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Apresentação do livro “Coreto” de J.Costa Pinto
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A apresentação do livro do maestro J.Costa Pinto no auditório da C&C, em Santa Maria da Feira, ontem pelas 20:00, foi uma bela festa na qual participaram várias personalidades do mundo da filarmonia, que o homenagearam com muito carinho e com imenso apreço pelo que ele conseguiu, desde há 5 anos, numa rádio pública, em prol das Bandas, dos músicos, dos compositores, dos filarmónicos. Existe um programa de rádio na Antena 2 ás 12H00 de Domingo, sobre música de Bandas e grupos afins, porque Jorge Costa Pinto conseguiu demonstrar à administração da RDP quão importante é existir esse espaço. Das excelentes intervenções de mais e uma dezena de convidados que se prontificaram de imediato a testemunhar a importância do projecto de Costa Pinto, transcrevemos a que encerrou e que demonstra claramente a importância da filarmonia e da música na vida do individuo. Assim disse o Comendador António Silva: - Depois das brilhantes intervenções que acabámos de ouvir, o que terá a dizer, esta simples criatura que, como escola musical, teve apenas a da Filarmónica da aldeia e uma aprendizagem empírica em clarinete, sem nunca ir a um conservatório que lhe afinasse os sentidos, nem ter tido um professor que, na juventude, lhe aperfeiçoasse os conhecimentos desta arte, ou será ciência (?), tão bela, quanto sensível e nobre. E, à falta, minha, de ciência, falar-vos-ei da experiência se, para tanto, tiver engenho e arte, como diria o poeta! Experiência que teve início nos anos cinquenta quando, após a conclusão da escola primária, e enquanto pastoreava o rebanho pelos montes da aldeia, saboreava os acordes da Banda que lá ao fundo, bem longe, ensaiava para a festa do padroeiro que se avizinhava. Acordes que eu primeiro assobiava, trauteava depois para logo reproduzir na companheira de sempre, uma flauta de cana feita por mim com buracos feitos com um ferro quente. E assim se me despertava a curiosidade em desvendar o mistério que estaria por detrás daquelas figurinhas toscas parecidas com foguetes umas, ganchos de candeia outras, expostas sobre cinco linhas horizontais e paralelas, a fazer lembrar uma pista de atletismo, e que era para onde os músicos fixavam a sua atenção observando com a solenidade de quem contempla o templo sagrado, enquanto transformavam aqueles esquisitos arabescos em sons expressivos que escorriam entre os dedos em catadupas bem ritmadas, criando deliciosas melodias que nos criavam fortes e duradouras emoções. E quase sem dar por isso, começámos a perceber que nada como a música nos transfigura a um tal grau de êxtase porque só ela é o fio condutor que eleva o homem ao superlativo, da alegria à tristeza, do riso ao choro, da angústia à libertação! A música deu a este cosmos que nos governa as pinceladas de beleza e cor que faltavam na obra do criador e complementou um universo de trevas em luzeiro de esperança, aliviando o sofrimento de almas angustiadas, tranquilizando espíritos agitados tornando-se o último consolo dos desventurados para além de incutir no Homem disciplina, ordem e paz. Ao passarmos por algumas desta emoções na nossa inocência, a curiosidade de menino levou-nos a descobrir esta coisa extraordinária e simples: - Que aqueles gatafunhos, seja qual for a sua origem e forma são, universalmente e desde há muitos séculos, a base de todas as estruturas musicais conhecidas, por mais complexas que sejam. E marcam, indelevelmente, a marcha do Homem e do Tempo. Bem sabemos que isto não é, facilmente, entendível a todos porque, tal como nem todos os músicos são génios, também nem todos os homens se rendem aos encantos da música. E isso deve-se menos à sensibilidade ou falta dela em cada um de nós, e mais a uma lacuna no sistema de educação oficial que nunca valorizou, convenientemente, o ensino da música nas nossas escolas ao contrário do que há séculos acontece por toda a Europa culta. Ainda hoje, o que se faz pela música nessas escolas é incipiente, insuficiente, uma