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Como se considera artisticamente face ao invejável curriculum que tem? Bom, muito bom...?
Prefiro deixar essa avaliação à consideração de quem observa o meu trabalho.Mas como se revê no quadro de um indivíduo que começa aos 6 anos e aos 24 é licenciado, é compositor, é maestro é professor ...? Estamos perante um indivíduo muito jovem? Como se revê neste reconhecimento público? Acha que são exageros?
Acho que é um pouco excessivo, nas pessoas que me são próximas. Não noto assim tanto reconhecimento no público em geral, no entanto sei que as pessoas no meio filarmónico exageram muito. Como executante, é provável que me vejam como bom músico. Não tanto em relação a outras coisas. Acho que todo o reconhecimento é válido quando há muito trabalho envolvido. Mas se querem mesmo saber a minha opinião sobre mim mesmo, considero-me bom músico. Não me considero um bom maestro nem um bom compositor.O que é para si uma banda filarmónica?
Um grupo de amigos que se reúne, para fazer música e não só, mas especialmente para isso.Mas essa é a definição etimológica da palavra. É assim que pensa mesmo?
Do conhecimento que eu tenho do país é isso que acontece na maioria dos casos. Existem algumas de filarmónicas que fixam objectivos de mercado ou de imagem, minorando o aspecto social, mas regra geral as filarmónicas são formadas por pessoas que gostam de música e que se organizam para executá-la e proporcioná-la ao público.Considera que há bandas que são demasiado pretensiosas artisticamente? Que se consideram orquestras?
Não acho que a classificação de banda ou orquestra funcione ou possa ser um patamar de qualidade. Há bandas boas e bandas más, assim como há orquestras boas e orquestras más. O facto das bandas executarem transcrições de repertório sinfónico não significa que sejam pretensiosas, depende do repertório e da banda. Penso que há de facto algum repertório demasiado pretensioso para as bandas, no entanto, de algum desse repertório depende a contratação da banda, mesmo que mal executado.A banda filarmónica, na sua opinião, não é ou não pode ser vista como um grupo de músicos que se reúne para ganhar dinheiro?
Temos de separar as coisas. Não tenho nada contra quem se preocupa só com o aspecto financeiro, faz um determinado produto, reúne ou contrata músicos para conseguir esse produto e comercializa-o. Agrupamentos deste género devem é ser separados em termos de concorrência dos que estão noutras condições. Uma filarmónica profissional deve ter um tipo de trabalho específico. Não é propriamente uma filarmónica nos termos em que falamos. Uma banda que assume uma perspectiva profissional deve ser tratada como tal. Deve ser contratada para fazer determinado tipo de serviço sem condescendências, mas com condições para fazer o seu trabalho profissional. Uma banda amadora pode atingir um bom ou excelente nível de qualidade mas não lhe pode ser exigido que seja sempre assim. Porque a banda amadora depende de determinados factores que podem fazer oscilar a qualidade. Principalmente em relação a músicos. Hoje pode tê-los e amanhã podem faltar por diversas razões alheias à nossa vontade. A banda amadora não pode ter esse tipo de preocupação. Manter um bom nível constante é na minha opinião uma atitude profissional. Creio que sob o ponto de vista da filarmónica amadora não seja possível na maioria das vezes. É pena não haver bandas profissionais para além das militares ou paramilitares.A criação de bandas profissionais afigura-se para si um cenário irreal?
A mim afigura-se, embora possa ser um pouco idílico. Julgo que uma das coisas que as banda não fazem é procurar um público para o tipo de repertório que fazem. Não acho muita lógica fazer um tipo de repertório bastante exigente que se toca em determinado tipo de actuações uma vez que para a maior parte das circunstâncias não é requerido à banda esse tipo de esforço nem o público gostará muito, salvo três ou quatro “fazedores de opinião”, que influenciam as outras pessoas. Se analisarmos as coisas a fundo, as pessoas que vão a uma festa religiosa não gostam de repertório elaborado ou complexo, nem há nessas festas condições para o ouvir. Embora esse tipo de repertório seja útil ao público, sob o ponto de vista pedagógico, exige circunstâncias próprias, com silêncio etc., não um coreto rodeado de vendedores em concertos de 3 e 4 horas. Já fiz o teste com a minha banda (Marcial de Fermentelos), num concerto de uma hora, em recinto fechado, com a sala ás escuras, com público em silêncio sem necessidade de o pedir. Isso dá um resultado fenomenal. As pessoas respeitam, descobrem pormenores na música que nunca tinham imaginado e a seguir pedem mais concertos assim.Como consegue o silêncio sem ter de o pedir?
