“Homem Simples, Grande compositor”

Quando muitos de nós nos encontramos nos arraiais a deliciar-nos com a música das filarmónicas, escutamos muitas obras que deixam em nós marcas profundas. E por trás de uma obra musical está um compositor, alguém a quem as melodias não largam o pensamento.

É a história de um compositor que vos quero contar, a história de um homem simples que nos legou obras musicais que ainda hoje são muito admiradas e o nome do seu autor respeitado, apesar de pouco se conhecer sobre a sua vida. Falo de Ângelo André Moreira, grande regente, autor da “Pérola” e da “Incógnita”

Angelo Moreira viu a luz do dia pela primeira vez a 12 de Maio de 1925, em Água Longa, uma das maiores freguesias do concelho de Sto Tirso.

Oriundo de uma família da classe média baixa, era filho de José André Moreira, um dos fundadores da Banda de Música de S. Vicente de Alfena. Após concluir o ensino Primário, começou a trabalhar numa pequena unidade fabril, propriedade de seu pai, que se dedicava á produção de acessórios têxteis, a sua paixão pela arte dos sons levou-o a frequentar o 2º Ano do Liceu em horário pós laboral para poder aceder aos estudos no Conservatório de Música do Porto. Nesta instituição fez os Cursos de Violino, Clarinete, e Composição, curso que concluiu com a classificação final de 20 Valores, num presságio que viria a revelar um talento fora do vulgar.

Ainda com 20 anos mal espigados iniciou a sua carreira como regente na Banda de Alfena, da qual já tinha sido músico, por onde se manteve durante mais de duas décadas, conciliando sempre esta actividade com de sócio na empresa que seu pai fundara e que ele, juntamente com mais três irmãos alargara, chegando a dar emprego a mais de quarenta pessoas. Debaixo da sua batuta a filarmónica alfenense conheceu um período de grande nível artístico.
Homem de conduta irrepreensível, os seus modos afáveis levavam-no a travar amizades facilmente, como foi o caso do “Arquitecto” António Santos Leite, célebre maestro da Banda de Gueifães, de quem foi grande amigo, e a quem dedicou uma marcha.

Depois de alguns anos “inactivo”, a Direcção da Banda de Golães-Fafe, convidou-o a assumir o lugar de maestro, ao que ele acedeu prontamente, dando assim inicio a um período áureo no historial da Banda de Golães, no qual ombreou com congéneres á época tão consagradas como as Bandas da Trofa, Gueifães, e da sua “vizinha” Revelhe. Por lá se manteve durante cerca de dez anos, até que o cansaço e aos primeiros sintomas da doença que o viria a vitimar o levaram a abandonar a direcção artística, deixando uma parte do seu trabalho registado em áudio, um LP gravado em 1976 no interior da Igreja de Golães, onde constam três das suas obras, além das “Instantaneas” de Sousa Morais, uma obra conhecida por ser de difícil execução. Nesta gravação pode-se ficar com uma ideia muito clara do bom nível artístico que a Banda de Golães atingiu.

Da sua imensa produção musical, hoje muita da qual se encontra perdida, conseguimos registar as seguintes obras: “Pérola”, “Jubilosa”, “Dedicação” (Marchas de Concerto) “Incógnita” (Abertura) “Fafense”, “A Caminho de Folgosa”, “O Alfenense”, “Homenagem a António Santos Leite”, “Avante Filarmónicas”, “Hélder” (marcha dedicada ao seu afilhado), “Maria Abilia”, “José Américo” (estas duas dedicadas aos seus filhos). Além destas marchas de rua escreveu muitas outras, mas estas perderam-se em circunstancias ainda hoje não totalmente esclarecidas.
Entre as muitas rapsódias compostas por si, merece destaque a célebre “Flores de Primavera”, tradicionalmente conhecida por “Ou vai ou racha”.
Homem simples e modesto, mas grande artista, viria a falecer na terra que o vira nascer quase 61 anos antes, em 12 de Abril de 1986, encontrando-se sepultado no Cemitério Paroquial de Água Longa.

Autor: Francisco Pereira
(Músico da Banda da Trofa)