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29 de Julho, 2026

A romaria de Nossa Senhora das Febres

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Finalmente chegara o dia por que Job tanto esperara: 8 de Setembro, dia que acontece nove meses após o dia da Imaculada Conceição celebrada em 8 de Dezembro e no qual, a partir do século V, começou a celebrar-se a Natividade de Maria, assim passando a comemorar-se o nascimento de Nossa Senhora.

Como bom filho da terra, Job também era um devoto de Nossa Senhora das Febres, padroeira do lugar de Perrães, cuja invocação está intimamente relacionada com a existência das febres palustres ou sezões do paludismo, hoje conhecidas por malária.

De há mais de oito décadas a esta parte, e ano após ano, Job nunca deixou, em cada dia 8 de Setembro, de estar presente naquela que ainda hoje continua a ser a maior romaria do concelho de Oliveira do Bairro e que, embora com menor dimensão, mais se assemelha às romarias minhotas.

Logo pela manhã, a chegada das filarmónicas contratadas pela comissão das festas: a de Casal de Álvaro e a Marcial de Fermentelos, presença mais assídua nestas festividades.

Depois de pequenos desfiles em entradas distintas, ambas foram conduzidas ao largo fronteiro à capela da padroeira, local onde cumpriram a tradição ao terminarem esta primeira parte da sua actuação com a execução conjunta de uma marcha escolhida por acordo dos respectivos maestros durante o forte abraço que trocaram enquanto formularam o desejo recíproco de boa actuação.

Job recordou então os tempos de antanho, quando as pessoas vinham e aproveitavam para apresentarem a Nossa Senhora das Febres os seus pedidos e as suas mágoas, imbuídos de uma fé tão exagerada que até a equiparavam em divindade ao próprio Deus.

Apesar da sua já muito respeitável idade, Job ainda retém na memória a lembrança dos tempos em que a capela da padroeira era muito concorrida pelo povo, que aí demandava provindo de várias partes para pagar promessas, agradecer ou pedir graças para os seus males, ou simplesmente por devoção, em autênticos corrupios de gente agradecida à santa, entronizada como Senhora dos Febres, assim mesmo, no masculino, como então diziam os pescadores da Pateira, num culto que depressa se espalhou pelas redondezas.

Logo de seguida a missa, celebrada no referido largo a céu aberto de forma a permitir a presença de todos quantos quiseram participar na solenidade, a celebração do sacrifício de Jesus Cristo na cruz.

Ao final da manhã, a procissão, cuja abertura coube a uma parelha de luzidios cavalos, obedientes aos militares que os montavam, e que deram ainda mais imponência ao já de si augustal momento; atrás destes, pequenas alas de crianças vestidas de anjinhos posicionadas entre os andores, no último dos quais se encontrava a imagem de Nossa Senhora das Febres, com o Menino ao colo do lado esquerdo, de cujo pedestal sobressaem alguns anjos como se fosse Nossa Senhora da Assunção, e que apesar de não chegar a ter dois palmos e meio foi, em sinal de respeito e de amor, invariavelmente acolhida com um leve inclinar de cabeça por parte dos anónimos populares.

Depois dos andores seguia o pálio em que se encontrava o Santo Lenho, transportado por homens que ostentavam engomadíssimas opas vermelhas, e à passagem do qual os cristãos conscientes se ajoelhavam por considerá-lo uma partícula da Cruz de Cristo.

Logo atrás, e devidamente incorporadas na majestosa solenidade, seguiram as filarmónicas, antecedendo o alegre e numeroso acompanhamento que fechava o festivo cortejo, perante o olhar atento e conhecedor do aglomerado de gente posicionada em cada um dos lados do curto trajecto, e que apesar do sol abrasador persistiu em tomar parte nesta romaria em agradecimento à Senhora que noutros tempos intercedera pela cura das pestilências que, periodicamente, atormentavam os homens e mulheres das margens da Pateira que circundam o lugar de Perrães.

