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Homenagem a Fernando Lopes-Graça
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Continuando uma colaboração iniciada em 2004, com a realização de um concerto de Natal, a Banda Comércio e Indústria (Caldas da Rainha) e o Grupo Coral dos Pimpões juntam-se de novo para a realização de um concerto em que se evocam dois factos marcantes da nossa história e cultura recentes: o 25 de Abril de 1974, ocorrido há 32 anos, e a figura ímpar da música e da cultura portuguesas de quem se comemora este ano o centenário do nascimento: Fernando Lopes-Graça. Fernando Lopes-Graça (1906-1994) é consensualmente considerado como um dos mais notáveis compositor e musicólogo do século XX. Autor de uma vasta obra que abrange todos os géneros, da música sinfónica à música de câmara, passando pela música vocal e solística, foi também um homem de cultura, ligado a movimentos literários como a Presença, fundador da sociedade de concertos «Sonata», autor de um notável conjunto de obras literárias onde exemplarmente expressa a sua visão da música, da cultura e da sociedade. O seu empenho na luta contra o regime autoritário do Estado Novo é também sobejamente conhecido. Esse facto valeu-lhe várias represálias como a prisão ou proibição de ocupar o posto de professor de piano e solfejo no Conservatório, apesar de ter ficado em 1º lugar no respectivo concurso. Esta militância cívica manifesta-se nas suas tomadas de posição, mas também na sua própria concepção da música: «Que hei-de dizerr-lhes acerca da Música, que os interesse e que esteja ao meu alcance? Poderia dizer-lhes enfim, como além de uma Arte a considero uma Religião, a minha única religião (...) e como visiono uma única Religião do Futuro, a única Religião de uma Humanidade Livre, Justa e Sábia». Uma das mais evidentes manifestações desta militância são as «Canções Heróicas», assim descritas pelo próprio autor na capa da edição discográfica de 1974: «O que são as “Canções Heróicas” que, pela primeira vez, se oferecem ao público editadas em disco? Resumidamente, podemos dizer que são obrinhas de circunstância, ou, se quisermos ser mais explícitos e sem temer o uso rigoroso das palavras, defini-las-emos como canções politicamente empenhadas. Politicamente empenhadas no sentido, ou na medida, em que pretenderam contribuir — e cremos que, de facto, contribuíram — para a luta do povo português, a que primordialmente foram destinadas, contra o regime despótico, anti-democrático e violentador de corpos e de almas que durante cerca de cinquenta anos lhe foi imposto. Eram, pois, essas obrinhas, essas canções — e para tal foram concebidas — uma arma: uma arma pacífica, mas não inocente, ao serviço da nossa oprimida grei, da sua libertação, da sua exaltação, da sua fraternização. E que nesse seu escopo, nessa sua missão, elas eram temidas pelos tiranos que tinham nas mãos o poder repressivo (e não poucos nem pouco odiosos estes eram), revela-o a circunstância da primeira fornada destas pecinhas, compostas em 1945, nas vésperas do grande frémito nacional desencadeado pelo Movimento de Unidade Democrática, e publicadas em 1946 sob o título de “Marchas, Danças e Canções” (acrescente-se o seu subtítulo: “próprias para grupos vocais ou instrumentais populares”), haver sido apreendida pela polícia política sob ordem da Censura. O que impediu que as canções, algumas das quais se haviam já tornado verdadeiramente populares, pudessem ouvir-se em espectáculos ou sessões públicas realizados, como até então, em colectividades populares de Lisboa e localidades circunvizinhas, mas não impediu que fossem cantadas nas prisões, no exílio e em animados convívios à margem (nem sempre!) da vigilância policial». É precisamente com um conjunto de “Canções Heróicas” que se encerra o programa deste concerto, numa versão para banda e coro realizada expressamente para o efeito. Poderá parecer de certo modo abusiva a ousadia de “mexer” na obra de Lopes-Graça, originalmente escrita para coro com acompanhamento de piano. Estamos no entanto convictos de que não traímos as intenções do autor, antes pelo contrário. Em primeiro lugar, porque esta versão consiste tão só na instrumentação do acompanhamento de piano, respeitando