Agenda :

De momento não existem eventos registados

18 de Maio, 2026

150 Anos, 150 Músicos!

Clique na imagem para ver o tamanho original

Integrado na edição deste ano do FermentelosFest, teve lugar no passado sábado um concerto realizado pela Banda Marcial de Fermentelos que foi, simultaneamente, de comemoração e de homenagem.

De comemoração, porque neste ano de 2018 passam 150 anos desde a fundação daquela que é a colectividade mais antiga do concelho de Águeda, e uma das mais antigas do distrito de Aveiro, que não só enobrece a vila de Fermentelos, como é um orgulho do concelho e de uma região.
Mas também de homenagem, merecida, a todos os associados, dirigentes, maestros, executantes, responsáveis pela formação, pais e encarregados de educação, e apoiantes, e a todos aqueles, e são muitos, que neste século e meio, anónima e desinteressadamente, sempre deram o melhor de si pela Banda Marcial de Fermentelos.

Sob a batuta de Hugo Oliveira, actual maestro, e dos ex-maestros Gil Miranda, Silas Granjo, João Dias e Luis Cardoso, esta comemoração e homenagem juntou em palco 150 músicos de várias gerações, que se apresentaram com uma das gravatas, ou lenço, que fazem parte de um fardamento que usaram, ou usam, ao serviço da Rambóia.

O concerto iniciou-se com a marcha “Ulisses”, composta por Luis Cardoso em memória do Presidente da Direcção Honorário Ulisses Carvalho de Jesus, dirigida pelo maestro Hugo Oliveira, actual director artístico da Banda Marcial de Fermentelos.

Uma vasta gama de interpretações, desde as mais tradicionais, incluindo marchas, rapsódias e transcrições de orquestra, até obras contemporâneas, algumas das quais exclusivamente compostas para a instituição.  É esta diversidade de repertório, que é a imagem de marca da Banda Marcial de Fermentelos.

Do seu vastíssimo rol de apresentações, faz também parte uma obra belíssima, do compositor italiano Gioachino Rossini, célebre pela sua abertura na qual se destaca o som repicado tão característico das caixas. A escolha desta obra foi do maestro Gil Miranda, e a sua interpretação é uma uma homenagem a todos os músicos fermentelenses, e particularmente a dois clarinetistas e a um percussionista que passaram pelas fileiras da Rambóia: referimo-nos ao saudoso Juan Marques, mais conhecido por “Anzol”, pela alegria e tenacidade com que a executava em sintonizada parceria com Cândido Santos, outro distinto clarinetista e compositor desta terra, e ao também saudoso Abel Ferreira, mais conhecido por Ti Abel da Rita, que na execução dos solos de caixa sempre mostrou elevada responsabilidade e particular entusiasmo. Para dirigir “Gazza Ladra”, a segunda apresentação desta noite memorável, subiu ao palco o maestro Gil Miranda, que foi director artístico da Banda Marcial de Fermentelos entre 1992  e 1996.

Ao atingir um século e meio da sua existência, a Banda Velha pode, sem falsa modéstia, definir-se como um todo em constante erupção, onde o esforço de todos é avaliado pela afectividade, pelo sacrifício, pela dedicação, pela emoção, e pela paixão.

E quem conhece a Banda Velha sabe, que só dessa forma é possível contribuir para que os sonhos de toda a Família da Rambóia se tornem realidade, e onde todos não são demais para levar ainda mais longe o nome da Marcial, nesta difícil mas honrosa causa de realçar as particularidades da Banda Velha, tornando-a cada vez maior e melhor.

A obra que se seguiu também tem algumas particularidades: inspirada nas margens da Pateira, foi-lhe atribuído o título “Os Golfos do Cepo Mouro” pelo seu compositor José d’Oliveira Pinto de Sousa, que foi o 7.º maestro da história da Banda Velha,  e é certo que depois de 1908 não mais foi interpretada pela Banda Marcial de Fermentelos. Tendo Luís Granjo e Diogo Diogo como solistas, subiu ao palco o maestro Silas Granjo, que foi director artístico da Banda Marcial de Fermentelos entre 1980  e 1987, e que é neto do compositor e maestro José d’Oliveira Pinto de Sousa.

Bem sabemos que ser dirigente, maestro, executante ou simplesmente associado da Rambóia, é ser-se inconformado por natureza, é ter alma quente, é querer sempre mais e melhor. A maioria das vezes exuberante e devastadora, e algumas outras, certamente trivial, a Banda Marcial de Fermentelos conseguiu erguer até hoje um património cultural que vai muito para além daquilo que os olhos nos deixam ver.

Andamentos diferentes são também os que constituem a obra que será interpretada de seguida. Da autoria de Emílio Ruiz Cebrián, “Una Noche en Granada” é um poema lírico, que em três tempos identifica claramente as características tradicionais da música espanhola. A escolha desta obra para o concerto desta noite foi do maestro Carlos Marques, que foi director artístico da Banda Marcial de Fermentelos entre 2007 e 2009, e entre 2014 e 2015, e que não podendo estar presente por imperativos de ordem profissional, deixou no ensaio geral deste concerto a seguinte mensagem: «Na música, como em tudo na vida, é muito importante que nunca nos esqueçamos das nossas origens. E quem nasceu na Banda Velha, nunca se esquece disso.» Para dirigir esta obra, em substituição do maestro Carlos Marques, subiu novamente ao palco o maestro Hugo Oliveira.