Compenetrado do acto de culto público em honra da Senhora das Febres em que seguia, Job guardou o silêncio e o respeito que a solenidade impunha, sempre crente que importa cumprir religiosamente tais votos porque só assim as pessoas são abençoadas pela graça divina, ao mesmo tempo que ouvia com deleite os acordes graves e sincopados da ‘Avé Maria’ que saíam das campânulas das tubas e dos bombardinos dos alvarenses.

É por via desta veneração que Job sabe que todos os santos foram homens ou mulheres, que todos os cristãos são chamados à santidade, e que nas várias ocupações e géneros de vida, é sempre a mesma santidade que é cultivada por aqueles que são conduzidos pelo Espírito Santo, adoram a Deus em espírito e em verdade, e seguem a Cristo pobre, humilde, levando a cruz, a fim de participarem da Sua glória.

E mesmo sem ser dotado de uma sabedoria infinita, Job também sabe que todos os santos são modelos de simplicidade, de amor ao próximo, de perdão e de concórdia; e também sabe que as imagens que seguem nos andores, não sendo os santos propriamente ditos, são as suas representações, pelo que, ao olhá-Las, o espírito dos homens deve elevar-se para Aqueles que estão nos céus e que por eles pedem a Deus.

Ostentando o já puído fato de lã que exalava um forte odor a naftalina Job lá foi, pisando o longo tapete pejado de verdes naturais que se encontravam espalhados por todo o percurso e onde só muito raramente se encontravam rosmaninho e alecrim, apreciando as agora cuidadas bermas da estrada e marchando sem nunca perder de vista cada passo que era dado pelos músicos filarmónicos que seguiam à sua frente marcando invariavelmente o tempo forte de cada vez que tocavam no chão com os seus pés esquerdos, assim acompanhando de forma irrepreensível o rufar das caixas.

A procissão recolheu ao compasso da ‘Inspiração Divina’ executada pelos fermentelenses, determinando a hora do almoço e Job, que havia sido preciso nas ordens que dera em casa havia já uma semana, sabia que em dia de festa, o rancho seria melhorado. Cumprindo-se o seu pedido, a mesa foi farta, e mesmo antes da sopa, composta com generosos nacos de carne de vaca, Job abriu as hostilidades devorando dois valentes pedaços de trigamilha, que regou com tinto de colheita própria, o melhor da região, como Job faz sempre questão de esclarecer; de seguida avançou para uma tenra e suculenta, e ainda fumegante chanfana de carneiro cozinhada em forno de lenha, acabando por acamar de vez o estômago com dois ou três pedaços de costela de leitão assado igualmente assado em forno de lenha, que acompanhou com outras tantas taças de espumante da bairrada, fechando a refeição com duas pequenas fatias de aletria.

Como era tradição, ali estava toda a descendência de Job, filhos e respectivas noras e genros, netos e bisnetos. Também presentes os maestros de ambas as filarmónicas, convidados de honra, o Cónego Melo, amigo de longa data, e os primos Martins, do Albergue, Duarte, da Azurveira, Manuel, da Caneira, Cruz, da Limeira, Zeca, do Passadouro, Reis, das Agras e Inocêncio, de Malhapãozinho; sempre atenta mas sem estar sentada à mesa, a inefável Maria, criada há longos anos e que passou a ser o grande amparo de Job desde que este enviuvara. Proprietário de profissão e agricultor a tempo inteiro, Job, que também se dedica à pesca no pouco tempo livre de que dispõe, só consegue dar conta de toda a lida da casa com o valoroso préstimo da Maria, criada a tempo inteiro e mulher para todo o serviço.

Depois do lauto repasto, Job estava então pronto para enfrentar uma tardada de música, assistindo ao despique das filarmónicas. Separadas pela Pateira de Fermentelos mas unidas pela música, a Marcial e a Alvarense mantiveram renhido despique na execução de pasodobles, aberturas de ópera, fantasias, rapsódias e obras ligeiras, com os do lado de lá a responder sempre a preceito a cada obra interpretada pelos de Fermentelos.

