54 anos, 9º ano Escolaridade

Homem de princípios, de esmerada educação e de muito bom trato. Sempre com o sorriso nos lábios. Polivalência, é a definição que melhor caracteriza a sua actuação na banda da sua terra (Junqueira) desde 1974.
Ensinava na escola de música fundada por si, dirigia a banda, contratava as festas, contratava o transporte, contratava músicos para reforçar quando era necessário. Chegou a fazer mais de 40 festas, remuneradas, por ano. Nunca lhe faltaram serviços. Era e é respeitado por muitas comissões de festas no Minho por ser homem íntegro, humilde e disponível para tudo.
Deixou a Banda por questão de saúde. Teve de ser substituído, naturalmente, mas continua a ela ligado, a tocar, como o fazia antigamente, com o mesmo amor e dedicação de sempre.
Reconhecem os seus amigos da banda, muitos dos que ele ensinou e alguns que se tornaram profissionais, que a banda nunca teria atingido o nível de qualidade que tem, a estabilidade que encontrou, as infra-estruturas que conseguiu, se não fosse ele.
A Banda regimental
O meu pai gostava que eu fosse músico militar. Andou a informar-se sobre como seria possível entrar para uma banda do exército. Havia um indivíduo chamado Rocha que vinha tocar á Banda de Vale de Cambra, que era músico da Força Aérea, e foi ele que me preparou para concorrer à banda do Exército de Tomar. Ensinou-me as escalas e preparou-me para concorrer. Tinha então 19 anos quando entrei. Fui o primeiro músico militar de Junqueira da nova era. A Banda de Junqueira tinha 29 músicos. No ano em que entrei para a banda entraram juntamente comigo mais 9. Éramos 10 novos aprendizes. Então a banda ficou composta. Mas era modesta e continuou. Havia músicos que tocavam por ouvido. Não sabiam uma nota de música.

A escola de música
Em 1971 quem dirigia a banda era um maestro do Porto. Por vezes, dada a distância, o maestro não vinha e comecei eu a dar ensaio. Em 1974 fundei eu a escola da banda com a intenção de a fornecer com novos elementos. Até hoje, nunca mais a escola parou. Na altura a média etária era alta, haviam muitos músicos já de idade e a partir do momento em que fundei a escola o rejuvenescimento começou.
A regência da banda em 1978
Eu tinha propostas de outras bandas para ir tocar para lá e a direcção da minha banda na altura, antecipando que eu poderia sair, resolveu propôr-me para regente. Foram falar com o maestro ao Porto, por forma a que ele se dispensasse dos seus serviços para entrar eu. O maestro compreendeu e passei eu a assumir tudo: Escola de música e os ensaios como titular.
Polivalência
Em determinada altura, além de maestro eu era o “faz tudo”. Ensinava, dirigia a banda, contratava as festas, contratava o transporte, contratava músicos para reforçar quando era necessário. Cheguei a fazer mais de 40 festas, remuneradas, por ano. Nunca me faltaram serviços.
O Método para manter o entusiasmo na juventude
Usava diversos métodos. Principalmente tentava acarinha-los ao máximo. Organizava iniciativas de confraternização. Oferecia-lhe passeios, lanches etc. Além do gosto que tinham, estas iniciativas, motivavam-nos ainda mais. Uma vez fui com os jovens fazer um passeio ao Cristo Rei a Lisboa. Pedi à Câmara a carrinha e levei-os a passear. Combinei com o Daniel Almeida, músico da nossa banda que estava na banda da Guarda Fiscal em Lisboa, o restaurante e a ementa, “fêveras grelhadas”. Mas, como os pais dos miúdos não eram lá muito afortunados, havia pouco dinheiro, acertamos que as bebidas levaríamos nós. Só pagávamos as fêveras. Acertou-se tudo e lá fomos. Ora deu-nos para levar uns garrafões de vinho. Quando chegamos ao restaurante as fêveras ainda estavam por grelhar. Estava um terrível dia de calor e eles estavam cheios de sede e fome. Começaram a comer azeitonas e pão e a beber uns copos e a coisa animou. Aquilo é que foi um dia !..
