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19 de Setembro, 2019

António Saiote

Data da entrevista: 16 de Julho de 2005


  • Pode-se afirmar que existe uma escola de clarinete em Portugal?

    A noção de escola existia à 30 anos. Hoje há toda uma contextualização diferente. Existiu uma escola francesa que se manteve até à segunda guerra mundial. Contudo, o facto de alguns músicos franceses serem destacados para os EUA em comissão de serviço, durante a guerra, deu origem à escola americana. Por exemplo, nessa altura haviam 20 orquestras nos Estados Unidos, hoje existem 2000. Actualmente com os meios de comunicação existentes, a informação é instantânea e tudo se passa muito rápido. Assim a fronteira que definiria as escolas está praticamente diluída. O que eu acho, na pior das hipóteses é que há hoje em Portugal, no mínimo, uma dezena de clarinetistas do melhor a nível mundial e que podem tocar em qualquer lado sem receio de qualquer espécie. Se querem dizer que por esse facto existe uma escola em Portugal…. Há muita gente em Portugal a tocar muito bem. Ainda hoje comentei com a Buffet Crampon, que vão estar 6 portugueses no congresso mundial no Japão. Fui o primeiro, em 1992 na Bélgica, a ir a esse congresso e passados 13 anos, já vão 6 portugueses. Também na meia-final do concurso da associação internacional do clarinete vão estar 4 portugueses e todos do Porto. É impressionante! Excede todas as minhas expectativas.

  • E qual é o papel do professor Saiote nesta “Escola”?

    Ainda esta semana estava a comentar com o maestro Osvaldo Ferreira que fui escolhido para a orquestra mundial com Jorge Gonçalves (violinista). Tinha, na altura, 17 anos e os chefes militares disputavam-me. Todos me queriam na sua banda. Diziam que eu haveria de ser o chefe. Fui escolhido para a orquestra mundial, que era a grande orquestra de jovens na altura e realizou concertos no Japão e na Coreia. Ainda não havia a orquestra da C.E.E. Quando lá cheguei só haviam dois músicos sem metrónomo nem afinador: éramos nós, os portugueses. Foi o meu primeiro choque. Em Portugal pensava-se que só usava afinador quem não tinha ouvido e só usava metrónomo quem não tinha ritmo. Pensei logo que havia uma história muito mal contada sobre a utilização do metrónomo e do afinador em Portugal. Na orquestra mundial, os ensaios, as aulas e o tempo de estudo somavam mais de 12 horas por dia de trabalho. Entretanto, antes de ir à orquestra mundial fui comprar os meus primeiros clarinetes a Paris. Usavam-se na altura os célebres 10S da Selmer. Antigamente ir a França comprar os instrumentos era mais económico, o que hoje não se justifica. Temos, em Portugal, os preços mais económicos da Europa. Quando cheguei a Paris vi miúdos que tocavam espectacularmente bem, obras que cá os professores diziam que só se tocava quando se fosse velho. Eram consideradas dificílimas. No Japão foi a mesma coisa. Ora, como tudo isto se passou logo após o 25 de Abril, o facto denotava que tínhamos cá tremenda falta de informação. Logo que regressei, a minha intenção foi a de criar uma escola nacional de clarinete. Não com o objectivo de me promover ou de ganhar mais; queria mesmo criar escola porque havia muita gente a tocar bem e era só subir a fasquia.

  • Apesar da diluição da fronteira das escolas existem sempre algumas influências. Que diferenças existem entre a escola Francesa e a Portuguesa que o Prof. Saiote ajudou a implementar?

    Bem, temos por exemplo o caso do Luís Silva que sempre tocou de uma forma que tem mais a ver com a escola Austríaca e por outro lado, como exemplo também, o Victor Pereira que toca um pouco mais escuro, mais alemão. No entanto ambos foram meus alunos. Não há dois sons iguais. Começa logo aí a diferenciação. Quando cheguei a Portugal, a ideia que prevalecia sobre o som, nos bons clarinetistas da altura (Lopes Fernandes, Moreira e também o Figueiredo, por exemplo) era o alemão apesar de os métodos serem franceses. Em Paris também haviam franceses a tocar como alemães. Eu fui o primeiro a chegar com a música contemporânea a Portugal por isso tive, como é natural, influências na mudança.