integralmente a sua escrita. E em segundo, porque, como se depreende do excerto acima transcrito, o próprio Lopes-Graça admitia uma certa liberdade na interpretação destas obras ao indicá-las como “próprias para grupos vocais ou instrumentais populares”. De resto, no prefácio da mesma edição, o autor escrevia que «por muito satisfeitos nos daríamos, considerando o nosso escopo inteiramente alcançado, se alguma vez estas canções passassem ao anonimato das verdadeiras canções populares, provando-se assim a necessidade delas e enriquecendo-se o nosso folclore poético-musical com alguns aspectos que ele quase inteiramente desconhece. (…) O nosso desejo é que estas canções sejam para toda a gente e toda a gente as possa tocar, cantar e bailar. Sobretudo o povo, está bom de ver». Cremos assim perfeitamente justificada esta versão, que nos parece ir de encontro ao desejo de popularização das “Canções Heróicas” manifestado pelo seu autor. Outro aspecto da obra de Lopes-Graça que faz a ponte entre a música erudita, que ele representava, e as raízes populares que sempre procurou, são as «Canções Regionais Portuguesas». Sob esta designação publicou vinte e quatro séries de canções tradicionais harmonizadas para coro. Primordialmente destinadas ao Coro da Academia de Amadores de Música, que dirigia, aqui experimentou muitas das soluções estéticas que viria a incorporar em outras produções. Sobre elas disse o autor numa entrevista realizada em 1974: «O meu interesse pela música popular portuguesa e o uso que dela tenho feito no meu próprio trabalho de criação resultou, antes de mais nada, de uma tomada de posição política ou, talvez melhor dito, ideológica: a de uma comunhão com o povo português, abandonado, se é que não vilipendiado, por um regime, seus próceres e seus beneficiários, para quem esse povo era apenas um rebanho bruto e amorfo de que havia a extrair o melhor e mais barato rendimento. À imagem de um povo-escravo quis eu substituir (sem o alcançar, certamente) a imagem de um povo-gente, procurando homenageá-lo e magnificá-lo através do que constituía uma indubitável força espiritual sua — os seus cantos tradicionais, vera e eloquente expressão da sua vivência e da sua condição humana num tempo de vil desprezo. Sem contar que nesses cantos, nessa música do nosso povo, pelas potencialidades estéticas que encerra, se me oferecia, se podia oferecer aos compositores nacionais, como ponto de partida para a criação de uma arte musical individualizada e traduzindo o nosso próprio modo de ser, sem contudo cair nas facilidades ou no convencionalismo de um “nacionalismo” de superfície, pitoresco e insulso, atraiçoador do verdadeiro “nacional” ou sua caricatura, como por demais se verificou em tantíssimas daquelas manifestações artísticas que, ironicamente, ficaram designadas por “estilo SNI”». Joaquim António Silva/ João Paulo Fernandes Eis o programa do concerto a ter lugar amanhã, no Auditório dos Pimpões, pelas 21h45: Banda Comércio e Indústria de Caldas da Rainha Direcção: João Paulo Fernandes Consuelo Císcar (Pasodoble de Concerto) - Ferrer Ferran Italienische Lustspiel Ouverture (Abertura) - Ted Huggens Mancini Magic (Selecção de filmes) - Henry Mancini, arr. Jerry Brubaker The James Bond Theme (Banda Sonora) - Monty Norman, arr. J. van Kraeydonck Português Suave (Rapsódia) - arr. Carlos Marques Grupo Coral dos Pimpões Direcção:Joaquim António Silva Pastyme With Good Company - Henri VIII (1491-1547) El Rio - Trad. Perú, harm. De Cesare O Voso Galo, Comadre - Trad. Galiza, harm. M. Groba Cio da Terra - C. Buarque/M. Nascimento, harm. F. Carrilho Go Down, Moses - Trad EUA Ai, la-ri-lá - Trad. Minho Não Segueis o Trigo Verde - Trad. Trás-os-Montes, Harm. F. Lopes-Graça Maria da Conceição - Trad. Beira Baixa, harm. F. Lopes-Graça Banda Comércio e Indústria de Caldas da Rainha/Grupo Coral dos Pimpões Direcção: João Paulo Fernandes Canções Heróicas F. Lopes-Graça - arr. João Paulo Fernandes Acordai! - José Gomes Ferreira Jornada - José Gomes Ferreira Mãe Pobre - Carlos de Oliveira Convite - Antunes da Silva Firmeza - João José Cochofel Cantemos o Novo Dia - Luísa Irene Combate - Joaquim Namorado Ronda - João José Cochofel Livre - Carlos de Oliveira Canto de Paz - Carlos de Oliveira