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Um maestro reconhecido
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No dia 20 de dezembro assisti deleitado a um concerto pela Banda Municipal de Valpaços. Tratou-se de um espetáculo de muitíssima qualidade artística dado por um agrupamento simpático onde mais de metade dos seus elementos são jovens raparigas e a média de idade de todo o conjunto andará à volta dos vinte anos. Fabuloso quadro visual e artístico.
A coletividade é dirigida superiormente pelo maestro Francisco Clemente, homem de doces e calculadas palavras, profundo nas análises às músicas que trabalha e dirige.
O Auditório Luís Teixeira em Valpaços esteve completamente apinhado de gente, onde o repertório que se ouviu exerceu sobre o público um efeito fantástico e contagiante. Durante hora e meia de atuação, o maestro, de forte e delicado génio, tocado por uma estranha e singular inspiração que o animava e dava asas, mostrava aos jovens músicos o sentido das obras, levando-os a melhor compreenderem as suas partes mais relevantes e catalisadoras.
Penso que na vida nada é mais importante do que o afeto e o reconhecimento às pessoas que de forma direta ou indirecta marcaram as nossas vidas. De corpo todo o homem é uno; de alma poucos o são. De facto Francisco Clemente é multifacetado nas suas idiossincrasias, um pequeno céu estrelado, alguém com quem se gosta de estar, um homem que reconhece o valor dos outros.
Simpático e por vezes sentimental, de sentido elevado, fazendo ao longo dos anos o caminho da transformação humana na procura da perfeição artística, o maestro não se esquiva às responsabilidades nem aos sacrifícios necessários para atingir os seus objectivos. Nele residem a força e a virtude, o caráter firme e rectilíneo.
Conheci-o pela primeira vez como meu aluno na Academia de Música de Vila Real na disciplina de clarinete e mais tarde como cantor no Orfeão da U.T.A.D. Já no primeiro contacto apercebi-me que ele iria fazer parte desses artistas pouco comuns e autênticos que no seu íntimo se harmonizam com a Natureza e com a verdade das coisas. A amizade e o respeito mútuo conservaram-se ao longo dos anos, tal como a minha opinião sobre o seu percurso de vida.
Francisco Clemente, tem a capacidade de viver no seio das suas origens como um peixe dentro de água, mas nunca duvidei que o seu trabalho e o seu talento são reconhecidos e sobreviverão aos desígnios de todas as exigências e competições gratuitas.
No mundo confortável em que hoje muitas famílias vivem, o relato objetivo das bandas filarmónicas não chega para se ter a ideia do que era a pobreza e o primitivismo das aldeias de Trás-os -Montes de há cem anos atrás. As bandas coloriam os lugares. Homens fantásticos pugnaram para que as filarmónicas se transformassem em verdadeiras escolas de música e espaços de sociabilização e humanização. Francisco Clemente tem desempenhado esse papel na perfeição.
O concerto da Banda Municipal de Valpaços vai ficar na memória das centenas de pessoas que povoaram o auditório da cidade de Valpaços. Não se conteve o maestro no final da sua atuação ao agradecer o entusiasmo de tanto calor humano. Emocionado pela minha presença ali, o maestro referiu comovido que o seu percurso artístico se deveu aos meus ensinamentos…mais gratificado fiquei eu porque este reconhecimento publico nos tempos de hoje, são raridades….Manifestações só possíveis em homens grandes e com caráter, homens simples e de coração que ajudam a uma certa justeza das coisas e do mundo.
Quando regressamos ao abençoado estádio da memória em que a alma com tudo se maravilha, olhamos a nossa aldeia e recordamos as imagens das bandas nas arruadas e nos coretos e a nostalgia toma conta de nós vigiando os nossos afetos e emoções… e certos músicos não nos saem do pensamento.