Agenda :

De momento não existem eventos registados

17 de Agosto, 2026

Música erudita: Muita teoria, pouca prática

Clique na imagem para ver o tamanho original

Formação de jovens músicos tem melhorado mas ainda apresenta lacunas Globalização do mercado dificulta saídas profissionais sólidas Apesar das melhorias verificadas nos anos mais recentes, a formação de músicos em Portugal continua a padecer da ausência de adequada preparação prática dos formandos. A consequência mais penalizante é a dificuldade na prossecução de uma carreira exclusivamente artística, agravada pelo facto de o mercado de trabalho assumir, crescentemente, uma amplitude transnacional. "Relativamente ao canto, se os alunos não procurarem pós-formação académica que lhes permita começar a trabalhar com pessoas ligadas ao mundo da ópera, vão ter imensos problemas em vingar", assume Elisabete Matos, soprano portuguesa estabelecida em Madrid. Jorge Vaz de Carvalho, director da Orquestra Nacional do Porto, considera que o "nível global da formação não é bom", contudo, ressalva que existem excepções, como é o caso do ensino do piano. "Existem professores e formandos de óptima qualidade, como António Rosado, Pedro Burmester, Artur Pizarro ou Jorge Moyano. Para um país desta dimensão, é excelente". "Mas a maioria deles completou a formação no estrangeiro", salienta. "Não há protocolos" Por seu lado, António Saiote, professor na Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo, do Porto, maestro e clarinetista, destaca, como exemplo, a "inexistência de protocolos" entre o estabelecimento de ensino que representa e a orquestra da cidade como um dos obstáculos a saídas profissionais consequentes para os alunos da instituição. "No que respeita à composição, em termos gerais, há grandes problemas, porque não existe ainda uma formação musical com o enquadramento prático que ela mereceria. O que há é um ensino extremamente teórico. Em Inglaterra, a vertente prática é alucinante", exemplifica Pedro Amaral, compositor formado no Conservatório de Paris, após a conclusão dos estudos superiores em Portugal. Para o maestro António Vitorino de Almeida, "a impressão não é favorável, mas é indiscutível que houve progressos enormíssimos no ensino. Está melhor do que há 20 anos". Nesse sentido, o interlocutor do JN realça o papel "importante das escolas profissionais, que estão a fazer um belíssimo trabalho". Já a formação a nível superior "está longe de ser a desejável". Elisabete Matos alerta para a dimensão planetária do meio laboral, cujas particularidades "forçam a que se esteja atento a múltiplos aspectos, nomeadamente, a imagem, a colocação em palco, o nível intelectual..." "Actualmente, não é suficiente possuir uma voz extraordinária. Até porque, em Portugal, não há ainda a consciência plena de que o canto é uma disciplina que requer um tipo de formação diferente". "Os nossos futuros músicos têm de 'apontar às estrelas', devem ter uma forte estrutura psicológica para enfrentar uma concorrência que não se circunscreve ao pequeno mercado nacional", advoga Jorge Vaz de Carvalho. "Têm de se convencer que, hoje em dia, lhes é exigido muito mais", acrescenta. António Saiote crê que o problema da viabilidade profissional não é somente português "Em Espanha e em França, a situação tem similaridades com a nossa. É mais um aspecto da globalização". Algumas das vicissitudes nacionais corporizam-se pela "falta de criação de orquestras e de projectos de financiamento, mormente nas autarquias". Para o docente, a "interacção entre os ministérios da Educação, da Cultura e das Finanças" poderia ajudar a solucionar diversos entraves estruturais. Pedro Amaral julga que, "na esfera política, devia tomar-se em conta a especificidade do ensino da música. Só com as obras tocadas, é que os jovens compositores podem perceber o que há a melhorar". Aponta a realidade francesa "Executa-se, pelo menos, uma obra do aluno em cada ano lectivo". "Em Portugal, não há essa tradição, o que pode comprometer o percurso composicional", junta. "Tacanhice de espírito" São mais contundentes as palavras de António Vitorino de Almeida "Em questões de trabalho, nunca estivemos tão mal. Há um desinteresse total e boçal por parte das entidades competentes. Presencia-se uma tacanhice de espírito quando se quer criar uma orquestra. Diz-se que é um luxo. Basta comparar Espanha e Portugal para se perceber a diferença". Prossegue. "Há muitos casos de músicos que são forçados a optar por tirar outro curso. Depois, dão umas aulas aqui, uns concertos acolá. Obviamente, não chega". "Quando se funda uma escola superior, tem de haver cuidado com as peculiaridades de cada instrumento. A área menos conseguida é a formação de cantores, na qual não há, por exemplo, conhecimentos na abordagem ao palco", observa a soprano . Jorge Vaz de Carvalho considera que "na generalidade, ainda não possuímos um ensino de qualidade europeia". Porém, recorre à experiência própria para traduzir alguns avanços. "Fizemos audições internacionais, bastante exigentes, para recrutar executantes de violas de arco para a Orquestra Nacional do Porto. A maioria dos músicos seleccionados era portuguesa". Fonte: Jornal de Notícias