Em recinto fechado existem alguns gestos ou atitudes que funcionam perfeitamente, quer por parte da banda quer por parte da organização: Apagar as luzes quando for possível ou reduzir a luminosidade, fechar as portas com naturalidade, sem obrigar as pessoas a nada; dar sinais ao público informando quando o concerto vai começar para que as pessoas deixem de falar, de novo com naturalidade. O facto da banda se levantar quando entra o maestro, no meu caso, é uma forma de “dar sinal” ao público que o concerto vai começar. Mas, assim que entra o maestro o concerto deve começar. Se o maestro não começa o concerto e fica em cima do estrado a afinar a banda ou a dar indicações durante muito tempo, de novo o público vai começar a conversar, volta-se à estaca zero, prejudica-se o espectáculo. Chamar atenção ao público dos seus erros é sempre mau. As pessoas tendem a fazer o contrário e o acolhimento à música fica penalizado. Deve-se tentar levar o público a respeitar a música de forma indirecta.Que pensa do papel da bandas filarmónicas em termos do contributo que prestam ao ensino da música e a forma como a fazem chegar ao público?
Se não existissem as bandas eu não teria provavelmente aprendido música. E talvez a maior parte dos músicos de sopro. Por este país fora há muita gente que só tem oportunidade de ter a música ao vivo com a banda no dia da festa. O papel das bandas é fundamental na divulgação da música. Cabe ás bandas também a responsabilidade de apresentar música com qualidade. Não música difícil ou complicada, música com qualidade e ao vivo, que infelizmente não abunda no quotidiano cultural do nosso país.Em termos de funções sociais, as bandas substituem-se muitas vezes ao Estado ?
As bandas substituem-se muitas vezes ao próprio Estado em várias actividades, como por exemplo na ocupação dos tempos livres e em suportar instituições com encargos bastante caros em termos de espaços, materiais e recursos humanos. Apesar do estado por vezes contribuir, o grosso das despesas são suportadas por actividades e mecenas privados. Imaginem o que se perderia se todas as associações que tem uma banda a seu cargo se extinguissem, ou extinguissem a banda e as escolas de música. Está claro a nível internacional, que a música deve ser uma componente indispensável da educação em vários graus de ensino. Felizmente, cada vez mais há escolas a do ensino obrigatório com ensino de música, mas obrigatório, só nos primeiros ciclos do ensino básico, o que leva a que para muita gente, em muitas regiões do país, as bandas são a única fonte de ensino de música. Por outro lado, o próprio associativismo, ocupação de tempos livres, disciplina e muitos outros aspectos sociais são fornecidos pelas bandas.Porque se dedicou à musica com tão grande dedicação ?
Só resolvi dedicar-me à musica depois que entrei na banda da GNR. Anteriormente trabalhava numa empresa de informática. Logo que entrei na GNR, face à qualidade artística com que me confrontei na altura, e num naipe que estava bastante bem “apetrechado” a minha decisão foi desenvolver o máximo possível. Vinha do conservatório onde era considerado dos melhores. Quando cheguei à banda da GNR verifiquei que era ainda muito limitado. Decidi dedicar-me à musica e fui andando.Do conjunto das áreas que domina, Músico, Maestro, Compositor, Professor - com qual se identifica mais?
Identifico-me mais como teórico. Gosto das coisas relacionadas com a musica em termos teóricos. Depois vêm as coisas que me propõe. O facto de ter trabalhado em tantas coisas relacionadas com a prática vem da minha dificuldade em dizer que não, curiosidade e gosto pelo desafio.Considera-se um teórico?
Não. Embora goste muito da parte teórica. Como podem ver pelo meu curriculum sou bastante prático. Mas aprecio a parte teórica. Gosto de desmontar as coisas e ver como elas funcionam, saber qual a origem e o processo de desenvolvimento das coisas. Depois de analisar estes aspectos, é muito mais fácil saber o que fazer para melhorar.Foi nessa perspectiva que resolveu começar a compor?
Iniciei na composição a partir de trabalho em arranjos. Pedidos de colegas e grupos com quem trabalhei foram o motor para avançar na composição. Agora, sinto necessidade de escrever, de progredir.Alguém o incentivou quando começou a escrever?
