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04 de Agosto, 2026

Mateus e Revelhe em Constantim

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Crestadas pelos temporais e encardidas pelas desgraças, as pessoas, ainda novas, em algumas aldeias transmontanas pareciam velhas e mirradas. Gastas pela vida e pela dor, as caras desenhavam-se a sulcos colados e retalhados em pele encarquilhada, queimada e seca. No Verão, as montanhas conseguiam ainda mostrar alguns fios de água e as fontes ofereciam o líquido abundante que as raparigas iam buscar nos cântaros aproveitando, quando podiam, para namoriscar ou tagarelar… Em Constantim, em noites de luar, dormia-se com os sonhos da fantasia e com a esperança de um futuro sempre melhor. As raparigas sabiam cantar as modinhas do tempo e os rapazes espraiavam-se no despertar da adolescência através da exibição imaculada das danças ou toque aprimorado de um qualquer instrumento musical. O gosto pela música implantava-se facilmente no coração de cada habitante e a música de bandas filarmónicas passou, desde há muito tempo, a fazer parte de uma necessidade interior e contemplativa. Ainda hoje, o povo sabe ouvir e ao toque das bandas manifesta-se ruidosamente à frente delas a caminho dos coretos e puxam-nas como se tratasse de um troféu que vai encher de alegria toda a turba quando em cima do palco se ouvir a euforia dos acordes e a subtileza das melodias. Constantim continua a surpreender com o seu arraial pela qualidade e pela novidade. Parece que de ano para ano o entusiasmo fervilha e cresce e a multidão transforma-se e transcende-se numa subjugação à magia da música. Este ano, estiveram presentes Mateus e Revelhe de Fafe. Duas jóias da filarmonia portuguesa, cujos atributos de qualidade são irrefutáveis. Duas formações com invejável história, com um passado exemplar de brio e revelação interpretativa. Quem não viu, não viu. Quem perdeu, perdeu um concerto excepcional, do melhor a que se assistiu, nos últimos anos, sem qualquer exagero. A simbiose perfeita entre bandas e público aconteceu numa noite serena para se presenciar um bom concerto… O espectáculo deixou literalmente silenciada a assistência, aquela massa humana que em Constantim se delicia e não quer perder nenhum momento de som. Inteligente a escolha do repertório. Repertório típico para festas populares, porque se deixou ouvir tudo ou quase tudo, levando a que os ouvintes se calassem no espírito da música e se colassem permanentemente na sua dialéctica discursiva. As bandas tiveram uma boa pose de palco, atitude irrepreensível de respeito mútuo e simpatia. Impressionaram porque mostraram uma arte imensa que se transportou rapidamente a todo o recinto moldado de povo vibrante, educado e atento. Raramente se tem visto um quadro tão apelativo e motivador para as bandas tocarem. Nenhuma noite gelada arrefeceria o imenso calor que saía de cada instrumento, porque cada músico sabia compreender e interpretar o que estava a tocar. Assim, a música é uma arte contagiante e maior. Nos arraiais onde há bandas de qualidade, verifica-se a conciliação de gestos e de olhares e por vezes os olhos deixam cair pingos de lágrimas que agitam e dão luz ao coração… Mateus e Revelhe, duas bandas com dois maestros categorizados que sabem gerir como ninguém os aplausos que lhes são tributados. Eles utilizaram a grandiosidade da subtileza das dinâmicas, visando a obtenção de uma gestualidade musical que emergiu e se desenvolveu de forma quase genial profetizando a beleza encantatória do poder da música. Os professores Carlos Pereira e Ilídio Costa pautaram-se por uma regência contagiante, vestida de elegância, sobriedade e rigor, conseguindo dos seus músicos um som imaculado de cor irresistível de ouvir. Deve estar feliz a comissão de festas pelo sucesso do arraial, assim como terão ficado radiantes, S. M. Feira, S. Bárbara e S. Frutuoso, à chegada das bandas e do povo à Igreja Matriz. Todos aqueles sons e barulhos eram já o culminar da missão cumprida e da promessa de que para o ano Constantim vai continuar a apostar nas bandas, claro está com a ajuda providencial dos santos da freguesia…Constantim já ganhou o estatuto de uma festa apetecível e emblemática para as bandas porque ao recinto vai uma imensa legião de fiéis e de bons ouvintes. São já raras as manifestações de música popular onde pontificam duas colectividades filarmónicas de qualidade indiscutível. Parabéns Constantim. aderito.silveira@hotmail.com