Orientações para o estudo das obras do Concerto BF (Feira)
Enviado: 16 fev 2006, 13:11
Cumprimentos colegas
A razão de ter aberto este tópico é a necessidade de vos proporcionar informações que julgo serem pertinentes sobre o repertório para dia 25 de Fevereiro.
Como sabem, a Música é só uma, mas a forma de a realizar não. Para cada um dos temas a interpretar é necessária uma postura musical diferente, porque também cada tema tem a sua personalidade. Sendo assim, peço a vossa atenção para o que a seguir exponho:
- DOM FAFE
É a estreia do colega Maurício Costa nestas vias da Banda Fórum. Sendo uma marcha com uma instrumentação envolvente, deve ser interpretada com vigor. Recomendo um estudo baseado no rigor rítmico, com grande sobriedade sonora principalmente nos trompetes e trombones. As madeiras devem ter especial atenção à dinâmica do tema inicial e do trio.
- MORNAS E COLADERAS
Levei 3 meses a estudar as características da música cabo-verdiana antes de escrever esta obra. Escreve-la demorou uma semana. Quero com isto dizer que o tipo de linguagem a utilizar é muito próprio e pouco usual. Como acontece com toda a música intimamente ligada à vivência dos povos, conotada com o trabalho o divertimento e a religião, também nesta obra pretendo exprimir sensações relacionados com o sentimento cabo-verdiano.
Passo a referir alguns conceitos que ajudarão ao estudo a desenvolver:
a) No 1º and. Allegro não articular com rigidez as notas, embora seja necessário destacar muito bem cada um dos sons, dando a noção de movimento de forma natural, como um caminhar gracioso e despreocupado.
b) No 2º and. Moderato, entenda-se uma canção de trabalho. Atenção especial para a secção rítmica, onde se deve encontrar vigor com intensidade moderada. Estando a melodia exposta principalmente nos trombones, pretendem-se sons destacados, não sendo importante a igualdade de intensidade entre eles.
c) A partir do comp. 133 acontece a parte mais expressiva da obra, com a trompa a apresentar o tema. É a MORNA, com o seu carácter triste, melancólico, onde as frases musicais devem ser encaradas como um legato contínuo. O solo de clarinete terá de traduzir aqueles sentimentos, com sonoridade não muito cuidada nem muito académica, pois não devemos esquecer que à outras realidades na música.
d) O Andantino no comp.187 aparece como complemento, traduzindo religiosidade. Deve existir contraste entre as linhas melódicas e todo o background, as primeiras ligadas e melancólicas e o segundo destacado, vigoroso mas pouco intenso.
e) Por ultimo, a partir do comp. 224 Allegro, é a festa. Os elementos musicais vão cada qual por sua vez criando a amálgama musical, como quando os convidados vão chegando para uma festa, culminando num tutti descontraído alegre e envolvente. Quanto à dinâmica, refiro especialmente as acentuações indicadas, que devem ser respeitadas integralmente. É o momento com mais intensidade sonora da obra. Power to the trombones. Mighty Horns. Trumpets on fire.
Gostaria de não ver os colegas em posição estática ou petrificada durante a interpretação desta obra, pois toda ela representa emoções contrastantes e diversidades rítmicas que nada têm a ver com estátuas.
Para a percussão, que no seu conjunto não é nada fácil, apenas posso sugerir que para além do que está escrito usem a vossa criatividade. Não é possível escrever tudo o que se quer, e muito menos o que se sente. No entanto, um profundo conhecimento da pauta facilita o enquadramento no conjunto. Por isso, colegas, ao trabalho.
- FADOS “FOI DEUS” E “RUA DO CAPELÃO”
Inicialmente instrumentados para banda, necessitaremos de proceder a algumas alterações, sendo uma delas a opção de tacet. NÃO SE ESQUEÇAM DE LEVAR UM LÁPIS PARA O ENSAIO. Quanto à dinâmica, e porque teremos a voz da Sílvia, o estudo deve ser orientado para intensidades fracas. No entanto, e aqui é que reside a dificuldade, a intenção e o espírito do tema têm que se manter.