Ficou inesquecível na vida de todos. Como não estavam habituados a beber uns copitos ficaram alegres e foi uma festa de arromba. Cantavam, riam …. Ora os miúdos com 10 e 12 anos numa peripécia destas foi para ficar para sempre na memória deles. Era assim que os mantinha por perto, com vontade de continuar e de aprender sempre mais. Hoje são homens de valor.
A nova sede
Num determinado momento resolvi meter-me ao caminho e conseguimos o terreno para a sede. Administramos a construção directamente. Com a colaboração dos músicos fizemos a sede da banda, que está á vista hoje. Tivemos alturas em que os trabalhadores a ajudar, músicos, eram 30 e 35 pessoas prontas para trabalhar. Para fazer tudo.
Porque dedicou tanta atenção à causa da Banda?
Nasceu comigo. Sempre tive amor à terra, nomeadamente à banda. Nasci na casa onde foi fundada. Já agora quem a fundou foi um familiar meu que era padre. Todo este empenho se deve ao facto de ter a música no sangue. Muitos dos meus alunos seguiram a carreira militar, para músicos. Incentivava-os a isso.
A interrupção na Regência
Em 1999 fui obrigado por motivo de saúde a deixar a regência da banda. Substituiu-me o meu filho, por decisão consensual da própria banda. Ninguém pôs qualquer objecção.
Professor na Academia
Fui o primeiro professor na academia de Vale de Cambra. As bandas aproveitaram muito bem o ensino da academia..
Da mesma forma as bandas foram úteis à academia de música.
Momentos difíceis
Casos de indisciplina e mau comportamento nos músicos, – acontece em todo o lado – levaram uma vez, à saída de sete elementos e todos bons. Aconteceu. Mas reorganizamos tudo de novo sem a banda sofrer muito. Ultrapassamos a crise.
Benfeitor da banda Flôr da Mocidade Junqueirense
Considero-me um benfeitor da Banda, mas a Banda não me deve nada. Fi-lo por amor á causa. A Banda não tem qualquer dívida comigo. Considero que defendi sempre os interesses da banda sem qualquer proveito para mim. Ainda hoje toco na banda com muito gosto, sob a batuta do meu filho. E como sabem dirijo outra por quem tenho também muita admiração e à qual dedico muito do meu tempo e dedicação. Mas a banda da minha terra faz parte de mim.
Rei das festas do minho. A que se deve isso?
Eu realmente criei no Minho fortes laços de amizade. As pessoas tinham e tem muita consideração por mim. Claro que isso tinha repercussões nos serviços da Banda. Isso deve-se, tão somente à minha simplicidade. Eu nunca me recusei a fazer nada do que me pediam as comissões de festa. Estive sempre disponível para tudo. Nunca me neguei a fazer nada. Procurei sempre o cumprimento de horários. As comissões estavam sempre à vontade comigo. Ainda hoje eu tenho amigos no Minho que me oferecem as suas casas para eu passar férias quando quiser em locais estratégicos.
Conseguia tantas festas porque ganhava pouco?
Tinhamos o nosso preço. Algumas vezes fui acusado de fazer contratos baratos. Mas confirmei, depois, mais que uma vez, que os que me acusavam ainda faziam mais barato.
As comissões de festas do Minho não querem as bandas apenas por serem de bom nível ou baratas. As comissões de festas querem as bandas submissas, disponíveis para fazer tudo: fazer a arruada, acompanhar os mordomos, tocar às portas de quem colabora com os festeiros, fazer a procissão, ser pontual, não recusar-se a ficar um pouco mais que a hora, fazer uma despedida de festa que chamasse à atenção etc. Não tenham dúvidas que as que se recusarem a fazer o que as comissões de festas pedem não tem muito futuro no Minho. É natural. Humildade, pontualidade e mostrar trabalho de cara alegre é regra para tudo. Até para a vida.
