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29 de Julho, 2026

Homenagem ao Maestro João Neves no contexto do 26º Festival da UBA

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– Tomo a palavra num misto de alegria, porque estamos a comemorar o 26º aniversário da UNIÃO, e tristeza, porque hoje vemos partir o mais carismático maestro de todos os tempos. Carismático, corresponsável e ativista no milagre que aconteceu nas bandas do Concelho da Águeda.

As bandas que nos contagiaram ao nascer e nos deram pela vida fora enormes alegrias ao conquistarem o País e o mundo, numa clara demonstração da sua atual qualidade, contrastam com a realidade de há apenas algumas dezenas de anos atrás. Todos nos lembramos do que elas eram, como eram e o que representavam no panorama musical do nosso País: muito pouco, seguramente! Nós, e mais alguns que restamos dessa época e com a graça de termos ainda alguma memória, lembramo-nos bem da música que por cá se fazia, há umas décadas atrás. Felizmente que hoje a música é outra, numa realidade bem diferente, como daqui a pouco comprovaremos, neste arraial. Mas, apesar delas hoje estarem num patamar superior, reconheçamos que, naquele tempo, ter uma filarmónica, mesmo que muito limitada, era um privilégio de uma aldeia onde, às vezes, mais nada havia. E foi esse quase nada o embrião das maravilhas que hoje aqui se apresentam, a encher-nos de orgulho!

Nesta hora de homenagens, façamos a nossa vénia aos seus fundadores e continuadores, que as ampararam até aos nossos dias, sacrificando, às vezes, a família e a própria vida para manterem as suas “bandinhas” em atividade, legando-no-las como a semente que havia de frutificar, e que, nos anos oitenta, consubstanciou a mais arrojada façanha. Para isso, contribuiu de forma decisiva uma radical mudança nas mentalidades dos diretores, a par de uma grande melhoria na qualidade dos músicos e um esmerado profissionalismo dos maestros.

E à medida que a mudança ia tendo visibilidade, gerou-se à volta delas um movimento solidário que chega até aos nossos dias, com resultados nunca antes vistos, e que alastrou por todo o concelho num feliz contágio, mobilizando populações e entidades, evitando assim, numa situação extrema, a extinção de algumas delas. Foi um virar de página na alma das nossas coletividades, que, ao tempo, roçavam níveis de miséria e, pior que isso, enciumadas entre si, desconfiadas de tudo e todos, estavam de costas voltadas e orgulhosamente sós!

Em todo o processo de mudança teve um peso fortíssimo a atitude dos mecenas, cujo comportamento merece os nossos maiores encómios. Já Wagner dizia que “os mecenas têm que sentir-se orgulhos e felizes quando abrem a bolsa para promover a cultura”. Pode pois dizer-se que os mecenas nos honram com as suas notas, e nós honramo-los com as notas com que preenchemos as suas necessidades culturais e fazemos as suas delícias! Nesta simbiose de “notas” deixo mais uma nota: nós continuaremos persistentes na nossa música, na esperança de que vocês continuem no vosso mecenato, com abundância e regularidade, na certeza de que, assim, a música estará afinada!

A UBA é obra dos homens e mulheres de boa vontade, que fizeram acontecer o milagre. Ao comemorarmos o 26º aniversário, realçamos o trabalho de todos os que estão atentos às necessidades das nossas bandas, porque só assim é possível terem hoje sedes dignas, com escolas e bons professores, material didático e boas ferramentas, repertório e mestres conhecedores das pautas. Tudo isto a fazer esquecer a penúria em que elas viviam há alguns anos atrás, quando, do estojo dos músicos, faziam parte borrachinhas cortadas das câmaras-de-ar das bicicletas, a substituir as molas enferrujadas dos clarinetes e saxofones, e sabão para tapar os buracos da velhice nos trompetes e nos trombones, para não falar de alguns elementos integrados nas suas fileiras, que não sabiam uma nota de música. Que música se poderia fazer assim?!

