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Que força é essa banda de Mateus?
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Pessoas ansiosas conversavam momentos antes de entrarem no Auditório Municipal de Vila Real. O tema era inevitável: “Um Concerto com História num Encontro de Gerações.” Já depois da entrada, a sala fervilhava de expectativa, um pouco antes de começar um dos concertos mais esperados na história da banda e que, certamente vai fazer história. “Bonito, muito bonito”, diz uma senhora lacrimosa nos olhos invadida pela emoção, enquanto olhava para alguns músicos antigos que iam integrar a banda em duas obras emblemáticas: Ilhas Maravilhosas e Aguarela Popular. É a banda revisitada por alguns antigos músicos que vão dar um novo colorido aos sons numa paleta que é eterna desde o tempo do seu fundador. A Banda de Música de Mateus continua a mostrar os sons de exuberância artística, ao mesmo tempo que procura a constante criatividade no sentido de dar à música a primazia da dignificação da arte enquanto manifestação da criação humana. E tem-no conseguido com uma força por vezes inexplicável…que força é essa, Banda de Mateus? Que forças têm movido tantas vontades ao longo dos tempos para que a banda comemore os 200 anos da sua existência sob o signo humano, cultural e musical? Que forças têm ditado a confrontação de energias e sacrifícios tão duradouros, persistindo a auréola providencial e inaplável do Frei que fez de Mateus o seu santuário de amor e de arte? Para o apressado ritmo de vida que o mundo hoje nos impõe, é aconselhável parar para pensar o porquê da longevidade da banda e das suas qualidades e méritos. Sabemos que a importância de um acontecimento não se mede pelos sucessos imediatos, mas pela duração das suas repercussões. Creio que a obra da criação da banda continuará a ser tomada como referência pelo papel que a colectividade sempre soube dar ao pensamento da cultura e à concepção visionária de melhor querer fazer… Com um espírito desassombrado, regulado pelo sentimento único de justiça, reconheça-se nesta direcção a preocupação em valorizar o património da Banda de Mateus, procurando juntar a recriação de ambientes e estados de alma pela evocação da presença de “velhos” músicos com outras experiências e emoções estéticas. Todos, fazem a força redobrada e permanente da banda. Designação feliz: “Concerto com História, Encontro de Gerações.”Tributo para todos os músicos vivos e todos os que já partiram levando a música nos seus pensamentos para a etérea e infinita vida eterna. Calcorreando a pé dezenas de quilómetros para as festas, os músicos de outrora eram bafejados pelas gotas de orvalho que fulgiam ao seu contacto corporal mas que não feriam os olhos porque esses músicos tinham que chegar a casa onde a família os recebiam de braços abertos com amor em purificado elo fraternal. À chegada, não raras vezes as crianças perguntavam ao pai:” Não traz nada para nós comermos?” Quase sempre o pai ou o irmão mais velho traziam alguma coisa, pois os patrões eram bons e sabiam da alma grande dos músicos e das suas necessidades materiais. Melão ou melancia era quase certo e isso enganava algumas misérias… mas foram esses e outros grandes homens que cobriram no seu coração de ouro a alma grande de Frei Vicente. Ao ouvir a banda tocar, senti que havia ali algo de hipnótico nos sons emanados, como se eles fossem a corrente visível da arte na sua corporalidade sublime. Uma actuação estrondosa eloquentemente evocadora da pretensão de um concerto especial, aqui e ali pintada de geniais e exaltantes solistas inspirados pelo fluxo da paixão à Banda de Mateus. Exaltante foi também ouvir a solista de oboé, Diana…Como é possível tocar-se tão bem com tão pouca idade? Também a técnica esmagadora e versátil dos clarinetistas Fábio, José Viana e José Pinto facilmente impressionaram não só pela qualidade sonora mas também pela forma coesa e apelativa com que discorreram nas notas que pareciam enfeitiçadas pelas mãos dos artistas… Muito bem esteve o solista António Carlos que na Rapsódia Aguarela Popular tocou com muito agrado mostrando ainda uma bonita e sugestiva sonoridade. Músicos antigos que tocaram no concerto e os que não tocaram estiveram todos afinados no mesmo diapasão de amor à banda, onde a nostalgia num ou noutro caso fez brotar do coração a lágrima incontida da saudade e da permanente paixão…doeu mas foi bonito… A apresentação do espectáculo esteve a cargo da Drª Paula (Bé…) . De voz límpida, viva e bem timbrada, transmitiu com humor e inteligência a força das suas palavras. Quanto ao Maestro Carlos Pereira, foi simplesmente seguro e envolvente numa excelência de condução directiva só ao alcance de alguns… Meticuloso em todas as linhas de movimento, o Maestro elevou a música à glória maior do Universo da Paixão. Adérito Silveira