- FADO “VENTOS DE ESPERANÇA”
Escrito apenas para octeto, a sua interpretação deverá ser entendida como um coral. Os instrumentos são vozes que acompanham a voz. Penso que será um bom exercício para o vibrato. A articulação desejável é muito aproximada à forma clássica, mas admite-se alguma liberdade para a flauta, o fagote e a tuba. A razão da escolha desta panóplia de instrumentos é o seu timbre rico e também a minha predilecção pela música celta, que apesar de pouco ou nada ter a ver com o fado possui a mística necessária para a exultação de sentimentos que o Fado encerra. Por outro lado, a qualidade tímbrica da voz da Sílvia Magalhães e a forma como a coloca, sugeriu-me logo de inicio recorrer a determinados instrumentos. Enfim, colegas, esforcem-se por imitarem a voz humana.
- CORO DOS ESCRAVOS
Sendo Verdi, está tudo dito. Nada de exageros, entendimento rítmico, clareza nas madeiras, subordinação à voz é o que vos peço durante a parceria coral. A introdução instrumental é ad libitum de forma contida e perceptibilidade harmónica. A flauta deverá ser decidida e autoritária na sua intervenção.
- CANTICORUM JUBILO
Outra peça coral que reunirá o barroco e o rock. Começando em forma de quarteto barroco, os metais devem ser incisivos e sóbrios. Um ritmo de 8 beats na percussão e um desenho bem marcado nas tubas e trombones transforma o conteúdo de toda a obra em esfusiante contraste. Mais uma vez cuidado com as acentuações, movimentos sincopados, não proporcionem demasiado valor às figuras.
- A CIDADE
Mais uma vez o Antero Ávila brinda-nos com uma composição que reflecte o seu espírito jovial. Deverá ser interpretada com precisão e leveza, num andamento algo apressado mas sem nervosismo. Os metais médio-graves deverão estar preparados para assegurar movimentos rápidos.
Enfim, colegas, de momento não me ocorre muito mais do que aquilo que foi dito e não me quero tornar entediante.
A partir de agora disponibilizo-me para responder a questões que pretendam colocar, neste e só neste tópico.
Afonso Alves
Que a Música faça sempre parte das vossas vidas
A razão de ter aberto este tópico é a necessidade de vos proporcionar informações que julgo serem pertinentes sobre o repertório para dia 25 de Fevereiro.
Como sabem, a Música é só uma, mas a forma de a realizar não. Para cada um dos temas a interpretar é necessária uma postura musical diferente, porque também cada tema tem a sua personalidade. Sendo assim, peço a vossa atenção para o que a seguir exponho:
- DOM FAFE
É a estreia do colega Maurício Costa nestas vias da Banda Fórum. Sendo uma marcha com uma instrumentação envolvente, deve ser interpretada com vigor. Recomendo um estudo baseado no rigor rítmico, com grande sobriedade sonora principalmente nos trompetes e trombones. As madeiras devem ter especial atenção à dinâmica do tema inicial e do trio.
- MORNAS E COLADERAS
Levei 3 meses a estudar as características da música cabo-verdiana antes de escrever esta obra. Escreve-la demorou uma semana. Quero com isto dizer que o tipo de linguagem a utilizar é muito próprio e pouco usual. Como acontece com toda a música intimamente ligada à vivência dos povos, conotada com o trabalho o divertimento e a religião, também nesta obra pretendo exprimir sensações relacionados com o sentimento cabo-verdiano.
Passo a referir alguns conceitos que ajudarão ao estudo a desenvolver:
a) No 1º and. Allegro não articular com rigidez as notas, embora seja necessário destacar muito bem cada um dos sons, dando a noção de movimento de forma natural, como um caminhar gracioso e despreocupado.
b) No 2º and. Moderato, entenda-se uma canção de trabalho. Atenção especial para a secção rítmica, onde se deve encontrar vigor com intensidade moderada. Estando a melodia exposta principalmente nos trombones, pretendem-se sons destacados, não sendo importante a igualdade de intensidade entre eles.