  • Digamos que hoje em dia já não há fundamentalismos em termos de escola. E em Espanha? Haverá uma escola espanhola?

    Em Espanha há a tradição que vem do Sec. XIX, que nós não temos. Existir escola não se poderá dizer. Há sim formas de tocar. O mesmo acontece, por exemplo, com os Ingleses. São formas individuais e não formas nacionais.

  • Significa então que, na verdade, não há uma escola nacionalista?

    Só as atrasadas. As que pararam no tempo. O perigo que há nisso é as pessoas quererem tocar todas da mesma maneira, quando deve ser uma coisa muito pessoal. Por mais que se queira, não é possível imitar com perfeição.

  • Prof. António Saiote, como se identifica um excelente clarinetista?

    Um excelente clarinetista é um excelente músico. Reconhece-se por apenas uma nota quando estamos perante um músico de excelência. A música é uma linguagem. Um excelente músico é aquele que nos toca...

  • E temos, em Portugal, clarinetistas excelentes que são excelentes músicos?

    Temos alguns clarinetistas que são excelentes músicos. Mas isso é igual em todo o mundo.

  • Que possibilidades de carreira tem um clarinetista licenciado pelo ESMAE ou por uma outra escola superior, em Portugal?

    Depende do tipo de carreira. O pianista e maestro do São Carlos – João Santos – dizia: “Apareçam os músicos que o trabalho aparece”. Reparem: quando fui estudar para Paris que possibilidade de carreira tinha eu? Quando estudava no conservatório de Lisboa o Marcos Romão convenceu-me a estudar violino. Tive quatro anos de violino. E haviam vários alunos que fizeram um 2º instrumento. Pode parecer que não mas é fundamental! As pessoas querem aprender o instrumento que preferem, e logo de seguida esperam uma carreira à saída da porta. Um 2º instrumento vem permitir possibilidades que muitas vezes não se conseguem com o 1º.

  • Mas acha que um excelente clarinetista, que termina o ensino superior, tem possibilidade de carreira ao nível de uma orquestra em Portugal?

    Acho que tem. O que quero dizer, por experiência própria, é que devemos apostar na nossa formação todo o esforço e tempo possível. Foi o que eu próprio fiz quando fui para o estrangeiro. Quando cheguei tinha o S. Carlos à espera. Diziam que não abriam vagas mas a verdade é que abriram para mim. Mais tarde abriu uma nova vaga e quando eu saí abriu uma quarta! Depois vieram mais orquestras e ainda hoje, se as pessoas quiserem, têm coisas para fazer. Não têm é carreira; porque isto não é tropa! O problema é que cá em Portugal as pessoas estão à espera de um emprego e só depois é que se vão empenhar nele. Colocam as coisas ao contrário! Há dias disse a um aluno que se quisessem juntar 70 jovens para trabalhar e formar uma orquestra, num espaço de seis meses a um ano, sem ganharem dinheiro, eu faria com eles uma orquestra do melhor na Europa! Eu encabeçava o projecto sem ganhar dinheiro. E depois de o ter apresentado, com a orquestra montada e com provas dadas, veríamos se os apoios apareciam ou não!...

  • O Prof. António Saiote aposta, sem ganhar dinheiro, na formação de uma orquestra de jovens, se eles se predispuserem para tal, e garante que fará uma excelente orquestra. Mas acha que esse projecto seria viável? Conseguiria motivar os jovens?

    Sem dúvida alguma. Eu aposto sem ganhar um tostão, no primeiro ano. Mas eles não querem! Preferem fazer o “gancho”. O problema do português sempre foi o “gancho”. Em Lisboa, na festa da música, esteve uma orquestra de Basileia que era excelente e que começou precisamente desta forma. Os jovens que saíam das escolas, começaram a tocar juntos numa aposta de qualidade e sem qualquer remuneração. Hoje são eles próprios que escolhem o seu maestro. Ainda é tudo malta jovem! …

  • Acha que nas bandas filarmónicas o clarinete está a ser devidamente rentabilizado?