Trabalhei para alguns grupos e fiz também alguns arranjos para a firma Cardoso & Conceição , cujos trabalhos foram remunerados. Em termos de incentivos foram os únicos apoios. Ganhei também o prémio do INATEL que foi bastante aliciante em termos financeiros.Quando compõe tem algum tipo de preocupação a nível técnico, especialmente quando o faz para banda?
Tenho preocupações a nível técnico, como aliás todo o compositor deve ter. Conheço razoavelmente bem as dificuldades técnicas dos instrumentos para os quais escrevo. Normalmente as dificuldades técnicas, individuais das minhas obras não são difíceis. As dificuldades surgem no conjunto, porque gosto de cruzamentos rítmicos menos usuais. Não tenho uma banda como referência para o que escrevo. Normalmente escrevo o que me parece viável dentro daquilo que me vem à imaginação, no entanto, posso escrever em função do que me pedem, com o nível de dificuldade que me for solicitado. Poderá comprovar isso a Cardoso & Conceição para quem escrevi em função do que me pediu.Quando termina uma obra tem algum período de reflexão, como Carlos Marques, ou considera-a definitiva?
Raramente altero alguma coisa. Prefiro fazer uma obra nova a alterar algo que já dei por terminado. Construo formalmente as obras na memória, depois passo rapidamente a computador. O processo de construção, antes de passar as obras, é demorado, ando a matutar durante bastante tempo, de forma que, ao fim desse tempo, a obra já só faz sentido de uma certa maneira. É como quem ouve uma música dezenas de vezes; qualquer alteração posterior vai parecer um erro. Isto não quer dizer que alguma vez não venha a alterar um ou outro ponto, não sou radical. Se faço uma obra sob encomenda é provável que altere alguma coisa se a pessoa que encomenda não gostar.Como vê o panorama nacional em termos de compositores para banda, relativamente ás suas diferenças ou às suas semelhanças?
Principalmente o facto de haver mais compositores já é positivo. E quando há mais a escrever, então ainda é mais positivo.Acha que estamos bem servidos de compositores?
Acho que deveríamos ter ainda mais. De alguns dos que há, penso que o Sr. Ilídio Costa tem uma marca de estilo, quando se ouve uma obra dele, reconhece-se imediatamente. O Capitão Amílcar Morais é um compositor ousado, soube introduzir estilos novos e novas linguagens harmónicas de uma forma que os músicos e o público aceitaram. O Sr. Afonso Alves também, tem um excelente conhecimento da instrumentação e sobre o que se deve escrever e para o quê. O Carlos Marques sabe tirar partido dos instrumentos certos, no momento certo e gosto do equilíbrio formal das poucas obras dele que conheço. Tal como ele disse em relação à minha obra premiada no concurso do INATEL, também eu gostaria de ter escrito a Cassiopeia. Gosto também da música para banda do Jorge Salgueiro, é bastante inovadora, sem romper totalmente com algumas tradições.Referiu e concordou que temos bons compositores, mas que poderia haver mais. Porque não temos mais compositores?
A escola de composição que temos no país é vanguardista e não serve o propósito das bandas filarmónicas. Penso que há 4 cursos superiores de composição no país e ainda não ouvi falar de uma obra para banda produzida por um aluno ou licenciado em composição. É um pouco estranho, num país com cerca de 700 bandas filarmónicas. Logicamente o que poderia contribuir para o incremento de novos compositores para banda seria os institutos superiores de composição darem importância ás bandas e incentivarem-nos a escrever também para elas.Crê que existe algum tipo de preconceito ao nível dos finalistas que terminam os cursos superiores de composição?
Parece-me que há de facto. No entanto entendo que é um preconceito errado. Porque não é nada fácil escrever para banda. A composição contemporânea na vertente acústica, está muito ligada a grupos relativamente pequenos. Hoje há muito menos gente a escrever para grandes formações. E a banda acaba por ser uma grande formação. É preciso ter noção do peso ideal desta formação e muitas vezes isso vem da experiência. Os manuais não dizem tudo, é preciso experimentar e ouvir. Parece-me que os compositores ainda não descobriram que há bandas a tocar muito bem, alheando-se um pouco deste universo.Preocupa-se ao escrever, com a complexidade da obra, relativamente à banda ou ao músico?
Dou-me ao cuidado, quando tenho qualquer espécie de dúvida, de ir falar com o próprio músico, bom no seu instrumento, preferencialmente com os professores, que conhecem as dificuldades dos alunos e perguntar-lhe a opinião. Em função disso faço os meus cálculos e estabeleço os meus limites, evitando cair em demasiada complexidade. Como já disse, as minhas obras não tem grandes dificuldades a nível individual, mas sim a nível de conjunto. O conjunto é da responsabilidade dos maestros, e estes devem ter formação suficiente para superá-las.Num país onde as bandas tocam as obras e não pagam direitos por isso, para um compositor ver-se espoliado desses direitos, não é um desincentivo para compor?
