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Concerto de Páscoa
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Realizou-se há dias um concerto de Páscoa na Sé de Vila Real. Os intervenientes foram alunos e professores do Conservatório de Música.
Programa superiormente concebido em que o público assistiu sempre muito entusiasmado. Prova evidente de que estamos no momento certo para redescobrir repertórios novos onde fragmentos de obras podem atingir as raias do sublime. Na verdade, a Sé é o espaço ideal para que as vozes atinjam a magnitude do som como vibração pura do sentir da alma. É um espaço onde a acústica goza de um amplo tempo de reverberação dando um relevo mágico às sonoridades…
O programa teve duas partes distintas. A primeira foi preenchida por uma Missa Branca de Andrea Basevi. Gloriosas as vozes brancas em jovens promissores que simplesmente encantaram num coro equilibrado e que se elevou em pureza e graciosidade, conseguindo uma afinação segura e timbre límpido. O coro foi privilegiado pelo órgão executado de forma simples e subtil impressionando nos fraseados contemplativos como fonte inspiradora para o fluir das vozes genuínas e frescas.
Como sempre o professor Tadeu Filipe esteve à altura expressando uma sedutora linguagem estética num instrumento a ganhar cada vez mais adeptos pelos seus recursos musicais quase que inesgotáveis.
Embriagante no fraseio, com uma noção magistral do tempo, o diretor do coro- Plácido Carvalho- soube interpretar uma peça delicada e bem construída. Dirigiu bem, fluindo nos movimentos a precisão de quem sabe o que está a fazer. A sua direção fácil envolveu e contagiou os jovens cantores…o seu rosto traduziu isso mesmo.
Na segunda parte ouvimos o Requiem de Gabriel Fauré. Música profunda ao mesmo tempo espiritual que enlevou e sacudiu para a grandiosidade das grandes obras. A Fauré se deve as melhoras páginas da criação artística. Ouvimos vozes que irromperam e subjugaram, deixando em alguns momentos uma espécie de nó na garganta de saborosa nostalgia ou de arrepiantes emoções… vozes admiráveis, num programa escolhido a dedo para esta quadra tão especial. Um programa que suplantou as expectativas. As sonoridades das vozes e da orquestra de clarinetes surgiram como murmúrios, ora doces, ora inquietantes onde facilmente se plasma o sofrimento da humanidade confrontado o horror da morte com a libertação refletida na surpreendente cumplicidade dos vários instrumentos e das vozes medularmente expressivas.
Para o êxito desta emblemática obra de Fauré contribuíram, para além do coro misto, os vários solistas e a direção do maestro Luís Filipe Santos. Todos estes intervenientes corresponderam ao desígnio do autor em que Fauré apela à avassaladora força emocional insuspeitada. Como foi possível que este Requiem fantástico, criado em 1877 tivesse atingido popularidade só depois da II Grande Guerra Mundial?
A soprano Joana valente possui um fraseado apoiado por um timbre penetrante em que a voz se deleita e transborda como que fazendo um apelo à celebração da criação humana… esta professora de canto do Conservatório de Música de Vila Real tem sabido trabalhar os seus alunos, preparando-os para o mundo emocionante do canto lírico.
O Requiem de Fauré, enquanto género musical de liberdade criativa, coerência estética e força expressiva, beneficiou da prestação do solista –baixo- José Gonçalves que assumiu pela sua voz a força de um som bem colocado e penetrante. Quanto ao maestro Luís Filipe Santos, uma vez mais ele foi o espírito brilhante revelador de uma interpretação tranquila e firme. Nos seus movimentos tudo é envolvente e maleável. Tudo gira em perfeita harmonia. É sabido que a finalidade de um maestro de coro ou orquestra é conseguir que todos cantem ou toquem como se fossem um único instrumento guiados por uma só vontade…Luís Filipe Santos, sabe fazer isso muito bem, com natural sobriedade e paixão. Ele foi mais uma pedra de toque deste espetáculo.
No final a assistência ovacionou de pé um concerto memorável. Ninguém ficou indiferente.
O Conservatório Regional de Música de Vila Real, mais uma vez correspondeu, mostrando um desempenho artístico de qualidade e insubstituível. Além do estímulo que representa para quem estuda música, este conservatório tem sido um bom sensor das mudanças que estão a ocorrer no ensino em Portugal. Os professores têm sido esse motor fundamental.
Nos últimos anos, várias iniciativas deste género provam de sobejo que possuímos material humano e público muito interessado. Espetáculos como este merecem itinerância. E este foi mais um concerto que mostrou que Vila Real nasceu para ser inundada de música. Haja vontade
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real