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Felizmente há mais mundo a pensar como eu!…
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Todos os anos em S. Martinho de Anta há uma maior proximidade entre o público e as bandas de música. Há uma hipnose e uma fusão entre músicos e um mundo de gente que se deixa pintar pela emoção das cores dos sons e dos silêncios ouvindo as colectividades filarmónicas. Este ano o concerto das bandas começou bem cedo e madrugador como as aves, que nessa manhã, discretas e felizes, chilreavam fantasiosamente melodias plenas de harmonia preconizando um concerto de alto nível que havia de começar às nove horas e trinta. As bandas deram entrada em grande forma e estilo, emergindo como uma luz intensa e penetrante. O público rendeu-se facilmente à qualidade das bandas. O virtuosismo de alguns artistas foi aclamado com a paixão da alma de um povo que sabe amar mostrando o vigor convicto de aplausos reveladores de quem gosta de música e a sabe usufruir como uma bênção e um desafio a sentimentos e emoções. Aquela gente, ali está naquele espaço, feito santuário, enquanto as bandas tocam. Estas correspondem, expressando-se em temas, ora alegres e jubilatórios, ora dolorosos e dramáticos, levando os ouvintes ao rubro que se manifestam ruidosamente com fortes e efusivos “bravos”. Na grande variedade de repertório, a introspecção contemplativa de alguns momentos da “Abertura 1812” de Tchaikovsky fez arrepiar algumas pessoas mais sensíveis, enfeitiçando-as e arrastando-as para um labirinto de sensações inexprimíveis e estranhas… Soube responder bem a Associação Recreativa e Musical Amigos da Branca com uma peça galvanizante e magistralmente bem tocada. As insondáveis sensações de beleza melódica estiveram patentes nos “Les Preludes” de Franz Liszt, onde a musicalidade dos seus músicos expressou de forma irrebatível a grandiloquência de um compositor maior no universo da criação musical. Duas bandas, dois mundos diferentes de repertório. Duas bandas, o mesmo sentimento de emoção e apreciação de uma assistência já habitual e exigente. É proibido falar enquanto as bandas tocam. Quase que é proibido respirar nos momentos mais poéticos e pianíssimos da música: é preciso ouvir tudo… até o ouvir do silêncio que alguns momentos musicais impõem… Já perto do fim, a Banda de Vilela exibe a estonteante Abertura de “Guilherme Tell”, em que músicos e assistência se sentem vogando no ar em cima de um qualquer Rocinante, sem espadas nem ameaças, mas sim brincando no ar ao sabor de uma liberdade de desejos e de conquistas… o povo vibrou mergulhado na evocação das fantasias dos sonhos e do êxtase, numa cumplicidade intensa e fraterna… “Amigos da Branca” respondeu bem com uma peça de rara dificuldade técnica. O rigor de afinação, o equilíbrio de naipes, e um timbre cheio de versatilidade e doçura, colocaram esta colectividade num patamar altíssimo, de fazer inveja a algumas bandas militares, originando uma paleta de emoções que arrebataram e “partiram” alguns corações… Tudo somado, o imenso desafio das comissões de festas em contratarem todos os anos grandes bandas de música, é compensado pelo enorme entusiasmo do público cordato e conhecedor destes eventos musicais que não regateia palmas nem louvores a todos os habitantes desta terra abençoada. É uma pena que investimentos desta natureza se resumam a uma única exibição de bandas. Qualquer banda filarmónica se sente honrada em actuar numa terra tradicionalmente forte e vocacionada para a música, numa romaria conhecida em todo o Doiro, onde no dizer de Miguel Torga “mete poviléu das cinco partes do mundo…” No que me toca, para o ano lá estarei a reconfortar as minhas dores e mágoas, num lugar de culto e de fé. Felizmente há mais mundo a pensar como eu!... Adérito Silveira aderito.silveira@hotmail.com Maestro do Coral da Cidade de Vila Real (Festa de 15 de Agosto de 2009)