c) A partir do comp. 133 acontece a parte mais expressiva da obra, com a trompa a apresentar o tema. É a MORNA, com o seu carácter triste, melancólico, onde as frases musicais devem ser encaradas como um legato contínuo. O solo de clarinete terá de traduzir aqueles sentimentos, com sonoridade não muito cuidada nem muito académica, pois não devemos esquecer que à outras realidades na música.
d) O Andantino no comp.187 aparece como complemento, traduzindo religiosidade. Deve existir contraste entre as linhas melódicas e todo o background, as primeiras ligadas e melancólicas e o segundo destacado, vigoroso mas pouco intenso.
e) Por ultimo, a partir do comp. 224 Allegro, é a festa. Os elementos musicais vão cada qual por sua vez criando a amálgama musical, como quando os convidados vão chegando para uma festa, culminando num tutti descontraído alegre e envolvente. Quanto à dinâmica, refiro especialmente as acentuações indicadas, que devem ser respeitadas integralmente. É o momento com mais intensidade sonora da obra. Power to the trombones. Mighty Horns. Trumpets on fire.
Gostaria de não ver os colegas em posição estática ou petrificada durante a interpretação desta obra, pois toda ela representa emoções contrastantes e diversidades rítmicas que nada têm a ver com estátuas.
Para a percussão, que no seu conjunto não é nada fácil, apenas posso sugerir que para além do que está escrito usem a vossa criatividade. Não é possível escrever tudo o que se quer, e muito menos o que se sente. No entanto, um profundo conhecimento da pauta facilita o enquadramento no conjunto. Por isso, colegas, ao trabalho.
- FADOS “FOI DEUS” E “RUA DO CAPELÃO”
Inicialmente instrumentados para banda, necessitaremos de proceder a algumas alterações, sendo uma delas a opção de tacet. NÃO SE ESQUEÇAM DE LEVAR UM LÁPIS PARA O ENSAIO. Quanto à dinâmica, e porque teremos a voz da Sílvia, o estudo deve ser orientado para intensidades fracas. No entanto, e aqui é que reside a dificuldade, a intenção e o espírito do tema têm que se manter.
- FADO “VENTOS DE ESPERANÇA”
Escrito apenas para octeto, a sua interpretação deverá ser entendida como um coral. Os instrumentos são vozes que acompanham a voz. Penso que será um bom exercício para o vibrato. A articulação desejável é muito aproximada à forma clássica, mas admite-se alguma liberdade para a flauta, o fagote e a tuba. A razão da escolha desta panóplia de instrumentos é o seu timbre rico e também a minha predilecção pela música celta, que apesar de pouco ou nada ter a ver com o fado possui a mística necessária para a exultação de sentimentos que o Fado encerra. Por outro lado, a qualidade tímbrica da voz da Sílvia Magalhães e a forma como a coloca, sugeriu-me logo de inicio recorrer a determinados instrumentos. Enfim, colegas, esforcem-se por imitarem a voz humana.
- CORO DOS ESCRAVOS
Sendo Verdi, está tudo dito. Nada de exageros, entendimento rítmico, clareza nas madeiras, subordinação à voz é o que vos peço durante a parceria coral. A introdução instrumental é ad libitum de forma contida e perceptibilidade harmónica. A flauta deverá ser decidida e autoritária na sua intervenção.
- CANTICORUM JUBILO
Outra peça coral que reunirá o barroco e o rock. Começando em forma de quarteto barroco, os metais devem ser incisivos e sóbrios. Um ritmo de 8 beats na percussão e um desenho bem marcado nas tubas e trombones transforma o conteúdo de toda a obra em esfusiante contraste. Mais uma vez cuidado com as acentuações, movimentos sincopados, não proporcionem demasiado valor às figuras.
- A CIDADE
Mais uma vez o Antero Ávila brinda-nos com uma composição que reflecte o seu espírito jovial. Deverá ser interpretada com precisão e leveza, num andamento algo apressado mas sem nervosismo. Os metais médio-graves deverão estar preparados para assegurar movimentos rápidos.
Enfim, colegas, de momento não me ocorre muito mais do que aquilo que foi dito e não me quero tornar entediante.
A partir de agora disponibilizo-me para responder a questões que pretendam colocar, neste e só neste tópico.
Afonso Alves
Que a Música faça sempre parte das vossas vidas