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O que é necessário para ser compositor?
Saber compôr e, sobretudo, arriscar compôr. Eu componho porque tenho necessidade de o fazer. Mesmo quando vou de férias, não consigo ausentar-me completamente da composição. Tenho, aliás, inveja de quem, durante as férias, se consegue alhear do seu trabalho. Eu não consigo. Mas tenho uma certa dificuldade em considerar-me compositor. Compôr, só há pouco tempo o comecei a fazer. O que fazia anteriormente eram, sobretudo, arranjos. Comecei por compôr marchas, que têm uma estrutura predefinida, e que, de certa forma, não têm grande dificuldade em fazer. Obras, só há pouco tempo.Para ser bom compositor basta saber compor?
Não, claro que não! É necessário criatividade.Porque é que as suas obras, normalmente, têm impacto logo na apresentação?
Tem a ver com diversas variantes e com a minha experiência em vários grupos. Na minha terra, Sever do Vouga, era o meu pai quem fazia os arranjos, semanalmente, para a missa. Tinha uma pequena orquestra. Eu sucedi ao meu pai e passei a ser eu a fazê-los. Essa foi a primeira experiência. Depois, a orquestra ligeira do exército, onde estive durante nove anos e para a qual fiz alguns arranjos – o maestro da orquestra à época (Ten. Cor. Reginaldo Neves) sempre me incitou a escrever - acabou por me proporcionar algumas excelentes experiências em termos de ritmo, de suporte, de textura, e influenciaram-me de tal forma que as minhas composições são, de certa forma, um reflexo dessas experiências. Talvez seja a aplicação destas características de arranjos para Big-Band nas bandas que surpreenda o público.O Objectivo quando compõe é criar impacto, ou é o prazer de criar?
As duas coisas e ainda um terceiro aspecto: da experimentação, de testar coisas novas, de fazer coisas diferentes. Por exemplo, o Português Cantado tem mais ou menos dois minutos em que metade da banda está em compasso composto e outra metade compasso simples, 2/4 e 6/8 e depois 6/4 e 2/2. É precisamente a experimentação que me fascina, que me desafia. Escrevo a obra, arquivo durante algumas semanas, um período de “quarentena” e então revejo, altero/corrijo e concluo. Escrevo pelo meu punho e só depois passo ao computador, para não cair na tentação de ouvir à medida que escrevo e corrigir logo. Por exemplo, a Cassiopeia estava pronta e quando passadas algumas semanas a ensaiei na Banda, resolvi alterar o último andamento radicalmente. Só ficou a melodia. Mas, normalmente, depois deste período de quarentena, não altero mais nada.Depreende-se então que a experiência que adquiriu na Orquestra Ligeira do Exercito, aplicada ás obras para Banda é o segredo do impacto no público?
Não foi só na orquestra ligeira do exército. Toquei também, durante um ano, na Salsa Latina e aí sim, aprendi, ritmicamente, mais durante esse período - em que a maior parte dos músicos que tocavam comigo eram cubanos, argentinos, etc., com um sentido rítmico fora de série - que nos anos todos que estudei música. Depois tratou-se de aproveitar de forma positiva todas estas experiências e, posteriormente, aplicá-las.Segundo sabemos, quem indicou a Cardoso & Conceição a sua capacidade para escrever foi o famoso trompetista Jorge Almeida. Lembra-se?
Durante o meu curso de sargentos na Banda do Exercito foi-me apresentado o Sr. Cardoso pelo Jorge Almeida. Realmente o Sr. Cardoso solicitou que fizesse uma Marcha que seria dedicada a um senhor (José Paiva) da Banda Marcial do Vale e assim foi. Fiz a marcha que se chama homenagem a José Paiva. Entretanto, no curso de Sargentos, uma das peças que toquei num dos exames fui eu que a escrevi. Uma peça para Sexteto de percussão e Trompete, que acabou por ser tocada apenas pelo trompetista. Contudo, fui muito mal tratado por causa disso. Disseram-me que a peça não tinha pés nem cabeça. Não me explicaram porquê. Fiquei espantado. Não me senti muito bem. Ainda estive para mudar, na peça, o nome do compositor, mas, para quê...Como é que reage ás criticas daqueles que não apreciam o seu trabalho?