    Para ser muito sincero, o que vejo na maior parte das bandas é muita negligência e mau material, apesar de saber que não é por falta de dinheiro. Chegam alunos à escola superior com instrumentos em péssimas condições, que só quando estão “escavacados” é que vão arranjar. Instrumentos esses que os alunos nem sequer os pagaram! Em relação ao investimento acho que estão muito mal estruturadas. Vejo-as a tocar, mas em relação ao produto final...nem por isso. Há Bandas com défice de Clarinetes e excesso de metais. Outras que apostam claramente na força. Há muitas lacunas…

  • Considerando que temos mais de 8000 pessoas a tocar clarinete nas Bandas Filarmónicas do nosso país, o que se poderia fazer para que o meio clarinetístico, ao nível filarmónico, e não só, evoluísse?

    Formação! Era necessário que existisse maior investimento, até dos próprios músicos, na formação. Já que as bandas ainda investem muito pouco nesta área, terão de ser os músicos a fazê-lo. Há bandas que não promovem uma acção de formação durante um ano inteiro, seja em que instrumento for. Há alunos meus que são instrumentistas de luxo e que uma vez de quando em quando podiam prestar-se a esse tipo de apoio formativo. Mas ninguém o solicita!...

  • Uma das instituições públicas que tem por obrigação prestar apoio formativo às bandas filarmónicas é o INATEL. Nunca contactaram o Prof. Saiote para colaborar nesse âmbito, concretamente na área dos clarinetes, uma vez que se trata do instrumento que existe em maior quantidade nas bandas e talvez por isso, o mais carenciado em termos de apoio formativo?

    Nunca me contactaram, e nunca contactaram nenhum aluno meu! É sintomático! Vejam: este ano vão quatro alunos meus à meia-final do concurso mundial de clarinete. Nos três últimos anos houve um primeiro prémio e dois segundos. Mesmo assim nunca nenhum aluno meu foi contactado para prestar apoio ao INATEL.

  • Está a dizer-nos que apesar dos seus alunos pertencerem aos mais elevados patamares de qualidade artística, nunca foram contactados para prestar apoio formativo no INATEL. Porque será?

    Creio que é preciso que não venham trazer a luz, porque a luz pode cegar muita gente…

  • Que opinião tem sobre o INATEL relativamente ao trabalho que desenvolvem com as filarmónicas?

    Infelizmente o pior possível. Não cabe a mim ser simpático com o INATEL e calha bem esta entrevista porque, como sabem, morreu Álvaro Cunhal, Vasco Gonçalves e Eugénio de Andrade. Isto vem-me à cabeça dado que ontem, enquanto estava a ver a RTP Memória, vi a célebre entrevista a Mário Soares e a Álvaro Cunhal e estava justamente a lembrar-me disso. Era uma história que eu gostava que os jovens lessem porque sabem muito pouco sobre o período anterior ao 25 de Abril. A primeira vez que fui escolhido para frequentar um curso no INATEL foi em 1973. Tocava na banda do Samouco, com Francisco Taneco e recebi uma carta em casa do INATEL, a informar que o curso de formação começava no dia 1 de Outubro e acabava no dia 7 do mesmo mês. Estudava, na altura, no Liceu Camões e as aulas começavam no dia um. Para quem faltasse às aulas do liceu uma semana, o ano terminaria aí. E mesmo hoje também é assim. O meu pai telefonou para a INATEL a explicar a situação, para ver se era possível alterar alguma coisa e a resposta foi redondamente um não. Não havia nada a fazer. Chegámos lá no primeiro dia e o meu pai armou uma confusão sobre o assunto. Sabem o que lhe disseram? Disseram-lhe que o curso era para operários, não para músicos que estavam no liceu! Era assim o INATEL antes do 25 de Abril. Eu bem escrevi uma carta ao Diário Popular que terminava assim: - Será que é necessário ser analfabeto para ser músico em Portugal? Foi toda cortada. Tenho-a guardada em casa. Era uma vergonha na altura.

  • O que é, e como se identifica num jovem, o talento?

    O talento liberta e origina afectos e emoções. O talento leva a que uma pessoa se transcenda, que entre noutra dimensão.

  • Mas em termos práticos como se identifica um talentoso?