fraude, em última análise são as filarmónicas que preenchem esse vazio nas populações. Felizes das terras que têm a sua Banda. A governação ainda não percebeu que a música é o tónico de quase todas as maleitas. E aqueles que não sentem necessidade nem atracção, nem qualquer vibração ao som da música, que se cuidem porque vivem ainda na idade das trevas. Mas, mesmo esses, apesar de insensíveis a estes encantos, experimentem acordar ao som de um vivace ou de um scherzo bem ritmado e verão com que enérgica alegria e disposição começam o vosso dia. E quando à noite pousarem a cabeça na travesseira relaxem e deixem-se, tranquilamente, embalar pelo suave, dolente e melancólico som de um adágio e irão, por certo, experimentar a mais bela noite de sono das vossas vidas. É que a música, sem darmos por isso, faz parte das nossas vidas. Assim é, há milhares de anos, apesar da resistência de alguns empedernidos. Todavia, nas suas mais variadas formas, a música é um daqueles mistérios do universo sempre a evoluir, sem fim e sem limites. E por muito revolucionária e demolidora que seja na sua forma, na essência trilha, sempre, os caminhos da harmonia rumo à solidariedade e paz entre os homens. Através dela aperfeiçoamos a sensibilidade e a relação com o outro é mais harmoniosa. Através dela aprendemos a partilhar alegrias e tristezas, vitórias e derrotas, ilusões desventuras e frustrações, sempre com o acorde certo para cada momento. Foi assim, e pela arte de organizar os sons, descrevendo fracassos e epopeias, harmonia e caos, comédias e tragédias, que da morte se libertaram os génios da música porque ela, só ela, é arte viva mesmo na elegia à morte! Enquanto fluía neste devaneio, eis que de repente dou por mim, com pouco mais de dez anos na Banda de Travassô a iniciar uma maratona que dura há quase sessenta, tendo sempre a música como pano de fundo em todos os actos da vida, ora a empolgar-nos nas alegrias, ora a suavizar- nos na dor, mas sempre a música companheira de todas as horas e de todas as jornadas. Cada Banda, por mais humilde que seja, é sempre a maior para as suas gentes, e será tão grande quão grande for o seu poder aglutinador das boas vontades: Por exemplo a Filarmónica da minha aldeia foi a sucedânea do Juízo de Paz que, no princípio do século XX resolvia as questões judiciais menores, no nosso concelho. Talvez por isso, ainda hoje, por lá reina paz bastante para que nos sintamos orgulhosos da nossa Terra! A música e no caso as Bandas, eleva o intelecto do homem e, tantas vezes, determina um rumo de vida. Por isso as consideramos um bem inestimável das populações. Onde quer que elas existam, quem sabe se é condição primeira para haver mais um artista em cada criança que nasça. E com isso, toda a humanidade fica a ganhar porque, o artista, não é de terra nenhuma, é do mundo. Se fosse possível medir em escala os atributos de alguém poder-se-ia, facilmente provar que se houver duas pessoas com o mesmo grau de inteligência, aquela que souber música terá sempre vantagem sobre a outra. A minha experiência diz-me que se não tivesse ingressado na Banda, eu não seria quem sou! Tudo o que se fizer pelas Bandas é contribuir, não só para a sua visibilidade e engrandecimento, mas, muito mais importante, para a harmonia na humanidade. E é por isso que eu, apesar de não ter tido oportunidade de ler o livro do maestro Costa Pinto, me antecipo a dar-lhe os parabéns. Pois, pelo que conheço, de ouvi-lo todos os Domingos no programa coreto da Antena 2, acredito que há-de ser uma obra muito útil à história das Bandas em Portugal. Reitero os meus agradecimentos ao Maestro, à organização em geral e ao meu bom amigo Mário Cardoso em particular, pela honra que me deu de participar com este simples testemunho a encerrar este colóquio na apresentação do livro Coreto do Maestro Costa Pinto. Santa Maria de Feira, 2010-10-14 A. Silva Presidente da UBA- União de Bandas de Águeda" Depois desta intervenção, largamente aplaudida,o Maestro Costa Pinto agradeceu toda a atenção e considerou-se um homem feliz na companhia dos muitos amigos presentes. Galeria de Fotos