Depende. Quando são construtivas aprecio muito e aprendo com elas. Quando são críticas gratuitas, sem honestidade, não aprecio como é evidente. Todos temos o direito, natural, de dizer que não gostamos. Mas já não temos o direito de dizer que não presta. É uma questão importantíssima porque quando se faz essa distinção é sinal que existe respeito pelo trabalho das pessoas que criam. Quando se diz que não presta é sinal que não se tem o mínimo de consideração pelo trabalho de quem escreve. Eu considero que não é preciso ser-se compositor para apreciar o trabalho dos compositores, mas, quando se critica, tem que haver uma formação sólida nessa área. Há muita gente a emitir opiniões sem sequer saber distinguir numa partitura um acorde maior de um menor. E, como é evidente mesmo em relação a outras áreas de actividade, criticar o trabalho dos compositores sem ter uma pontinha de autoridade para o fazer é obviamente característica de quem quer fazer-se importante, de quem busca apenas e só protagonismo. Não gostar tem a ver com o sentido estético de cada um e todos temos esse direito. As diferenças no que concerne ao gosto são aceitáveis e até enriquecedoras. Dizer gratuitamente que está mal ou que não presta é, nitidamente, falta de respeito pelo nosso trabalho.Escreve por dinheiro, por gosto, por desafio, por provocação, porque escreve?
Por todas essas coisas. Por dinheiro porque preciso de viver. A provocação desafia-me. Eu gosto de ser arrojado.Que tipo de incentivos teve quando começou a escrever?
A única empresa que me incentivou a escrever foi a empresa Cardoso & Conceição, a quem estou muito grato. Foi graças a Cardoso & Conceição que compositores jovens começaram a escrever e a terem alguma projecção. Antigamente o que se ouvia nas bandas era, e com todo o respeito que estas pessoas me merecem, Miguel de Oliveira, Ilídio Costa, Amílcar Morais, Alexandre Fonseca. Agora todas as Bandas tocam Afonso Alves, Luís Cardoso, Valdemar Sequeira, agora Alexandre Coelho e outros que escrevem muito bem. Temos a emergir uma nova geração de compositores.Sabemos que está a ser editado pela Molenaar. Digamos que se internacionalizou. Como surgiu essa relação?
Há pouco tempo enviei a uma editora holandesa algumas obras minhas para apreciação. Essa empresa não mostrou interesse nelas, mas recomendou-me à Molenaar. Entraram em contacto comigo, chegámos a acordo, e assim se cumpriu um sonho. As obras que maior interesse despertaram foram a rapsódia Português Cantado e Cassiopeia.Escreve preocupando-se com as dificuldades técnicas das Bandas, ou escreve para as Bandas do Mundo?
Escrevo tendo como referência a minha Banda - Amizade. Mas não é uma preocupação que esteja sempre presente. Escrevo o que tenho de escrever.Pensa que as Bandas portuguesas têm bom nível ou são apenas e só aquela meia dúzia de Bandas do norte do país que toda a gente conhece e são as mais caras?
Há muito mais que meia dúzia de Bandas com bom nível. E acho também que cada vez mais aparecem Bandas a tocar muito bem sem ser as tais tradicionais. Tem havido uma evolução enorme na maior parte das Bandas. Há bandas de bom nível quase em todo o país. Ainda há pouco tempo estive a tocar numa banda que há meia dúzia de anos quase não era conhecida e agora rivaliza com qualquer uma dessas tradicionais.Que pensa dos compositores portugueses, relativamente à sua forma de escrita?
Gosto muito de Amílcar Morais. Utiliza harmonias bastante arrojadas (sobretudo por serem, até ele as utilizar, pouco comuns nas peças para banda de compositores portugueses). Ilídio Costa tem estruturas interessantes, melodias bonitas, e marcou de forma indelével algumas gerações de filarmónicos. Do Afonso Alves, conheço o Il Maestro, que acho uma ideia esplêndida e é interessantíssima e que está muito bem conseguida. Mas ainda não conheço muito bem as obras do Afonso Alves. Do Luís Cardoso admiro sobretudo a Mandrágora que considero excelente (o que foi, com mérito, reconhecido pela atribuição do 1º prémio de composição no concurso de composição do INATEL). É uma das obras sobre as quais eu digo que tenho pena de não ter sido eu a escrever.Acha que as Bandas deviam prevenir orçamento para Partituras?