    Tenho alguma parcimónia em falar de talento. Há pessoas com muito talento e outras com muitas capacidades. E conheço pessoas com imensas capacidades sem talento! Tocam muito bem o instrumento, são capazes de o dominar, mas sem talento. Há muita gente sem talento que pode muito bem ser 1º clarinete numa orquestra de grande nível. O problema está no recital, que já não é bem assim. Mas podem ser excelentes músicos de orquestra. Trabalhei com um maestro Alemão, no S. Carlos, que dizia: — Quando vou dirigir uma orquestra reconheço facilmente quem são os músicos que fazem música de câmara e os que não a fazem. O músico com talento reconhece-se. Por exemplo: O Lopes Fernandes (ex-clarinetista do S.Carlos) tinha um feitio muito especial. E era muito introvertido. No entanto, por vezes tocava apenas uma nota e os colegas voltavam-se! … Enquanto outros tocavam tudo e ninguém lhes ligava!

  • Poderá dizer-se que se tem ou não talento?!..

    Creio que para um professor a coisa mais frustrante que há, é a questão do talento, relativamente aos alunos. É que eu não posso dar talento a ninguém!!.. Há tantos alunos que querem participar em concursos porque tocam muito bem determinadas obras!... A questão é que para interpretar determinados compositores não têm qualquer hipótese! Falta-lhe o talento… apesar de serem extremamente competentes!

  • Terá a mesma possibilidade, um jovem de vinte anos, de desenvolver o seu talento, que entretanto se verificou ou se pensa existir, que um adolescente de 15 anos?

    Os que têm talento podem nascer no meio do deserto que assim que tiverem contacto com o instrumento manifestam-se. Mesmo sem professor nenhum. É só passar-lhes a informação. Agora, em termos de formação, é mais fácil moldar um jovem adolescente que um adulto maduro. Mas quando se tem talento em qualquer altura se desenvolve. Tive um aluno que apareceu a tocar muito mal. Mas detectei-lhe talento. Quando concorreu à escola, fez uma prova que foi a 2ª melhor de todas!

  • O Prof. António Saiote considera-se talentoso?

    Eu pessoalmente farto-me de trabalhar. Há muita gente que me considera talentoso. Mas eu apenas acho que tenho alguma capacidade para fazer música. E tenho muita autoconfiança.

  • E um líder, o que é?

    Aquele que não se impõe. Aquele que aparece naturalmente. O verdadeiro líder é aceite e respeitado com toda a naturalidade.

  • O instrumento como objecto de aprendizagem A qualidade do instrumento é fundamental para uma boa aprendizagem?

    É fundamental. Sobretudo é necessário saber eleger o instrumento adequado. Vejo muitas vezes miúdos com instrumentos profissionais, totalmente desadequados às suas capacidades. Ou seja: mal empregues! Vejo miúdos com instrumentos demasiado grandes para eles, que lhes provocam tendinites, que ficam com as mãos estranhas, com os dedos todos tortos que nunca mais desenvolvem, etc.… Apesar dos miúdos terem acesso a toda a informação possível através da Internet, livros, vídeos etc, etc, isso, só por si, não é conhecimento! Precisam de ter a capacidade de processar a informação. Ter instrumentos do melhor que há e dinheiro para os comprar, mas sem conhecimentos para os seleccionar como parte de si próprios e saber utilizar devidamente, de que serve?...

  • Recomenda algum modelo em particular para a iniciação ou para os seus alunos do nível superior?

    Eu usei o Prestige e agora uso o Tosca da Buffet. Mas cada um de nós tem de ter o instrumento adequado a si próprio! Por exemplo: eu não consigo tocar com o “Vintage”! No entanto para o Tó Rosa e para a Iva são os modelos mais adequados! Cada caso é um caso na escolha do clarinete.

  • António Saiote – o Maestro Em que momento da sua carreira decidiu dedicar-se à direcção de Orquestra? Quando foi a primeira vez que dirigiu?

    Dirigi pela primeira vez aos 14 anos a Banda do Samouco, em Vouzela, e fiquei mordido pelo bichinho…

  • Conte-nos esse episódio!

    O maestro da Banda era o Jorge Taneco que como trompetista foi o melhor som de Trompete que alguma vez ouvi na minha vida. Para além de dirigir, como era famoso como solista de Trompete, tinha sempre de tocar também. Um dia em Vouzela, porque o adjunto não pode estar, avancei eu a seu convite e dirigi então pela primeira vez, logo o maior Solista que havia na época. Correu tudo muito bem e foi esse o meu primeiro contacto com a direcção.

  • De qualquer forma, apesar desse episódio que o marcou fortemente em termos de direcção, preferiu dedicar-se ao Clarinete?

