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Maestro da Sociedade Recreio União Prainhense, Ilha do Pico – Açores (600 habitantes / 52 músicos)
Lídio Serpa, homem de 51 anos, um pouco reservado, muito contido nas palavras e muito ponderado nas ideias. Considera-se artista na arte de trabalhar a madeira, e puro amador na música. Rejeita que o considerem bom. Rejeita quando lhe pedem que confirme que a sua banda é a melhor da Ilha. “Os outros é que nos tem de avaliar” , “há mais bandas tão boas ou melhores que a nossa”. É autodidacta e aproveita todas as oportunidades para aprender. É frequentador do site bandasfilarmonicas.com e aprecia os compositores Afonso Alves, Carlos Marques, Amilcar Morais, Ilidio Costa e outros. Considera que temos bons compositores em Portugal e que agora se escreve muito bem para banda.
Encontrava-se em digressão pela Figueira da Foz num Intercâmbio cultural entre a sua Banda, Sociedade Recreio União Prainhense, e a Banda de Quiaios, de 18 a 23 Agosto, quando foi interpelado por nós, no sábado pela tarde. Pedimos-lhe que nos desse o prazer da sua companhia durante umas horas e nos permitisse tomar algumas notas sobre si, sobre a banda, sobre a Ilha, Filarmónica e sobre o intercâmbio com Quiaios. Disponibilizou-se de imediato com a maior alegria e satisfação. Fez-se acompanhar pelo vice-presidente Nuno Simas.
Qual é o objectivo do intercâmbio?
Na Ilha do Pico as bandas procuram receber e visitar outras bandas, principalmente as do Continente. Atendendo a que os músicos não recebem qualquer tipo de gratificação financeira, o intercâmbio é a forma de compensação pelo trabalho e dedicação ao longo do ano. Os jovens tem de ser animados senão começam a mostrar algum desinteresse. Na banda da nossa terra não se ganha dinheiro. Nem eu. Todos trabalhamos de graça. O Valor que a banda cobra, quando cobra, é para aplicar em instrumentos e em actividades como este caso – intercâmbios.
Quem visita primeiro?
A banda Prainhense procura primeiro visitar e receber depois. Assim entendemos que nos preparamos melhor para receber, conhecendo primeiro a outra instituição. É sempre na altura de férias que fazemos os intercâmbios. A nossa saída depende de certa forma, das férias escolares dos jovens.
Conseguem facilmente apoios das entidades oficiais para este tipo de actividade?
Os apoios que a banda consegue das entidades para vir ao continente ou para o estrangeiro são apenas 13 passagens pagas.
A Banda União Prainhense é uma das melhores da Ilha do Pico
No contexto das bandas do Pico considera o maestro Lídio que a sua é uma das melhores. Não obstante rejeita imediatamente a ideia, quando ouve dizer, que a Prainhense é a melhor da Ilha. Lídio Serpa, com a franca modéstia á vista, diz imediatamente que não compete a ele fazer essa avaliação. Tanto que há outras bandas de excelente qualidade também na Ilha. A rivalidade no Pico é positiva. É útil sob o aspecto artístico mas não cega a mentalidade das pessoas.
A relação da Prainhense com as outras bandas é a melhor. A geração mais nova é mais bem formada culturalmente e entende que não é salutar apontar defeitos ás outras, mas sim pôr em evidencia as suas virtudes. – Eu apoio essa mentalidade, diz o maestro Serpa.
Das entidades oficiais tem alguma relevância os apoios?
Do governo não, nada de especial. Pedem um plano de actividades e se é aprovado apoiam pouquíssimo. Apresentamos uma vez um projecto para montar uma orquestra e eles disseram-nos que sim, que aprovavam, mas no fim o subsídio que atribuirão nem sequer dava para comprar um instrumento. A Câmara Municipal é um elemento fundamental no apoio ás bandas. A junta de freguesia também. Emprestam-nos a carrinha para transportar os músicos e instrumental e de vez em quando subsidiam também com algum dinheiro.
A banda Prainhense é das bandas do Pico que colabora mais com as outras e consequentemente a que tem menos dependência de outrem.
Como está a banda em termos de estabilidade e de projectos para o futuro?
Nuno Simas, Vice-presidente e músico, Trombonista, que acompanhou o Maestro Lídio, referiu:
– A banda tem uma situação económica saudável. Tem um nível artístico como nunca teve. Temos um projecto para gravar um CD ainda este ano. O entusiasmo está ao rubro. Creio que pelo menos durante três anos – período de escolaridade mais complicado – vamos ter a banda com este bom nível. Temos uma escola de música a funcionar bem, é o Sr. Lídio que coordena a escola de música, e tambem com a ajuda de alguns músicos da banda já deu muitas lições, e as perspectivas de futuro são muito boas.
Lídio Serpa foi musico militar em S.Miguel
– Foi músico na banda do exército em S.Miguel, em Clarinete Baixo. Depois de dois anos e meio no exército, como não havia maneira de ser promovido demitiu-se e regressou a casa. Passou a dedicar-se á arte de trabalhar a madeira.
A batuta da União Prainhense
Um ano depois de ter chegado do Exército assumiu a batuta da banda nos seis anos seguintes. No fim desse período, como havia falta de tubistas resolveu disponibilizar o seu lugar de maestro a outro colega da banda e foi aprender a Tuba, que fazia muita falta e ninguém lhe queria pegar.
– Em final de 1994, o maestro a quem deixei o meu lugar saiu da banda e eu voltei para a batuta, diz o maestro Lídio.
