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Banda de Sanguinhedo na ribalta
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Não vale a pena os músicos andarem de costas voltadas. A Rua Direita ia ficando preenchida de gente numa azáfama descontraída e serpenteante. Adivinhava-se uma grande noite de arraial. A noite estava ventosa, obrigando ao uso de uma peça de agasalho. O epicentro do povo tinha lugar na Capela Nova. Aí se concentrava uma pequena multidão para ouvir a Banda de Sanguinhedo. O enquadramento estava perfeito. O lugar é convidativo, parecendo congregar as pessoas numa união salutar. As enchentes nunca são paralisadoras porque tanto povo ali, numa forte dimensão humana, viva e expectante justificava-se. A actuação da Banda de Sanguinhedo era aguardada com natural ansiedade e cada pessoa queria conquistar um bom lugar, um nicho qualquer num espaço cheio de história, cenário ideal para a exibição de bandas filarmónicas. Ali, as pessoas sentem-se reconfortadas pelos sons que saem dos instrumentos e parecem ser abençoadas pelos 3 santos que lá do alto da capela lançam enigmáticos olhares. Com estes ingredientes a magia acontece… O arraial de São Pedro continua a ser muito participado e as bandas são a principal atracção. Um concerto nesta noite é sempre uma viagem delirante para a conquista de mais uma glória. Foram duas horas estonteantes de música e a Banda de Sanguinhedo esteve à altura dos seus pergaminhos já ancestrais. Duas horas de uma boa montra de temas que o público seguiu e se deliciou. Sanguinhedo já nos habituou a isso. Houve musicalidade e espectacularidade denotando-se justos equilíbrios nos naipes e uma multiplicidade de instrumentos de percussão que não quis dar nas vistas, mas apenas se quis integrar no colectivo, enredando-se nele, sublimando na sua diversidade rítmica uma acção interventiva que só valorizou o conjunto. Ficou, por isso, um belíssimo registo numa área que normalmente se quer assumir de forma espalhafatosa e desajustada. O repertório foi bem animado e diversificado. Quase no final ouvimos duas belíssimas rapsódias bem populares, que impeliram alguns pares para o insondável prazer da dança. Pouco a pouco, músicos e maestro foram construindo um entendimento perfeito e estabeleceram uma cumplicidade que se estendeu rapidamente aos espectadores que vibraram em aplausos de alegria. Sem procurar destacar nenhum dos músicos, temos que nos penitenciar perante uma peça a solo tocada pelo clarinetista Pedro Moura. Tocou as Czardas de Monti com brilho e veemência avassaladora. Singularidade na técnica e no som depurado e límpido. Tocou de memória o que favoreceu a interiorização da leitura, mantendo sempre um desempenho nunca desligado da caracterização da obra que obriga a um continuado virtuosismo técnico. As Czardas são uma dança tradicional húngara de grande beleza, viva e alegre, sugestiva em alguns momentos na evocação do canto da Natureza e no seu movimento por vezes acelerado que funciona como um poema que anuncia o amanhã imprevisível e pintado de fortes emoções… Os pianos surgiram como uma espécie de ave-maria matinal. Foi muito bonito ouvir este músico na sua arte que impressionou. A Banda de Sanguinhedo tem feito um trabalho de grande seriedade e solidez artística. Os sucessos devem-se à sua direcção mas também ao seu maestro Alexandre Fraguito, que tem sabido desenhar um percurso artístico de grande mérito, deixando uma marca indelével de obra feita por onde tem passado. Este maestro é também intérprete de instrumentos de madeira, professor insaciável e incansável estudioso de música dirigindo com alguma frequência formações de orquestras jovens cujos resultados têm sido muito bem-sucedidos. Um reparo menos positivo, prende-se com a má educação de algum público jovem de outras bandas que, de costas voltadas para o palco, conversavam e riam à gargalhada alheando-se do espectáculo, perdendo uma boa oportunidade de ouvirem boa música quando deviam era respeitar o trabalho dos outros. Esta má criação é intolerável e incompreensível uma vez que a aprendizagem musical nas bandas devia contemplar princípios de civilidade e solidariedade. Como se pode interpretar bem uma obra profunda de sentimentos e subtilezas emocionais se os jovens não conhecem as regras básicas da educação? Os músicos e as bandas têm que puxar para o mesmo lado para salvaguardarem o seu futuro que se prevê difícil e comprometido… Não vale a pena os músicos andarem de costas voltadas. aderito.silveira@hotmail.com