    Em 1982, em Munique, eu estava no círculo interior do Celibidache (um dos melhores maestros e pedagogos internacionais), aquele em que toda a gente, de toda a parte do mundo, daria tudo para ali estar. Eu estava e dispensei tudo para vir para o meu país. Ou seja, tinha o bilhete da lotaria na mão e “rasguei-o” para vir para Portugal e fazer algo pelo meu país e pelo clarinete! Ainda bem que me fazem esta pergunta porque muita gente pensa que “agora que se tornou famoso é que vai aproveitar para dirigir” mas eu separo as coisas! Nunca foi isso que esteve em causa antes pelo contrário. Eu deixei a direcção de lado por causa do clarinete.

  • E quando decidiu retomar a direcção?

    Mais tarde, depois do primeiro episódio, dirigi duas obras do Jorge Peixinho no grupo de música contemporânea, dirigi a sinfónica juvenil nas ruínas do Carmo…

  • Quais os requisitos para se ser um bom maestro?

    Um dia perguntei ao maestro Silva Pereira o que era necessário para se ser maestro? Ele respondeu-me: — Saiote há apenas duas condições indispensáveis. Ser Músico e ser pedagogo. Eu acho que o Silva Pereira estava correcto. É efectivamente necessário ser-se músico, no verdadeiro sentido da palavra, e ter capacidades pedagógicas. Quanto ao resto tudo se aprende. Se não se cumprem estes dois requisitos, o indivíduo pode estudar o que quiser que de nada lhe valerá. Só para terminar esta questão: Quando decidi evoluir na direcção, foi a primeira vez na vida que não tive apoio da família. Diziam-me que estava tão bem no clarinete! … Vais agora sujeitar-te ás críticas! …

  • Que opinião tem o Prof. Saiote sobre o Maestro Silva Pereira?

    Pouca gente se lembrará que o maestro Silva Pereira era o concertino da orquestra da RDP cujo maestro era o Pedro de Freitas Branco. Todos os seus conhecimentos são de grande valia. É um excelente maestro.

  • Dirigir Banda e dirigir Orquestra é a mesma coisa?

    Eu dirijo da mesma maneira e peço quase as mesmas coisas.

  • Quer dizer que, a dirigir Banda, “pede” as mesmas “coisas” aos clarinetes que aos violinos?

    Quase. Dou muitas vezes exemplos dos instrumentos de corda. Mas os objectivos de interpretação são os mesmos.

  • Onde se poderá aprender direcção em Portugal?

    A direcção não se aprende, dizem os grandes maestros! A pessoa nasce ou não para a direcção. É um pouco pior que o instrumentista. Um maestro que seja só competente não é suficiente. É necessário ter orquestra, para poder trabalhar, qualidades e capacidades musicais inatas. Um maestro, para se fazer, no mínimo necessita do apoio de outro maestro que dirija e que trabalhe com ele a direcção. No mínimo.

  • Os convites que lhe são endereçados para dirigir, são programados a curto, médio, ou longo prazo?

    Por exemplo, para 2006, dia 9 de Junho, em Madrid, – Auditório Nacional de Madrid – já fui convidado para dirigir no último concerto da temporada, a 5ª Sinfonia de Beethoven….

  • Na sua opinião, como temos 800 Bandas Filarmónicas em Portugal, como poderíamos formar mais de 800 maestros?

    Eu fiz alguns cursos de direcção, que duravam dois fins-de-semana e houveram duas Bandas que aproveitaram: em Casal de Álvaro e em Pombal. Montei um programa novo em cada uma delas e é claro que para se fazer isso é necessário a humildade dos maestros para poderem aceitar um projecto novo. Foi o caso do Afonso Alves e do César em Pombal. Ambas as Bandas e maestros saíram mais enriquecidos.

  • O Prof. Saiote diz-nos que consegue, em apenas dois fins-de-semana, montar um programa novo numa Banda, capaz de ser apresentado em qualquer concerto?

    Consigo. Os músicos têm outra excitação pela novidade. Estou disponível se for necessário para desenvolver esse trabalho. Mas não aparecem os pedidos…

  • A única escola de direcção que temos no nosso país é na Metropolitana em Lisboa – ANSO. Isto é: Temos uma escola de direcção que forma maestros para, apenas, três Orquestras. Não acha, ou não faria muito sentido, termos uma Escola de Direcção de Banda, uma vez que o universo destas formações é incomparavelmente maior que o das orquestras?