As despedidas, uma chave para sucesso
Tem-se verificado, no Minho e não só, que as despedidas assumem um papel cada vez mais importante na imagem de marca das bandas. Muitas vezes são até o momento da contratação para a próxima época. Há bandas que são contra isso. Outras que foram contra e agora fazem igual. Eu optei por ser colaborante com as comissões. Elas queriam que fizéssemos uma coisa bonita no fim da festa e nós passamos a fazer o que nos pediram. Numa palavra traduz-se tudo: Humildade e simplicidade. Saber compreender as comissões de festas. Nas despedidas com a Banda da Junqueira cheguei a emocionar muita gente ao ponto de algumas pessoas chorarem.
O que é para si uma banda filarmónica?
Um grupo de pessoas que tem muitas vantagens. Há pessoas que se não fosse a banda não saiam da terra. A juventude tem na banda uma forma de aprender alguma coisa sobre organização e disciplina. Considero a banda uma escola para a vida inteira. Um ambiente diferente. Um músico se não for disciplinado não pode fazer parte de uma banda nem de outra organização.
Alguma vêz expulsou alguém da banda?
Uma vez expulsei um rapaz de 13 anos, que me faltou ao respeito. No dia seguinte tinha a família á minha porta a pedir para o readmitir que ele se comportava melhor no futuro. Readmiti-o e realmente daí para o futuro o jovem teve sempre um comportamento exemplar. Serviu de exemplo para os outros e creio que foi útil para o próprio jovem.
Acha que uma banda é boa ou má em função do maestro?
O maestro tem muita influência. A capacidade da banda também tem a ver com a capacidade do maestro.
Há bandas que não funcionam bem e quando mudam o maestro a banda é outra. O maestro não faz milagres mas pode melhorar muito. Passou-se comigo na Junqueira, se eu não me dedicasse de alma e coração não conseguia nada.
Quantos anos deve um maestro permanecer numa banda?
10 anos no máximo. O maestro e a banda podem não dar mais no fim de 10 anos. A partir daí a manutenção é a única solução. A substituição é a solução para ambos. Porque a manutenção é a decadência.
Como vê as gravações, uma vez que tantas banda gravam hoje em dia?
A gravação é um registo que fica para a história. Mais tarde se avaliará se a banda fez bem ou mal o seu trabalho.
Considera a Banda da Junqueira uma boa Banda?
Se considerarmos a população da Junqueira em termos de habitantes, e a localização de Junqueira, muito afastada dos grandes centros, ter uma banda daquelas é motivo de orgulho. Considero, francamente, que temos uma excelente banda.
Agradecemos muito a sua colaboração
Bandasfilarmonicas.com

Alguns testemunhos de músicos e ex-alunos de Manuel Joaquim Almeida, que atestam a veracidade da informação que acima referimos:
O Presidente actual da Banda Musical “Flor da Mocidade Junqueirense”, João Carlos Fernandes Tavares – “ É meu dever reconhecer o excelente trabalho que o maestro M. J. Almeida desenvolveu ao longo de todos estes anos, conferindo mérito e renome à Banda Musical Junqueirense. Muito obrigado;
Fernando Lages, Trombone na Banda GNR do Porto – “ O M. J. Almeida é uma pessoa íntegra e com idoneidade indiscutível. Sacrificou muitas vezes a sua vida pessoal em prol dos outros. Foi com ele que comecei os meus estudos musicais. A ele o meu muito obrigado e bem haja..”
Daniel Almeida, Fliscorne na Banda da GNR do Porto – “Ofereceu-me o primeiro livro de solfejo, encorajou-me e preparou-me para a vida musical. Posso agradecer ao M. J. Almeida ter seguido a carreira de músico profissional. Muito obrigado.
Américo Russo, clarinete na banda da Força Aérea – O Maestro Manuel Joaquim, é uma pessoa que sempre pautou a sua vida pela procura de consensos. Homem afável, de grande bondade e disponibilidade para ajudar os outros. Hoje, como músicos, podemos agradecer em grande parte a ele pois sempre nos incentivou e ajudou em tudo o que pôde para que pudessemos atingir os nossos objectivos. Muito obrigado.