Incremento na qualidade artística
– Eu tinha vindo ao continente várias vezes ajudar outras bandas da Ilha, em intercâmbios, e comecei a verificar que precisávamos de mudar a nossa forma de tocar para nos aproximarmos das bandas boas que eu ouvia. Precisávamos aprender o som e a forma de tocar de algumas das Bandas do Continente. Não quer dizer que todas as bandas do continente são melhor que todas as da Ilha do Pico. Conheço muitas bandas do continente e nem todas são melhores que nós. Algumas são como nós. Mas não podemos tomar como exemplo as mais modestas. Temos é que aprender com as melhores. Fui falando com os maestros que encontrava e com os músicos, sobre a sua forma de executar a música e foi assim que comecei aos poucos a desenvolver esse trabalho que está á vista agora na nossa banda. Os intercâmbios podem ser úteis, neste aspecto, se aproveitarmos para aprender alguma coisa.
Que formação tem na área da direcção?
– Sou autodidacta, diz o maestro Lídio quando lho perguntamos. – Leio livros, pesquiso na internet, colho opiniões de outros maestros, vou-me informando ao máximo assim. Agora os cursos delimitam idades, para ir dando oportunidade aos mais novos, e eu fui ficando. Mas não fico parado. Procuro sempre aprender cada vez mais. Na minha banda tenho um professor de música com formação de Conservatório. E outros músicos já com formação especifica. Por isso eu tenho também de me manter actualizado. Acho que um maestro tem de se manter sempre em actualização. A música não para.
Repertório?
– A selecção do repertório é diversa. Tocamos desde o repertório ligeiro ao repertório um pouco mais elaborado. Creio que é equilibrado. Não tocamos peças clássicas, embora tenhamos também no nosso repertório algumas obras com características clássicas. É útil para variar e não cansar os músicos.
A banda está completa ao nível do Instrumental
– A nossa banda tem praticamente todo o tipo de instrumentos que tem as bandas do continente. Não temos Oboés nem Fagotes porque não há quem ensine. Não temos também o Carrilhão porque é demasiado caro para nós. Mas temos Timbales e Bombo de Concerto e o resto da percussão.
Que compositores portugueses conhece e toca?
– Tocamos obras de Afonso Alves, Carlos Marques, Alexandre Fonseca, Ilidio Costa, Amilcar de Morais… Eu acho que o facto de uma banda tocar repertório com alguma qualidade define o tipo de banda que é. Os compositores portugueses que temos agora, escrevem muito bem. Adquirimos as obras a Cardoso & Conceição.
Uma banda com contributo registado nas bandas militares
– Da nossa banda já sairão vários músicos para as bandas militares. O Maestro Reginaldo Neves, meu primo, era da nossa banda. Foi maestro da banda da GNR de Lisboa, da Banda principal do Exército, da Orquestra Ligeira do Exército e chegou a Ten. Coronel. das Bandas Militares. Tivemos alguns músicos militares.
É um prestigio ser maestro de uma banda nos Açores?
– Não sei se é prestigio. Mas alguém tem de fazer esse trabalho. A pessoa que dispuser para fazer isso tem de ver se é capaz e ter consciência e dignidade para o cargo. Contudo tem de estudar e ter responsabilidade pela arte. No meu caso as pessoas apoiam-me muito, não me posso queixar.
Que qualidade acha que tem as Bandas dos Açores?
– Há uns anos atrás passou um delegado do INATEL (Sr. Ferreira da Silva) pelos Açores para analisar a qualidade das bandas. Concluiu que na Ilha do Pico era onde estavam as melhores bandas.
Tem algum maestro no continente que seja referência para si em termos da arte da direcção e quem toma como exemplo quando dirige?
– Não tenho nenhuma referência. Considero que são todos bons e quem sou eu para duvidar de quem quer que seja.
A escola de música é fundamental para a banda.
Segundo o vice-presidente, tem sempre uma média de vinte alunos na escola de música. Como consegue mantê-los motivados ? Que método usa?
– Eu entendo que os alunos devem começar já com o instrumento. Eu faço assim. Ensinando uma nota hoje outra amanhã e pouco a pouco se vai introduzindo o solfejo. Estamos a ter excelentes resultados sem os massacrar com o solfejo logo de início. Os miúdos querem começar logo a tocar senão podem desistir.
A escola de musica é fundamental para alimentar a Banda. Quem não caminhar por aí arrisca-se a ter uma banda pequena e sempre dependente das outras.
A nossa banda é independente de, praticamente, todas. Nós colaboramos muito com as outras e não temos tido necessidade de colaboração delas.
A Federação de Bandas dos Açores Sediada no Pico
A Federação das Bandas dos Açores está agora sediada no Pico. Tem promovido algumas actividades mas esperamos muito mais. Esperemos que seja de facto útil a todas as bandas. Nós acreditamos que sim.
Que acha do site bandasfilarmonicas.com?
Gosto muito e acho que é muito útil. Tem entrevistas muito interessantes e informações que me interessam muito. Visito o site muitas vezes. É bom termos um sitio onde encontrar muitas coisas relacionadas com as Bandas Filarmónicas. Agora estamos todos muito mais próximos. O site é uma boa ideia.
Agradecemos muito a sua disponibilidade e colaboração. Em breve entraremos em contacto com outras bandas quer do Pico quer de outras Ilhas para que as possamos conhecer melhor e dar a conhecer o trabalho que desenvolvem, a todo o universo Filarmónico. Muito obrigado.
bandasfilarmonicas.com