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“Ouvir a Banda da Armada é revigorar a alma”
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Ter saudades não é mau. É um reavivar de memórias e de histórias. Ao lembrar Lisboa e o tempo que passei pela Marinha, sinto que estou perto das coisas eternas e que um perfume volátil e macio me acompanha e me inebria…esse perfume pode ser uma rua ou um beco, um grito de pregão, a blasfémia de um bêbado de taberna, um olhar pelo Tejo, uma metáfora saída de uma voz de esquina, uma canção em jeito de fado, ou a voz roufenha de vendedores de lotaria ou de rifas, ou até o gingar provocador de uma varina… Há dias desci a Infante Santo e vislumbrei a ponte da Pampulha estóica e segura a suportar pessoas e o peso vibrante dos autocarros. Em mim nasceu a alegoria fantasmagórica de uma épica e sedutora Lisboa. A música entrelaçou os meus pensamentos e logo fui desafiado a trautear uma interminável ressurreição de melodias pertencentes ao repertório da Banda da Armada da década de 70. No tempo, as zarzuelas pairavam incandescentes no gosto filarmónico e a população vibrava triunfal acompanhando com palmas e trauteios segmentos melódicos mais conhecidos. Havia outras composições que suscitavam revelações de amores passados em estéticas remanescentes porque ainda hoje as sinto de modo diferente…havia ainda músicas populares que criavam nostalgia a quem facilmente se perdia pelas coisas singulares da terra distante e que para lá chegar se demorava 12 horas ou mais em comboios ronceiros até Trás-os-Montes… Continuo a descer a Infante Santo e, agora mais de perto, vejo a azáfama frenética do movimento de gente que me parece indócil e indiferente mas firme e que em passos ligeiros desaparece como água de rio bravo, audacioso e secreto. Sinto uma natural ansiedade para chegar à ponte para assim ficar mais perto da Praça da Armada, espaço e lugar privilegiados pois dá entrada para as instalações onde a Banda da Marinha faz os seus ensaios e arquitecta artística e gigantescamente um mundo fascinante e indelével de sons. Tem sido assim ao longo dos tempos… Na sala de ensaio a música ouve-se reverberativa e mágica, ora solene ora trágica mas sempre arte maior e florescente saída de instrumentos tocados com insofismável verve e classe: Entrei. E logo fui bafejado pela força de uma música que exalava aromas sonoros que me inebriaram e embalaram para uma espécie de catarse, “obrigando-me” a fechar por momentos os olhos para sentir mais dentro tudo o que ouvia. A peça era simplesmente arrebatadora na sua textura rítmica exigindo de todos um grande tecnicismo e sentido depurado de musicalidade. A forma como o fizeram patenteou que a Banda tem no seu quadro musical talentosos artistas que correspondem em verdadeiro rigor à espiritualidade e inteligência artística do seu maestro -1º Tenente Délio Gonçalves. Na sua condução houve epifania de indizível beleza e rigor, registando-se nos seus movimentos a aura de uma miraculosa recuperação de sons que pareciam fugir mas que, como uma espécie de magnetismo eles voltavam ao centro de gravidade articulando-se na harmonia fabulosa da música na sua totalidade e grandiosidade. Parece-me que este maestro será no futuro objecto de reverência e de culto na arte da direcção da Banda da Armada: um génio mesmo – um génio vivo direi, porque consegue dos músicos uma interpretação tão fluida e incrivelmente densa - qualidade sonora suficiente para a fruição prodigiosa onde o fenómeno do som se eleva e transfigura… No final da obra sorri um pouco e devagar para melhor digerir o que acabava de ouvir. Fui simpaticamente recebido como alguém que passou por lá noutros tempos com dedicação e amor pela música. Emocionado fiz as minhas despedidas. Revivi uma via láctea de recordações, rostos e sonhos mas sobretudo fiz a promessa de um dia voltar. Quem passa pela Armada e pela sua banda fica “condenado” a lá voltar para matar saudades e revigorar a alma. Pensar na Banda da Armada, é lembrar uma escola de formação de homens de pleno direito de cidadania. A Banda da Armada pode orgulhar-se de ter proporcionado no país, em muitas cidades europeias e em outros continentes concertos de grandíssima qualidade. Os seus músicos, no universo das bandas militares portuguesas continuam a gozar de fama e admiração. Em qualquer lugar a Banda encanta pela competência dos seus músicos através de uma idiossincrasia que é comprovadamente forte e irrepreensível. aderito.silveira@hotmail.com *Professor