Não pretendemos denegrir o passado, mas também não queremos esquecê-lo porque nós somos produto desse passado… Honramo-lo! Finalmente, as nossas bandas têm carta de alforria e, por força da sua maturidade, conquistaram o País e o mundo. Hoje, elas discutem taco-a-taco a primazia de um qualquer confronto musical e são muito mais que isso: todas elas deixam um rasto de exemplar comportamento, respeito e ordem, numa conduta irrepreensível, a contrastar com os tempos em que, se a noite não acabasse com cabeças partidas, vontade não faltava a muitos, principalmente aos adeptos do deus Baco! Felizmente tudo mudou: As disputas mesquinhas que originavam desordens deram lugar ao companheirismo, existindo hoje, entre elas, um ambiente de lealdade e bem-estar. Tudo isto faz parte da qualidade!

Acabaram-se as mal disfarçadas alfinetadas, as esperas e as pedradas. Acabaram até as disputas mesquinhas, de língua afiada! O vírus mau foi combatido com antídotos balsâmicos que suavizaram os mais agrestes. Hoje impera a lealdade, entreajuda e compreensão, impensáveis há um par de anos atrás. As nossas bandas saíram do caos e são hoje as heroínas da concórdia, porque, perante o imperativo de guerra ou paz, a escolha foi a paz.

E isto teve o contributo esforçado de diretores, músicos, maestros e, sim, também das populações, que passaram a adeptas das boas práticas. Até as claques de apoio têm uma postura serena, elevada e cordata, própria de gente civilizada, chegando mesmo a ser difícil perceber quem é que apoia quem.

O staff da UBA tem contribuído para o clima sereno que se vive entre todos, com uma decisiva influência da juventude a provar que não é uma juventude rasca, como muita gente faz crer. Dela recebemos, todos os dias, grandes lições e a maior colaboração! Por tudo isto, é uma grande honra coordenar a maior força associativa do nosso concelho: a música! Mas honra maior é partilhar das suas alegrias e conviver com esta amálgama humana de homens e mulheres, alguns ainda crianças, e perceber o quanto a música contribui para os ajudar a serem respeitadores e respeitados, como são. Seguramente, far-se-ão os homens e mulheres com quem a humanidade pode contar!

Nesta peregrinação, agradecemos às autarquias o apoio que nos dão – mesmo sabendo a pouco, é sempre muito bem-vindo! À Câmara Municipal de Águeda, que honra a UBA com um voto de confiança, dizemos que contará sempre com a lisura dos nossos métodos e a transparência da nossa cartilha. Aos músicos, atores principais neste cenário, confessamos o orgulho que sentimos quando os vemos aprumados no seu uniforme, com o garbo e a responsabilidade de quem pratica a mais bela arte do mundo. Aos Homens da batuta, príncipes do conhecimento e do saber, enquanto professores e mestres, dizemos que são responsáveis por uma geração em formação – a geração que os há-de avaliar vida fora, com a coroa de glória pela sua perseverança ou o prémio da indiferença pelo seu desinteresse. Nós, UBA, como sinal de que estamos atentos ao que por cá se passa, homenageamos, hoje e pela primeira vez, um dos nossos mais carismáticos maestros. Esta homenagem não premeia apenas o tempo de batuta – simboliza o reconhecimento da UBA pelos bons serviços prestados pelo mestre ao serviço da música, ao longo de uma vida. Porque a eleição recaiu, por unanimidade, no maestro João Neves, não resistimos à tentação de revelar alguns capítulos da importante história que ele já escreveu.