É. Não fosse o facto de ter ganho o prémio do INATEL, os lucros que tive com o que escrevi quase não chegavam para o papel. Há bandas que são capazes de pagar a um músico, 150 ou 200€ para fazer um concerto e no fim o músico vai-se embora. Mas não são capazes de pagar esse valor por uma obra que poderá ficar 100 anos na banda. A casa Cardoso & Conceição de S.ta Maria da Feira, desenvolve uma excelente política nessa área. Reduzindo o preço das obras, leva muita gente a dispensar as fotocópias.Como reage ás criticas relativamente ao seu trabalho?
Lido bem com a crítica. Já li a entrevista do Carlos Marques e concordo. Chateia-me ferozmente, e creio que é o que acontece em qualquer profissão no mundo, uma pessoa ver a qualidade do seu trabalho ser criticada negativamente, por pessoas que sabemos perfeitamente que não tem a menor competência para avaliar. Qualquer pessoa pode simplesmente gostar ou não gostar, mas para dizer se é bom ou mau, é preciso conhecimento, no caso da composição, é preciso muito conhecimento. Mas quando esse tipo de crítica me “cai mal” é por pouco tempo. Em termos da direcção, como não me considero bom maestro, aceito tranquilamente as críticas. Mas procuro ir a diversos cursos com maestros diferentes e tentar dominar a técnica de forma suficiente. Sou de opinião que, a dirigir, quanto mais simples mais claro. A excessividade de gestos pode dificultar o entendimento dos músicos. Acho que sou um maestro eficaz.Gosta de dar espectáculo a dirigir?
Acho que a forma de dirigir pode ser vantajosa em termos de espectáculo, em determinados contextos e com determinado público. Pessoalmente, não me preocupo com isso, prefiro compenetrar-me na eficácia de obter o maior rendimento e qualidade possíveis.Ganhou um prémio de composição por unanimidade do júri. Em termos pessoais, excluindo a questão financeira, que significa esse prémio para si?
Fiquei muito feliz como é óbvio. Significou reconhecimento pelo meu trabalho.Caracterize essa obra.
É uma obra ousada, com muitas polirritmias dissimuladas, mas não é difícil. Procuro fazer música descritiva, o meu objectivo é que a obra se encaixe numa imagem, como se fosse uma banda sonora, deixo a imagem à imaginação de quem a interpreta.Acha que é essa a razão para que a obra não circule pelas bandas?
Não faço a menor ideia. Possivelmente porque pouca gente a conhece ou ouviu. Ou talvez porque não gostem.Acha que a arte é passível de se levar a concurso?
Eu não queria estar no lugar do júri. Mas que há concursos por esse mundo fora relacionados com arte há. Existem parâmetros que são de fácil análise, mas perante duas obras técnica e formalmente bem construídas, não faço ideia qual seja o critério a adoptar.Temos boas bandas em Portugal?
Temos. Se analisarmos percentualmente com relação à população, não ficaremos atrás dos restantes países.As do norte são as melhores?
Penso que em termos geográficos, é possível que exista no Norte Litoral uma maior concentração de boas bandas, o que não significa que não existam também noutros locais. O dizer que é possível é muito vago, já que, de facto, não conheço todas as bandas do país.O que é uma boa banda?
Há alguns parâmetros a considerar. A afinação, o tipo de repertório, dentro da capacidade da banda, e a energia da banda, a coesão. Tocam todos para o mesmo ou é um para cada lado? A coesão é indispensável.Que conselhos dás a um jovem que quer começar a compor para banda?
O conhecimento de instrumentação completo é fundamental. A simplificação é essencial numa primeira abordagem, já que vai influenciar a aceitação na execução das obras, e permite experimentar, limar arestas. Acho que é preciso ouvir, ouvir muito e com ouvido crítico, prestar atenção aos pormenores, ouvir os instrumentos de forma isolada, em pequenos grupos, em diferentes dinâmicas. Quanto mais referências melhor. Depois vem a parte teórica, a construção tem que ser impecável, tem que se passar para um sistema gráfico um aglomerado de ideias que vão na cabeça, e é preciso conhecimento para isso. A música só deixa de ser matemática no momento da interpretação.Como se sente quando cria uma obra cujo resultado é excelente e lhe vem dar os parabéns por ela? Levanta-lhe o ego?