Sem dúvida. As partituras custam a compôr como custa a fazer qualquer produto! Não são feitas em série! As bandas, os músicos ou os maestros também não querem que se lhes pague o seu trabalho? Assim como se previnem orçamentalmente quanto à compra de instrumentos o mesmo deveria ser quanto a partituras. Há músicos e maestros que ganham mais a tocar as minhas obras do que eu a compô-las. É frustrante para um compositor. É justo e perfeitamente legal que as bandas, músicos e maestros ganhem o salário que lhes é devido pelo seu trabalho. E os compositores? Não têm direito a ser compensados pelo seu trabalho, pelo seu contributo? Que seria das Bandas sem os compositores? Alguém faz ideia do tempo e do trabalho que leva compor uma obra? Usar o que é dos outros em proveito próprio, recorrendo a cópias pirata, é simplesmente inqualificável.Como é que se mentalizam as Bandas nesse sentido?
Não são só as Bandas a mentalizar. São os maestros fundamentalmente, e claro, também os directores. Há dias, em conversa com o presidente da Banda da Branca, Nuno Silva, ele disse que “na Banda da Branca não entra nenhuma obra que não seja adquirida oficialmente”. Essa mentalidade, essa atitude responsável e digna entrou por cima, pela direcção da Banda. É fantástico. Foi o presidente da instituição que incutiu isso na banda. Mas casos como este são raros. Os directores artísticos, os maestros, têm a maior quota de responsabilidade. São eles que devem fazer entender à direcção da Banda, caso esta não esteja ainda sensibilizada para o assunto, que as obras são propriedade de autores, passíveis de ter um custo como qualquer projecto. Não são apenas papel! Infelizmente a entidade fiscalizadora – Sociedade Portuguesa de Autores – promete que vai actuar, mas até ao momento nada fez. Vamos ver se um dia a SPA nos surpreende e promove uma acção de fiscalização durante as festas de verão.Causa-lhe algum incómodo saber que as suas obras podem ser interpretadas de forma diferente da ideia porque as criou?
Uma interpretação diferente não é uma obra nova. Dentro de determinados limites não me causa incómodo nenhum saber que um maestro interpreta uma obra minha diferente da minha própria interpretação. Acho até muito interessante.Gostaria de fazer alguma recomendação ás bandas ou aos maestros sobre a forma de interpretar as suas obras?
Não. Podem fazer como está escrito ou como entenderem, dentro dos parâmetros normais. Devem preparar as minhas obras como outras quaisquer.Está disponível para atender os maestros ou responsáveis artísticos, que lhe queiram colocar dúvidas ou esclarecer algum detalhe, relativamente ás suas obras?
Estou totalmente disponível para esclarecer todas as dúvidas que me queiram colocar. Tenho como principio não alterar as minhas obras depois do período de reflexão. Contudo há opiniões diferentes das minhas que são muito bem vindas. Algumas obras minhas carecem de alguma atenção ou têm algumas situações que devem ser acauteladas, por isso faço notas explicativas para execução. Por exemplo, no Português Cantado, há uma situação que estão os trombones e trompas sempre a tempo e os baixos e o bombo sempre a contra-tempo. Há outra situação, na mesma rapsódia, de um tema do Zeca Afonso, que pretendo muito lento, e para que quem ensaia não caia na tentação de fazer o ritmo original, fiz precisamente uma nota explicando essa minha intenção. Mas se alguém necessitar de alguma explicação ou pretender partilhar alguma sugestão sobre as minhas obras estou perfeitamente disponível para tal.Se presenciasse uma banda a executar alguma das suas obras, contrariando a interpretação que desejava e de forma muito diferente, dir-lhe-ia algo, faria alguma admoestação ao maestro?
