumir tamanha responsabilidade, lá fui assumindo e lá fiquei.

  • Ainda voltando às Bandas Militares, que diferenças vê e que tipo de trabalho acha que se desenvolve nas Bandas da Polícia e do Exército?

    Ambas não saíram ainda do conservadorismo. Contudo, neste momento a Banda da PSP terá, talvez, mais condições para um maior progresso musical. Tem uma chefia (o Maestro Brito) com formação de grande nível, específica para o lugar (Direcção de Orquestra), tem boas perspectivas de futuro. Considero o Maestro Brito, neste momento, o mais qualificado de todos. As Bandas do Exército têm alguns problemas de fundo que não lhe permitem muita evolução artística. Estão voltadas praticamente só para dentro da Instituição Militar e naturalmente isso bloqueia a possibilidade de progressão musical. É lamentável que as instituições públicas de índole cultural, em vez de funcionarem para o público em geral, funcionem apenas para o interior da instituição, e contudo à conta do erário público.

  • Acha que as Bandas Militares devem ter projectos próprios?

    Sem dúvida alguma. A música neste país, apesar de ser uma grande “fonte” de Cultura, é vista como uma “fonte” de despesa. Enquanto se mantiver esta mentalidade significa que as Bandas do Exército correm risco de extinção. Porquê? Porque para fazer Guardas de Honra apenas é necessário um número limitado de músicos. Por outro lado, os chefes militares devem ter especialização, ao mais alto nível, para o cargo que ocupam. Não vá acontecer (como acontece) os músicos serem mais especializados que os maestros e em vez de serem apoiados e rentabilizados são é votados ao abandono e à indiferença. O tempo o dirá, quanto ao que vai acontecer sobre este assunto. As Bandas Militares são, de certa forma, a imagem dos maestros e não a dos músicos.

  • Acha que nas Bandas Militares não se desenvolve um trabalho proporcional aos custos que comportam?

    Sem dúvida. As Bandas Militares, terão de ter em conta esse aspecto.

  • Quantas horas estuda por dia?

    As necessárias e as que me permitem o prazer de tocar. Tudo o que faço, a nível musical, faço com prazer. E creio que de outra forma não pode ser. Procuro na hora do almoço estudar, no fim do ensaio, e quando é preciso, em função do repertório e pela noite dentro, se preciso for.

  • Neste momento perguntará um jovem estudante: Se este professor tem o nível que tem, toca todos os dias, muitas horas por dia, e ainda estuda sempre que pode, o que estudará ele?

    Flexibilidade, endurance, e o que verifico ser necessário rever ou relembrar.

  • Como fica, psicologicamente, quando falha um solo?

    Acontece... Os instrumentos são máquinas susceptíveis de avariar. Se um piston falha não há nada a fazer. Fico tranquilo.

  • Tem alguma recomendação a fazer aos jovens, que falham os solos?

    Tocar a solo já é um acto de coragem. Somos humanos e falíveis. É a nossa natureza. Falhar a tocar a solo é natural e deve ser entendido como um acto natural. Apenas isso.

  • Dizem, para além de todas as suas qualidades, que tem uma sonoridade extraordinária e um belo timbre. Acha que o instrumento tem grande influência ? É imperativo ter um trompete de topo de gama para se conseguir isso?

    Não, nem pensar. Cada Trompetista deve adaptar o instrumento à sua medida. A melhor marca de trompete é a “DHS”. É o que digo aos meus alunos: Dedicação, Humildade e Sacrifício. O mesmo instrumento não é o melhor para todos. Cada um de nós tem as suas características, que regra geral são únicas, e são incomparáveis. Há grandes Trompetistas a tocar em todas as marcas. O que os jovens pensam é que copiar o que tem os professores é a chave do sucesso para ter um bom timbre. Mas é errado. Trabalho, a chave está no trabalho cuidado e direccionado, com quem saiba do assunto.

  • Que tipo de estudos ou obras recomenda aos jovens?

    Não valerá a pena estar a falar de obras em particular porque toda a música é boa. Sendo bem executada, claro. Muitas vezes confunde-se virtuosismo com tocar bem. Quantas vezes vemos músicos que tocam coisas relativamente fáceis e deleitam quem ouve? E quantas vezes vemos virtuosistas que tocam tudo e não sabe a nada?... Toda a música é boa quando bem interpretada.