Nestes 150 anos eclodiram duas guerras mundiais, e foram grandes as debandadas provocadas pela guerra colonial e pelo forte surto de emigração do início da segunda metade do século passado. Mas à custa do trabalho e da dedicação de muitas mulheres e de muitos homens, a Rambóia nunca parou, tendo tido sempre a capacidade de transformar qualquer dúvida ou ansiedade, numa força e num horizonte que lhe transformou a alma, e numa fé inabalável que a converteu num símbolo.

Simbólica também, foi a peça que se seguiu: uma polka / fantasia da autoria do compositor Francisco Pereira de Sousa, intitulda “Recordando a Mocidade”, e que entrou para a história da Banda Marcial de Fermentelos por ter sido a primeira interpretação a solo de Fernando Dias, com apenas 14 anos de idade, na década de 80 do século passado. Nessa altura, o grupo de jovens que esteve na génese daquela que foi primeira Banda Juvenil, era dirigido pelo maestro João Dias, e esta foi uma das obras interpretada no primeiro concerto desse grupo. Com o privilégio de ouvir o solista Fernando Dias, subiu ao palco o seu irmão, o maestro João Dias, que foi director artístico da Banda Marcial de Fermentelos entre 1996 e 2000, e que dedica esta obra a todos os Rambóias, e em especial aos seus pais.

Muitos dos músicos que iniciam a sua formação na Escola de Música da Banda Marcial de Fermentelos dão sequência à sua actividade em Conservatórios, Escolas Profissionais e Universidades, quer nacionais quer estrangeiras, surgindo como valores que, como docentes, servem por todo o país em escolas de música, orquestras sinfónicas, bandas civis e militares, e toda uma vasta panóplia de agrupamentos musicais de elevado nível com os quais colaboram. De entre tantos, destacamos um virtuoso do saxofone e um dos mais profícuos compositores de originais e arranjos para banda do actual panorama nacional, e sob cuja direcção artística a Banda Marcial de Fermentelos foi a primeira banda filarmónica amadora a actuar na Sala Guilhermina Suggia, da Casa da Música no Porto, em 2007, naquele que é um dos pontos altos da longa história da Banda Velha. É também da sua autoria a obra que se seguiu, uma selecção de temas que atravessa gerações, que evoca diversos estados de felicidade, e que na história da Marcial também tem a sua própria história, e que é a seguinte: Numa bela noite de ensaio, Luis Cardoso apresentou uma obra original, que às primeiras passagens não teve a melhor receptividade de alguns dos músicos. Com a amizade que os une e com a confiança que essa amizade gera, um dos músicos mais antigos resolveu marcar posição, mostrando um isqueiro ao maestro enquanto lhe dizia que as partituras da nova obra eram boas para queimar. Luis Cardoso entendeu a mensagem, e uma ou duas semanas depois trouxe uma nova obra para o ensaio. Depois de algumas passagens, e perante o visível agrado da banda, Luis Cardoso perguntou ao Sérgio Taroca, à laia de provocação, se aquela também era boa para queimar. Foi assim que “Xutos Medley” entrou para a história da Marcial, que durante algum tempo teve a exclusividade da sua interpretação, tornando-a num ícone da música filarmónica, que hoje é interpretado por todas as bandas do país. Para dirigir ‘Xutos Medley’, subiu ao palco o seu autor, o maestro Luís Cardoso, que foi director artístico da Banda Marcial de Fermentelos entre 2000 e 2007.

O concerto terminou com a marcha intitulada “RAMBÓIA”, da autoria de Cândido Santos, sob a direcção do maestro Silas Granjo.

O muito público presente, que não regateou calorosos aplausos à iniciativa, teve ocasião de confirmar que ao atingir um século e meio da sua existência, a Banda Marcial de Fermentelos conseguiu erguer até hoje um património cultural que vai muito para além daquilo que os olhos nos deixam ver, conservando as linhas mestras da sua origem, mantendo-se hoje como um autêntico corpo em brasa, com uma raça imensa e com a vontade nos limites.

No final, os presidentes da Câmara e Assembleia Municipal, da Junta e Assembleia de Freguesia, acompanharam os presidentes da assembleia geral e o vice-presidente do conselho fiscal da colectividade a entregar lembranças aos maestros.

Com uma recordação do momento ficaram também todos os músicos presentes.

O momento foi ainda ocasião para serem publicamente apresentados dez alunos da escola de música da instituição que passam a fazer parte do elenco da banda principal, e que são: Matilde Lemos, flauta; Constança Pimentel, fagote; Inês Xavier e Letícia Tavares, clarinete; Mariana Castanheira, Diogo Gabriel e Tiago André Pires, saxofone; Gabriel Lemos e Lucas Pires, trompa, e Tiago Gabriel Pires, trompete.

A direcção da Banda Marcial de Fermentelos aproveitou ainda a oportunidade para fazer entrega de uma lembrança a cada uma das associações presentes na edição do FermentelosFest deste ano.

 

Rodrigo Massadas