    Eu sou de opinião que deveriam abrir mais cursos de direcção. Mas, também concordo que a abrirem deveriam continuar a ser de Orquestra. Pelo menos nos primeiros anos. Se forem só para Banda acho demasiado reduzido. Há que ser mais abrangente. Mas defendo que as pessoas que frequentam esse curso deveriam ter uma formação completa. Acho que, como há carência, no presente momento, de escolas de direcção, fazer-se só para Banda é um desperdício…

  • Temos bons maestros em Portugal?

    Temos gente com muita capacidade. Se não temos mais é porque não lhes é exigido ou não se sentem motivados. Falando em Bandas, há as que pagam caro, ou caríssimo aos maestros e não lhes exigem que se actualizem, que inovem…

  • Em direcção o gesto é tudo?

    O melhor director é aquele que tem quase tudo no gesto. O maestro Arthur Nikish quase não falava e fez carreira em todo o mundo.

  • Que passos recomenda a um maestro, ou a uma Banda, para montar uma obra pela primeira vez?

    Depende do nível da Banda, do Maestro e do grau de dificuldade da Obra. No entanto acho que é necessário que os músicos tenham, o mais cedo possível, a noção do conjunto da obra. A obra, pela primeira vez, ainda que lentamente, deve ser levada do princípio ao fim. Deve tentar-se encontrar a satisfação, logo que possível, dos músicos, e depois trabalhar. A direcção tem muito a ver com a parte psicológica.

  • Fale-nos um pouco sobre repertório de qualidade e repertório difícil.

    Que tipo de dificuldade? Se o repertório for “pesado” é que é bom, é que é difícil!?...É uma questão de estética. Não se podem classificar as obras a esse nível só por serem fáceis ou difíceis tecnicamente. É fundamental aprender e entender estética. Quantos maestros estarão bem informados nesta área? Quantos procuram aprender algo sobre estética?... Há música bem feita e música mal feita. No nosso país, em muitas circunstâncias, faz-se música muito mal. Posso demonstrar em qualquer curso de Banda, eu e muita gente, por que é mal feita. Por exemplo: O “Arco-íris” é uma obra-prima em todos os sentidos. Há muita gente a fazê-la mas esquecem-se de um pormenor: É uma fantasia e se há obras que obedecem à lei da continuidade, esta é uma delas. Há uma relação de tempos dentro daquela peça que raramente são respeitados. Os maestros dizem que fazem aquilo “benzinho” mas, “benzinho” é mau!..

  • Por falar no “Arco-íris” acha que as nossas Banda podem tocar e interpretar bem essa fantasia de Duarte Pestana, em termos estéticos?..

    A Banda precisa de ter um maestro que seja músico…

  • Está a dizer-nos que os nossos maestros das Bandas Filarmónicas não são lá grande coisa em termos de estética musical?

    Pelo menos no “Arco-íris”, há muitos que são muito diferentes. E estou a incluir as Bandas Militares também. E posso demonstrar porquê. É que é necessário uma grande técnica para dirigir o “Arco-íris”! Sabem com quem aprendi a dirigir esta obra? Com o Maestro Caineta da Força Aérea.

  • Refere-se ao Cap.Caineta, ex-maestro da Banda da Força Aérea?

    Sim, o Agostinho Caineta, que ainda está vivo e bem vivo, e é um grande maestro. O Caineta é mais músico num dedo que muita gente da nossa praça no corpo todo!..Aprendi com ele a dirigir o Arco-íris. Mas também há muitos maestros de orquestra que não sabem dirigir bem a Rapsódia in Blue, de Gershwin. O “Arco-íris” é uma obra muito complexa. Está lá tudo. Mas é preciso descobrir…

  • Prof. António Saiote, o que é para si uma Banda Filarmónica?

    Para mim, basicamente é um sítio onde um jovem pode aprender a tocar um instrumento e um local onde se podem descobrir jovens com aptidões para a vida profissional. É um viveiro.

  • Que importância acha que tem a Banda Filarmónica no panorama musical português e já agora em termos sociais?