Job, que não sabe uma nota de música, não perde um despique filarmónico.
E a Job não interessa quem toca melhor, porque desde jovem que reconhece qualquer banda como um capital social valioso, com substancial impacto e influência na vida da comunidade, através da agregação de valores sociais e culturais de inclusão, e da construção de identidade e coesão territorial, e que para além do seu papel na preservação, divulgação e formação musical, pode também ser facilmente apercebida como centro de socialização local e inter-relacional, pois é aí que convivem jovens e menos jovens e se juntam os que sabem e que os aprendem música, coabitam diferentes classes sociais, e onde coexistem profissionais das mais diversas áreas.

E por isso, para Job não há bandas fracas, todas são boas, muito embora para si a vencedoras dos despiques sejam, invariavelmente, as que executam a rapsódia ‘Desfolhando Cantigas’, obra que o fascina desde que há muitos anos atrás, teve oportunidade de conhecer pessoalmente Manuel Ribeiro da Silva, o agora centenário compositor que viu actuar no Coliseu do Porto, como primeiro executante de trombone da Orquestra Sinfónica do Porto, num dos cerca de dois mil concertos em que actuou durante os trinta e três anos que se manteve nessa orquestra.

O concerto da tarde foi encerrado no largo fronteiro à capela da padroeira, com a execução de uma marcha pela Marcial de Fermentelos, na cerimónia da entrega dos ramos aos elementos nomeados para compor a comissão das festas do próximo ano.

De regresso a casa para jantar, Job e a sua numerosa prole tiveram então ocasião para saborear uma apetitosa caldeirada de enguias da Pateira devidamente acompanhada por um branquinho produzido pelo próprio, pois claro; antes de fechar a refeição, que à noite se quer leve, Job não dispensou uns nutritivos rojões acompanhados de uns apetitosos grelos e pequenas batatas cozidas com pele, entremeados com duas ou três taças de espumante da bairrada. Para sobremesa, meia dúzia de bolinhos de coco, dourados e húmidos como só a pachorrenta Maria sabe fazer, apresentando-os em policromáticas formas de papel ondulado.

Reposta a estomacal desgasteira que sentia ao final da tarde, Job e os primos estavam prontos para assistir ao concerto da noite, no qual se apresentaram logo após terem ouvido o ribombar dos foguetes que anunciaram o início da noitada.

Mais uma vez as filarmónicas se bateram com galhardia no aceso despique que mantiveram, executando com aprumo e até perto da meia-noite, repertórios preparados para não frustrar a tradição nem desapontar as expectativas do numeroso público presente, o que encheu Job de satisfação.

Apesar disso, Job não conseguiu evitar que um brilhozinho húmido lhe percorresse o olhar, nem esconder o orgulho que sentiu ao ver e ouvir o Pardal com o saxofone, o Carlos com a tuba, o João e o Diogo com as trompetes, a Andreia com a flauta e o Leonardo com o clarinete, jovens de outras gerações é certo, mas tão filhos da terra e tão perranenses como ele, garantindo aos que o ladeavam que executavam com acerto e qualidade todas as notas que estavam escritas nas partituras. E por isso Job teria achado muito bem se cada um deles tivesse sido obsequiado com um simbólico ramo de flores.

Logo depois aconteceu o já esperado e monumental espectáculo de fogo de artifício, ao qual se seguiu a despedida das filarmónicas à imagem de Nossa Senhora das Febres, mais uma vez no largo fronteiro à capela da padroeira, culminada com a actuação simultânea por ambas as bandas na execução de uma marcha final, perante o caloroso aplauso dos circunstantes, premiados por maestros e músicos com o atendimento ao pedido que insistentemente fizeram de ‘só mais uma’, assim dando por terminada a noitada do principal dia de festa em Perrães.

Finda a festança Job regressou a casa. E no curto caminho que calcorreou, voltou a passar-lhe pela cabeça o que, de há uns anos para cá, sempre pensava no final de cada dia 8 de Setembro: mesmo que não voltasse a viver nenhum outro dia destes, já morreria feliz.

Mas para isso, seria importante que a Maria não se esquecesse de voltar a colocar pelo menos duas bolas de naftalina em cada bolso do casaco e das calças do fato de festa que há cerca de trinta anos comprara ao Quim alfaiate!