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Marcial de Fermentelos nas Festas de São Bartolomeu do Mar (Esposende)
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Entre todos os Santos, evidencia-se um bem singular, São Bartolomeu, o único que tem cumplicidade com o Diabo de tal modo que no seu dia anda o demónio à solta pelo mundo, pelo menos durante duas horas.
Diga-se, em abono da justiça, que São Bartolomeu não é o único a manter relações com o Diabo. Outros há. São Bento de Barcelos concede-lhe lugar no seu santuário, onde os crentes oferecem «uma esmola para comprar tabaco» a uma imagem do Diabo que fuma um cigarro. É evidente que quem beneficia das doações é São Bento. Protegido pelo Diabo, temos ainda São Cipriano que, embora daí lhe venha fama duvidosa, não deixa de ser padroeiro de diversas freguesias do Norte. Nos locais de culto, que vários são, do Alentejo ao Norte, a maior festa sucede em São Bartolomeu do Mar, aldeia que se orgulha de ter sido fundada pelo próprio demónio. É já no dia 24 de Agosto. Gente vinda de arredores e de mais longínquo, geralmente mais de dez mil pessoas, vão encher a terra, colorir a aldeia e entregar-se ao ritual do banho santo apadrinhado por São Bartolomeu.
Os banhos no mar no dia de São Bartolomeu, são santos mas fazem-se sob o olhar e a presença do Diabo a pairar e poderão ser interpretados como uma aproximação, um contacto pois, como salienta o professor Moisés Espírito Santo, «o Diabo, posto em liberdade vai “emprenhar as Águas do mar”». Os mergulhos têm de obedecer sempre a um número impar, já que o impar se inscreve na ordem do sagrado: três, sete, nove. Os devotos seguem a tradição sem interrogar os porquês, os padres, mesmo quando os sabem, calam-se.
Aliás, o padre vem com a procissão abençoar o mar, fingindo, como um pai benevolente, que não vê o paganismo que rodeia a festa. Os devotos molham os pés, mergulham e fazem mergulhar, à força se for preciso, as crianças, fracas, anémicas, medrosas, sem apetite, gagas, nervosas, possessas, sossegadas demais, sonhadoras ou que vêem coisas de noite. A todos, adultos e crianças, os banhos curam os medos, a epilepsia e a histeria que, para aqueles e outros muitos lados, se crê doença só de mulher.
Se entre nós, não se dança, como sucedia na Idade Média neste santo dia, come-se e bebe-se bem, depois dos banhos. Assim, segue-se, na ordem do ritual uma refeição nas dunas, que inclui galinha, o que evidencia a importância maior da festa pois as aves eram manjar de senhores. Teria de ser galinha preta, embora hoje se admitam outras cores. Nos restaurantes, nesse dia, as ementas só referem carne e os ovos de galinha preta, garantia que não é crível dada a escassez da mesma. Mas simula-se que assim é porque assim tem de ser, pois ao Diabo só agradam as galinhas pretas e se ele anda à solta há que agradar-lhe.
Por isso são pretos os pintos que os romeiros, desde sempre, levam nas mãos, pagando promessas, pedindo benevolências, cumprindo os preceitos do culto. Ao passar, com as suas aves negras, por debaixo do andor do Santo, fazem os devotos uma pequena festa na sua pequena imagem, pegam-lhe e pousam-na, brevemente, na cabeça. Este gesto afugenta os medos. «Para passar o medo a uma pessoa, bate-se-lhe uma imagem de São Bartolomeu na cabeça, dizendo “medo fora!”», afirma o povo das cercanias e de mais longe.
Fazem, também, rastejar as crianças por debaixo do andor em que assenta o Santo. Segundo o professor Moisés Espírito Santo «é como se as crianças passassem por debaixo das saias da mãe e reproduzissem a cena do nascimento sob os auspícios do Santo paternal. Os responsáveis pela igreja pousam depois uma pequena imagem do Santo na cabeça de cada criança, num gesto que evoca a descida do filho do ventre materno. O Diabo ataca os miúdos à noite e durante o sono (momento em que os indivíduos reactualizam a sua situação intra-uterina). O Santo, pai vigoroso, afasta as pretensões de uma potência envolvente e garante às crianças a autonomia em relação às mães».
Por fim deixam os galináceos pretos na capoeira, que se encontra na sacristia ou no adro da igreja, para serem leiloados a seguir à procissão. A oferta das aves ao Santo corresponde à consagração pagã dos animais aos deuses. É notavelmente ambígua a refeição da galinha negra observada no dia de São Bartolomeu, à semelhança dos rituais totémicos «em que a ingestão do animal se torna uma espécie de comunhão». Comer, um símbolo do diabo, não representa anulá-lo mas receber algo dele.
O leilão é animado e rentável para a igreja. Passeia-se na Feira do Linho, iniciada na véspera, toma-se entre os dedos a qualidade do tecido, recorda-se o ditado «a boa fiandeira de São Bartolomeu toma a vela e a mais boa de Madalena». E a festa prossegue até noite, agora com novos sons pimbas, jogos, bem comer e melhor beber.
Sossegados os temores das doenças e de outros males esconjurados pelo banho santo e pela oferta das aves negras, voltam à noitinha, as mulheres e os homens dos arredores e mais longínquos, recolhido já o Diabo por mais um ano.
Não há pois que hesitar. Vá conhecer a 24 de Agosto, São Bartolomeu do Mar, a aldeia que o Diabo fundou, molhe os pés. Mergulhe pelo menos três vezes, dance e cante na romaria e, entretanto, se persistir o medo de encontrar o Demo, nas dunas ou ao virar de uma esquina, deixe debaixo do travesseiro, três castanhas piladas, que já ele não entra consigo. E pode gozar, descansadamente, a Festa de São Bartolomeu, com o Diabo à solta.
Este ano estas festas em honra de São Bartolomeu do Mar, contam com a presença da Banda Marcial de Fermentelos, no dia 23 de Agosto, que em despique com a sua congénere Banda Musical de Arcos de Valdevez, actuará a partir das 15.00 horas até à 1.00 da madrugada.
Os interessados em acompanhar a Marcial a Mar podem reservar o respectivo lugar no autocarro através dos telefones 234191590 (Ester Pepino) e 234721004 (Barbearia Costa).
Jorge Mendonça