    A Banda é mais que uma Banda. Substitui a orquestra em locais onde dificilmente esta chegaria. Por outro lado, tem uma enorme importância na formação cívica dos jovens. Eu aprendi a vida cívica na Banda de Loures. Na Banda aprende-se disciplina, aprende-se a respeitar uma Bandeira, a respeitar horários e muitas outras coisas de grande utilidade para a formação pessoal do jovem. Um facto marcante que me recordo da juventude foi a festa mais fabulosa que me lembro: a do primeiro 1º de Maio. Estive lá com a Banda Filarmónica do Samouco. São coisas que me marcaram para o resto da vida, graças à Banda. A Banda Filarmónica é uma coisa muito séria. Por exemplo, o facto da Banda poder marchar confere-lhe uma versatilidade tal que se adapta a qualquer circunstância. É o maior veículo de propaganda que há. Quando ouço pessoas dizerem que uma Banda, porque é boa não toca a marchar, isso vai significar, se alguma vez vier a acontecer, não “um tiro no pé” mas “um tiro na cabeça”! Eu não sei o que algumas pessoas estão a pensar! Estão a abrir mão de uma coisa que talvez um dia queiram e depois terão de pagar para o fazer.

  • O Prof. António Saiote acha que as Bandas não têm evoluído ao longo destes últimos anos?

    Têm! Compreendam-me: O que quero dizer é que pode ser sempre mais.

  • Como músico habituado a conviver com a elite musical portuguesa, acha que as pessoas ligadas às orquestras, e à música ao mais alto nível, atribuem a importância às filarmónicas que elas realmente têm no panorama musical português, considerando que é no seu seio que nascem todos os sopros que existem no nosso meio musical?

    A elite musical não reage bem à questão das Bandas Filarmónicas. A mim já me disseram que era muito mau para a minha imagem dirigir os Templários e a Orquestra Invicta. O nosso país é extremamente preconceituoso por mentalidade. É um pouco como se diz: “dá uma farda a um porteiro e ele vai ser mais importante que o presidente da câmara”. Há músicos que chegam à orquestra e olham “de cima para baixo” em relação às Bandas, de onde vieram. Há pouco sentido de classe. Quem perde com isso são os músicos das orquestras! Se todas as Bandas tomarem uma atitude o país treme, porque as Bandas são um gigante adormecido. Neste momento, a música em Portugal ainda não existe como um todo. Esse é o problema. Quando existir, para todos os músicos, ficamos com uma força tremenda. O nosso problema é o individualismo.

  • Que futuro acha que tem as Bandas Filarmónicas?

    Tem o futuro que quiserem. Porém, têm de saber/aprender a enquadrar-se no seu meio social, artístico, cultural, politico, etc.

  • Gostaríamos que nos falasse um pouco no projecto dos Templários.

    Esse foi o projecto mais fabuloso que apareceu em Portugal.

  • E porque se ausentou?

    Sabem, é que em Portugal há muita coisa que muitas vezes é boa de mais para o que se pretende. Cresceu, quiçá, demasiado. Mas fizeram-se coisas maravilhosas…

  • Considera-se uma pessoa famosa Professor Saiote?

    Há muita gente que me considera… mas faço questão de ser sempre a mesma pessoa.

  • Como lida com a crítica?

    Guardo para mim. Se agrada muito bem. Se não agrada, procuro saber se é fundamentada ou não.

  • A crítica desfavorável fá-lo mudar de atitude?

    Não! Nem pensar.

  • Notabilizou-se como clarinetista e como maestro. Que projectos tem para o futuro?

    O Fernando Lapa dizia-me há dias que agora devia compor!!.. Não, para mim chega. Tenho imenso trabalho. Os meus pais ajudam-me muito, felizmente, mas mesmo assim preciso de muita disciplina. Estou com o meu doutoramento em curso e não é fácil acumular muita coisa mais.

  • Que opinião tem sobre a importância do site www.bandasfilarmonicas.com?

    É fundamental em termos de circulação de informação e de informação qualificada. Até pelas perguntas que me fizeram se verifica o potencial e a estrutura organizacional que tem o site. Espero que as pessoas reconheçam a importância deste vosso trabalho e aproveitem ao máximo a informação que disponibilizam. A vossa capacidade e o vosso empenho podem ajudar muito as Bandas Filarmónicas. Saibam elas aproveitar.

  • Professor António Saiote foi um privilégio entrevistá-lo para este portal ao dispor de todos os Filarmónicos. Muito obrigado pela sua presença e pelo tempo que nos dedicou.

    O prazer foi meu.