Não sei. Talvez não. Não sou radical.Gostaríamos de saber a sua opinião sobre maestros. Temos bons maestros em Portugal?
Agora começamos a ter bons maestros de Banda em Portugal e cada vez mais. Nunca houve condições tão propícias para se aprender direcção de Banda. Temos tido muitos cursos de direcção, quer de maestros de orquestra (como os cursos da Banda Alvarense e da 12 de Abril) quer de Bandas Militares, como é o caso do Maj. Montezo, com quem trabalhei e que admiro imenso. Mas também porque as direcções da Bandas perderam o medo de convidar para maestros pessoas jovens, com vontade de aprender constantemente, de inovar, e, acima de tudo, com formação musical muito boa, como é necessário e útil.Acha que, assim como um executante, um maestro deve evoluir e aperfeiçoar-se constantemente?
Sem dúvida alguma. Um maestro, hoje, mais que nunca tem de estar a par de tudo o que diga respeito à função de direcção. A formação do maestro deve ser contínua e tem “muito pano para mangas”. Não só no âmbito da música propriamente dita. A psicologia e a sociologia são utilíssimas para quem está à frente de um grupo de pessoas de idades diferentes como é o caso de uma Banda Filarmónica. No aspecto técnico, saber analisar a partitura que tem pela frente em termos harmónicos, rítmicos, sentido de frase, onde deve pedir à Banda para respirar ou onde não deve respirar, etc., etc. Sem dúvida que não se sabendo não se fará trabalho útil. É da responsabilidade do maestro fornecer este tipo de indicações aos executantes.Significa que um maestro tem, de certa forma, também que ser compositor?
Não tem que ser necessariamente compositor, mas deve saber muito nessa área. Um maestro que se preze, claro. Ninguém sabe tudo mas com a devida formação aprende-se naturalmente.Das obras que as bandas do norte tocam, 1812, capricho italiano entre outras transcrições, acha que se mantêm actuais no contexto das bandas de hoje, ao nível da instrumentação?
Não. A maioria precisa de ser revista. Não são transcrições fiéis. Muitas estão muito mal e algumas instrumentações até são ridículas. Há imensas situações onde não há qualquer semelhança com o original.O que é para si uma filarmónica?
Um grupo de músicos que devem tocar o melhor possível. Um grupo de amigos. Devem fazer o melhor que conseguirem. É muito importante o bom ambiente, a confraternização e depois a música. E claro, fazê-la o melhor possível e com responsabilidade. É isso que penso e é assim que fazemos na minha Banda. Um bom ambiente proporciona sempre boas condições para fazer música.Relativamente à editora que o apoiou, que o promoveu e que agora o vê partir, tem algo a referir?
Sem qualquer tipo de exagero, se sou compositor devo à Cardoso & Conceição. Primeiro pelas encomendas que foi fazendo, depois porque me incentivou a fazer coisas diferentes e agora que me apoiou na partida. Mas muito mais que isso e de grande relevância é a relação da Cardoso & Conceição com as Bandas de Música. É muito próxima e colaborante.Que tem a dizer do site bandasfilarmonicas.com?
Muito útil ao meio musical. Fantástico, fazia falta, é informativo e o conteúdo é muito interessante. È pena que alguns utilizadores do fórum não o usem de forma culta e objectiva. Mas está a melhorar. Os músicos são pessoas inteligentes e estão a evoluir culturalmente como é desejável.Quais são os seus objectivos para o futuro?
Escrever, dar aulas, tocar e dirigir. E, sobretudo, evoluir. É tudo aquilo que sempre quis.Que recomendações faz a quem quer dedicar-se à composição?
Arrisquem. Não tenham medo. Se acreditarem no que fazem, filtrem as críticas de forma a evoluírem com elas e sigam o caminho desejado.Foi um prazer muito grande realizar esta entrevista consigo, Carlos Marques. Estamos certos que os frequentadores do site irão ficar surpreendidos com as suas ideias, com a sua forma de ser, com o seu potencial. Esta entrevista servirá, seguramente, para incentivar muitos jovens a dedicar-se à música com uma nova atitude. bandasfilarmonicas.com