Não há nada melhor para mim, como compositor, que ouvir uma obra minha bem executada. Isso na verdade enche as medidas. É muito melhor do que qualquer elogio. Se for do agrado do público, melhor ainda.Que referências tem ou teve na sua vida que o influenciaram a seguir música?
Antes de entrar na GNR foram os meus familiares e amigos que me empurraram para a música. Depois de estar no meio musical há uma série de referências, gosto de ouvir quase todo o tipo de música.Como vê a rivalidade nas bandas de Fermentelos?
Exagerada, mas essencial. Este fenómeno é útil no universo de Fermentelos. Mas não sou partidário da rivalidade exacerbada.Há cinco bandas em Águeda. Em tempos veio num jornal local, uma transcrição de um discurso em que alguém dizia que em Águeda havia três bandas referência. Não está em questão quais as bandas que foram referidas. Nós perguntamos se concorda com esta opinião?
Não. Claro que não concordo. De maneira nenhuma. Não corresponde há verdade. Temos cinco bandas a trabalhar bem e é muito difícil dizer qual é a melhor.Que tipo de repertório devem tocar as bandas?
O que puderem. Aquele que os seus recursos permitirem, nunca muito para além disso.Mas é apologista da utilização das transcrições do sinfónico ou de repertório escrito para banda?
Não me coloco nos extremos. A questão das transcrições do repertório sinfónico para banda está muito mal percebido por uma área do público que deveria ser informado. Houve compositores sinfónicos que tinham como principal veículo de divulgação das suas obras as transcrições para banda. As transcrições eram feitas pelos próprios compositores ou eles mesmos encomendavam os arranjos. Quando ouvimos muitas vezes pessoas serem radicais e dizerem que transcrições não, seria melhor reflectir e informar-se porque é que alguns compositores as faziam ou eles próprios encomendavam a bandas que as tocassem como meio de divulgação.Não acha que esse tipo de repertório já é um pouco antigo?
Acho que é demasiado repetitivo. Gosto do repertório sinfónico, mas sempre o mesmo cansa.Acha que as bandas tocam bem esse repertório e que esse repertório está contextualizado com o tipo de serviço que é requerido ás bandas?
Ainda não encontrei uma única banda a soar convenientemente com algum desse repertório. Tocar uma obra, como por exemplo, o Guilherme Tell, num arraial onde tem por perto o carrossel, fogo de artifício, etc., como se vai tocar bem? Esse repertório está totalmente descontextualizado com o serviço que as bandas desenvolvem no arraial.Defende a tese das bandas de Rua e bandas de Palco. Considera inferiores artisticamente as que fazem o serviço na rua?
Sou totalmente contra o preconceito de que as bandas que tocam na rua são as bandas mais fracas. Vejamos: Quantidade não tem nada a ver com qualidade. Uma banda que dá entrada e às 08h00 da manhã e toca até 24h00 com apenas dois intervalos para comer está impossibilitada de fazer um bom trabalho sob o ponto de vista artístico. E há muitas bandas a fazer isso. Deveria ser proibido. Não vejo qualquer sentido em correr as ruas de uma freguesia numa manhã de Domingo. Há a desculpa da tradição, mas se pensarmos bem, há 50 anos as pessoas na aldeia andavam a pé, ou de bicicleta, hoje andam de carro, porque é que não voltam a andar a pé por uma questão de tradição? A sociedade evolui e não faz sentido manter tradições ilógicas. Um bom desfile, bem preparado, com coreografia, num local central da freguesia, é muito mais interessante do que um grupo de músicos desalentados a percorrer quilómetros ao sol, tocando sem vontade alguma. Em termos de qualidade podem-se fazer bons serviços de rua, com coreografia, a tocar bem. Há pouco tempo estive na república Checa num festival internacional de bandas. A maior parte delas eram bandas de rua. Fizeram espectáculos abismais, de grande qualidade. Vejam as fanfarras que se dão ao trabalho e ter alguma preocupação musical e coerência no âmbito do seu trabalho, o sucesso que estão a ter.Nesse ponto de vista entende que as despedidas são a parte da festa e da banda que o público mais aprecia. Disseram-nos numa outra entrevista que há bandas que iniciam as suas despedidas a meio da tarde. O que acha em relação a este quadro? Acha que um dia destes temos bandas especializadas em despedidas uma vez que se procura impressionar na parte final da festa?