  • Nunca perdeu o contacto com as Filarmónicas e continua a tocar com elas. Porquê?

    Tenho muito respeito pelas Bandas Filarmónicas. São o “alfobre” de músicos. São as responsáveis por grande parte da dinamização da cultura musical no nosso país. Muitas vezes fico surpreendido com os conhecimentos, em termos de repertório, que vejo em pessoas do Interior, que ficam para além das serras... Se não fossem as Bandas Filarmónicas não conheciam esse repertório, de certeza. É muito fácil dizer que se respeitam as Bandas Filarmónicas, mas a maior demonstração de respeito é a colaboração que se lhe pode prestar. É nessa perspectiva que eu estou ao lado das Filarmónicas, agora e sempre. Não é factor económico o mais importante. Não me interessa se a Banda tem maior o menor qualidade no momento. Interessam-me a qualidade dos projectos que existem, a sua consistência, a sua continuidade e o ambiente social e cultural dessa Banda, como é o caso da Banda Musical S. Martinho de Fajões (Oliveira de Azeméis).

  • Se o factor económico não é o mais importante, por que não haveria de mudar para outra que lhe apresente projectos de maior envergadura?

    Neste momento sinto-me muito bem a colaborar com a Banda de São Martinho de Fajões. Não tenho qualquer intenção de mudar. Tem um bom projecto, tem uma boa equipe, tem uma escola a funcionar bem, são pessoas de bem, tratam-me com muita atenção e na Banda está a operar-se um franco progresso. Arrisquei de início, apesar da Banda ser bastante modesta, mas agora verifico que os frutos da minha acção, das minhas linhas de orientação estão a dar resultado. O público adere às audições da Banda e da Escola de Musica em massa. Este projecto da Banda de Fajões é muito, muito interessante. Vocês verão no futuro o que vai ser esta Banda. Se tanta coisa se transformou em cinco anos por influência de uma pessoa e se essa pessoa sou eu, que mais posso desejar desta Banda? Sinto-me bem e estou lá com muito agrado.

  • Acha que temos bons maestros nas Bandas Filarmónicas?

    Para ser franco, muito franco, acho que a quantidade de maestros, considerados bons nas Filarmónicas cabem na palma das nossas mãos. Considero que muitos maestros são, e desculpem-me a franqueza, autênticos oportunistas. Muitos maestros exploram e empenham até à ponta dos dedos as direcções das Bandas só para beneficiar a sua imagem, em convidar músicos profissionais. Não a imagem da Banda, mas sim a deles. Em vez de activar as escolas, criando bases sólidas para o futuro, recorrem a subterfúgios para se protegerem e não à Banda. Os bons maestros não são “interesseiros”, são Artistas e vêem a Arte pela Arte e não pelo dinheiro ou pela imagem deles próprios.

  • Que acha dos novos Compositores para Bandas, como Carlos Marques, Afonso Alves, Luís Cardoso e outros?

    Conheço-os. Acho que ser compositor em Portugal é um acto de coragem. São novas ideias musicais. São necessárias. É preciso que existam novos compositores. São precisas novidades. Há que mudar. São bem vindos estes compositores. Os Maestros é que se retraem com as novidades porque não as sabem introduzir. Preferem patinar no que já está no ouvido, o que lhes facilita o trabalho, sob a ideia que “aquilo é que é bom.

  • O que acha do site bandasfilarmonicas.com?

    Acho que é vantajosíssimo para o meio Filarmónico. Serve para as pessoas se aproximarem e tomarem conhecimento de tudo o que os rodeia no âmbito da Música Filarmónica, ex-libris musical deste país. Creio que este site é um caso sério na música. É de louvar e de desenvolver cada vez mais.

  • A administração do site agradece muito a sua gentileza e a sua disponibilidade em ter-nos concedido esta entrevista, aguardada ansiosamente por muitos jovens que o têm por referência, e por muita gente ligada à musica que tem ouvido falar de si mas só agora terão oportunidade de o conhecer de verdade.

    Eu é que agradeço desde já o convite que me fizeram e estou disponível para o que precisarem.