Estávamos em 1980, quando a Banda de Travassô dava os primeiros passos pelo norte do País. Um dia, para colmatar uma das muitas necessidades no naipe dos clarinetes, pedimos ajuda ao João Neves que, de imediato, se disponibilizou para o desempenho desse papel… e que desempenho! No dia aprazado, chegados ao local das festividades, antes de subir ao coreto para iniciar o concerto, ele, João Neves, no seu inconfundível estilo de bom profissional, brioso quanto baste, desmesuradamente voluntarioso e irrequieto, até ao limite, roçando às vezes a irreverência, assumiu o controlo da afinação, enquanto todos nos perfilámos à sua volta, como quem está sequioso de beber daquela fonte. Logo aí, percebemos que o seu profissionalismo não convivia muito bem com as nossas desafinações: desafinações provocadas, além do mais, porque nessa altura, na “12 de Abril”, estava em marcha um processo de mudança da tonalidade do instrumental. Com os fundos de tesouraria sempre em baixa, íamos fazendo a mudança à medida dos parcos recursos que íamos conseguindo. Assim convivíamos com uma miscelânea de diferentes registos tonais: instrumentos brilhantes misturados com normais. Vocês, músicos, sabem bem o “paladar dessa sopa”! Apesar disso, e depois do toque subtil do João Neves, num misto de “mete bomba, tira barrilete”, a ideia que nos ficou daquela noite é que nunca tocámos tão bem. O concerto abriu com “O Barbeiro de Sevilha”. Desde junho de 1980, persegue-me um fantasma que até agora nunca tive coragem de revelar… Trinta e quatro volvidos, neste momento mais que apropriado, deixem-me desvendar um segredo que até hoje foi só meu: naquele concerto, nem o pouco de que eu era capaz consegui fazer, porque, absorvido pela arte do companheiro de ocasião, qual rouxinol trinando de palheta bem afinada, fiquei hipnotizado, alheando-me da minha missão que ali me trazia e quedei-me com o clarinete pousado nos joelhos, como se tivesse sido transladado para outro planeta, apenas regressando à terra com uma grossa reprimenda do Zé Lima, à época, regente da “12 de Abril”. Foi um privilégio sentar-me ao lado de um músico daquela envergadura e o momento ficou, para sempre, gravado no meu subconsciente. Quando o concerto acabou, apesar das estrelas convidarem ao repouso, eu não conseguir dormir, não tanto pela admoestação do regente, inebriado pelos sons maravilhosos que escorriam de entre os dedos do artista e que, noite fora, continuavam a chegar aos meus ouvidos, como brisa no deserto a refrescar-me a alma!

A partir daí, acometido pela atormentação do sono perdido, fixei-me apenas numa ideia: levar o João Neves, então disponível, para maestro da “12 de Abril”… o que acabaria por acontecer trinta dias depois. Assim se fez um maestro, dos mais proeminentes de entre os que passaram pelas Bandas do nosso País. Ninguém pense que foi fácil vê-lo partir cinco anos mais tarde, predestinado que estava a afirmar-se, com brilhantismo e dignidade, como o grande líder da “Banda Nova”, de onde é originário. Hoje, ao interromper a sua prestação em Águeda, sentimos já a sua falta. Reconheçamos, ao menos, que ele esteve na base da grande mudança nas bandas nossas associadas: mudança no estilo, mudança na forma. Confesso-me triste porque o trabalho, que, juntos, iniciámos há 34 anos, obrigou-nos a um convívio quase diário, virando do avesso a performance, o estilo e os repertórios das bandas no nosso concelho, com repercussões em todo o País. Eu, que me considero um prisioneiro da gratidão, não posso ignorar aqueles com quem convivi, privei e aprendi: com o João Neves, a relação esteve nas margens da familiaridade, sendo a sua filha Joana, minha afilhada, e a gratidão alastra-se à “12 de Abril”, que foi seu berço na mestria e onde se conserva um generalizado sentimento de respeito pelo “mestre da grande mudança”. Não só na plêiade dos músicos vivos mas também dos que fizeram já a sua marcha final, todos reconhecem, de forma bem vincada, que o João Neves foi decisivo no paradigma musical que hoje se vive nas bandas… em todas as bandas! Quando se apagam as luzes da ribalta, se fecham as cortinas do espetáculo, conservemos uma réstia de gratidão por quem, com devoção, dedicou uma vida a ensinar… e são centenas os seus pupilos! Oxalá nunca esqueçam o mestre!

Às vezes há desencontros, com decisões atribuladas, que nos levam pelo caminho mais difícil, por imperativo de consciência em atingir a meta traçada no nosso horizonte. Nessas ocasiões, o nosso carácter, mesmo provocando mazelas, não permite nenhum desvio da rota, quando almejado no objetivo final. Depois, com o tempo, os elementos ajustam-se e as dores passam: as feridas sararam, as marcas perpetuam os momentos bons daquele tempo e, felizmente, os ressentimentos não existem!

Chegados aqui, com todas as penitências já cumpridas, esquadrinhemos na arca do passado e no muito de bom que lá existe, sobressai a grande relação do maestro João Neves com a música que se faz nas bandas da UBA. Reconhecido que está o mérito do homenageado na grande mudança no paradigma da música em Águeda, recordo as lutas que travámos juntos, as derrotas que sofremos e as vitórias que alcançámos. De entre os trastes depositados no baú de recordações, existe um manancial de razões para, com um profundo sentimento de respeito, pelo homem e pela sua obra, em nome de toda esta família UBA, digo: “obrigado João Neves!

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