Temos de reconhecer que deve ser muito chato estar 4 ou 5 horas a ouvir Guilherme Tell, 1812, Rienzi, Capricho Italiano, Inferno. Ora, no fim o público descontrai a ouvir música mais leve, e que resulta melhor num ambiente ruidoso, e aprecia obviamente. Os concertos tradicionais são demasiado longos, não prendem a atenção porque pouquíssima gente consegue ouvir música com atenção durante tanto tempo. Eu próprio raras vezes frequento concertos de filarmónicas por esse motivo, e quando vou, ouço uma ou duas peças e vou embora.Quem tem a culpa?
A culpa está nos fazedores de opinião. As pessoas que têm opinião nas contratações das bandas, muitas vezes não fazem ideia do trabalho desenvolvido, nem do esforço necessário a ter uma banda de boa qualidade, nem sabem apreciar para além do barulho dos bombos e dos pratos. Acho que se mudarmos o repertório num arraial, muitas vezes, a maioria do público nem repara, só os fazedores de opinião, que são contra peças que não conhecem, são contra a evolução. Eu tenho experiência disso.É contra os despiques?
Sou. Como já referi, quantidade não tem nada a ver com qualidade. Se eu não souber o repertório que vou tocar num concerto com outra banda, sou obrigado a preparar um leque de peças, incomparavelmente maior que se o soubesse antecipadamente. Isso impede de as fazer com a mesma qualidade, como é óbvio. Se eu tiver menos partituras a preparar para o mesmo tempo de ensaios, é lógico que as posso trabalhar melhor.È maestro da Banda Marcial de Fermentelos. Considera que a sua banda tem bom nível?
Tem, tem bom nível. Tem algumas limitações como todas mas tem, mas considero-a com bom nível.Que tipo de experiência teve com a sua passagem pela Banda Sinfónica da GNR?
É uma banda extremamente boa. Tive um conhecimento de instrumentação que é difícil conseguir noutro agrupamento. Há determinado tipo de instrumentos que só se ouvem lá. Depois cheguei a fazer concertos com 120 músicos em palco, com um poder sonoro que dá para ver perfeitamente que tipo de resultados se pode obter. Também a capacidade de leitura foi muito desenvolvida. Tínhamos que estar preparados para mudar rapidamente de repertório e admitiam-se poucas falhas, mesmo à 1ª vista.Mas apesar de tanta qualidade isso não foi suficiente para o fixar lá. Porque se demitiu?
A cidade de Lisboa, as filas de trânsito, viver num apartamento, estar longe de casa, o regime militar que é muitas vezes injusto; tive oportunidade para dar aulas a tempo inteiro e não era possível continuar. Tenho melhor qualidade de vida cá no norte. Não estou arrependido.Que projectos para o futuro?
Se calhar o futuro é que tem projectos para mim. Não tenho projectos no momento, não sou ambicioso....mas sou avesso à rotina. Não costumo fazer o mesmo tipo de actividade durante muito tempo. Mas não depende dos meus projectos.Digamos que é um pouco comodista?
Eu considero-me até preguiçoso. Gosto daquele momento de preguiça. mas se ele se prolongar muito tempo, tento fazer algo. Provavelmente deve-se ao facto de que quando estive em Lisboa o ritmo era tão intenso que chegava a ser esgotante. Cheguei a tocar no mesmo dia com uma orquestra Sinfónica, com um grupo de Rock, com um grupo de Bar até ás tantas da madrugada e de manhã cedo ir a correr para uma guarda de honra.Que recomendações faz a quem quer dedicar-se à música?
Não é uma vida fácil. Tem de se ser muito curioso. Nunca perder a música de vista, e respeitá-la, são as recomendações. Eu tenho um certo respeito pela música, por que o que ela é. Quando se deixa de ter esse respeito, creio que é difícil vir a ser muito bom músico. Deve-se ouvir muito e manter o espírito aberto. Há coisas que podemos aprender a ouvir a Filarmónica de Berlim, mas há outras que aprendemos a ouvir o Rancho Folclórico, ou até música Pimba. Essencialmente deve-se gostar de música e desenvolver esse gosto a ponto de ser um prazer executá-la em qualquer circunstância.Que acha do site bandasfilarmonicas.com?
O site veio congregar uma coisa que estava demasiado espalhada pelo país: a expressão dos pontos de vista em relação ao contexto global das bandas. O Site permite muita coisa, muita informação e é um local acessível a todos, e cada vez está melhor.