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João Neves cessa funções de maestro na Banda Nova
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No passado sábado, quando se aproximava do término o concerto da Banda Nova integrado na iniciativa “Mês Cultural da Banda Nova”, o presidente da direção da Associação Cultural e Recreativa Banda Nova de Fermentelos, Aurélio Carvalho, pegou no microfone e disse:
“Este é o último concerto que, na nossa “casa”, o maestro João Neves dirige enquanto maestro titular da Banda Nova de Fermentelos. Em rigor, o último concerto nessa qualidade será no próximo domingo, dia 05 de outubro, no festival de bandas da UBA, a conhecida “União de Bandas de Águeda”, que terá a Banda Nova como anfitriã. Os 28 anos que dedicou à nossa coletividade são um orgulho para todos nós: associados, dirigentes e músicos. Os êxitos alcançados só foram possíveis com muito trabalho e ambição. Temos que o reconhecer, o nosso maestro foi uma pessoa incansável, teimoso, decidido, nunca deixando de acreditar e lembrar que era possível ir mais além. É pois, com um enorme respeito e profundo reconhecimento, que lhe digo, em nome de todos nós: obrigado, muito obrigado, maestro João Neves!”.
A esta curta declaração, em resposta, no seu jeito afável, o maestro João Neves proferiu algumas palavras sentidas ao público presente:
“Gosto mais de estar a dirigir do que a falar… Como sabem, tudo tem um princípio e um fim. Eu dizia a toda a gente que queria dirigir a banda até aos setenta anos. No entanto, no início do ano, tive um problema de saúde, que, felizmente, está controlado, deixando de ser um motivo para grandes preocupações. No entanto, pela forma como eu vivo a música, há algo que importa evitar e que eu não consigo controlar: o stress. Esta é a razão principal para dizer “basta”. Não estou chateado com ninguém, pelo contrário! Sem mencionar nomes para não correr o risco de esquecer algum, quero agradecer a todos os associados, dirigentes, instrumentistas e amigos, a todos os que têm ajudado, porque a banda não depende exclusivamente do seu maestro. Queiram acreditar, estou convicto de que dei o meu melhor em prol da coletividade, tendo mesmo abdicado de concorrer a outros desafios mais prestigiantes, privilegiando a “banda da minha terra”, a Banda Nova de Fermentelos. Apesar de não ser minha intenção referir nomes de ninguém, há uma exceção que é o meu irmão António, o maestro da Banda Nova de Fermentelos meu antecessor: a ele, primeiro músico profissional de Fermentelos, devo muito – foi ele que me encaminhou para a banda da GNR, como violoncelista, e que, depois de mim, abriu as portas a muitos outros conterrâneos para estatutos profissionalizantes, em lugares de prestígio, tal como eu acabei por fazer com muitos outros. Depois de todos estes anos, a minha experiência permite-me dizer com toda a certeza que a música é o mais belo emprego do mundo – já o disse a muitos músicos e reafirmo-o cada vez de forma mais convicta. Nesta ocasião, já com algum “cheiro” de despedida, permitam-me que faça um pedido a todos: que se juntem, não façam divisões, ajudem a banda, só assim faremos da Banda Nova uma banda mais forte. Acreditem, eu não me vou embora daqui, eu, simplesmente, vou mudar de vida, porque há 34 anos que não tenho um sábado com a família. Julgo que o reconhecerão e que não será imodéstia da minha parte dizê-lo: eu dei tudo pela Banda Nova, a Banda Nova esteve sempre em primeiro lugar na minha vida. A todos vós, a todos os que sempre me ajudaram e que ajudaram a Banda Nova, muito obrigado!”
E, dirigindo-se aos músicos, acrescentou:
“… e agora umas palavras para vós músicos e, claro, para todos os músicos que passaram por cá. Foram muitos os que passaram por cá, que eu vi passar por cá, que aprenderam e que cresceram com a Banda Nova, levando o seu nome bem longe… Quero agradecer todo o vosso empenho e aproveito para desafiar-vos a dar mais, porque há sempre espaço para mais. A cessação das funções de maestro é uma decisão minha, que, porque não foi fácil e porque precisei de muito tempo para arranjar a coragem, optei por comunicar apenas ao presidente da direção em funções. Aproveito esta ocasião para vos dizer algo de muito importante, para mim e, mais importante, para vocês próprios: a melhor homenagem que fazem ao maestro é virem aos ensaios, estudarem e não faltarem aos serviços, porque, por tudo o que eu já disse, a Banda Nova também é um pouco de mim. Nós vamos continuar a encontrar-nos por aí… A Banda Nova tem um enorme potencial para crescer: temos músicos de muito valor, vontades e capacidades por explorar, acreditem.
A terminar, fez questão de agradecer ao seu companheiro de sempre, António Pepino, contramestre, a quem abraçou calorosamente.
Se bem que seja uma verdade imutável e indissociável da vida, que tudo tem um princípio e um fim, este afastamento do maestro João Neves, mesmo não sendo de despedida, não deixou indiferente nenhum dos presentes, fez rolar algumas lágrimas ou, no mínimo, engolir os mais impetuosos calafrios da tristeza. Os nomes do maestro João Neves e da Banda Nova, inquestionavelmente, perdurarão unidos nas memórias de todos, perpetuamente. Se 10 anos são muito tempo como diz uma canção bem conhecida, os 46 anos dedicados por João Neves à Banda Nova, 18 como instrumentista e 28 como maestro, respetivamente, metade do tempo de vida da coletividade, são mesmo muito tempo. Sem mais delongas, a direção, em representação da coletividade, perentoriamente, exalta: “Obrigado maestro João Neves!”.
Fernando Cozinheiro
